A batalha do Curiango

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Foto: Criada via Chat GPTO ano era 1965. Os militares já haviam assumido o governo. Adhemar de Barros, governador de São Paulo, criou a 1ª Olimpíada da Noroeste. Participavam as cidades localizadas ao longo da NOB, de Bauru a Dourados. As modalidades esportivas eram as mesmas das Olimpíadas da época, incluindo o futebol de salão. Andradina foi escolhida como cidade-sede. Mirandópolis participaria da competição, mas não ficaria alojada na cidade anfitriã. A delegação viajaria todos os dias.Enquanto aguardávamos o horário dos nossos jogos, assistíamos às demais disputas. Em uma partida de basquete, após um arremesso, a bola ficou presa entre a tabela e o aro. Depois de algumas tentativas frustradas para retirá-la, um dos organizadores que estava presente pegou uma bola de vôlei, colocou-a na marca do pênalti, tirou o chinelo e deu um chute certeiro, desalojando a bola.Foi aplaudido de pé. Sabem quem era? Leônidas da Silva. Ele e Valdemar de Brito eram os responsáveis pela organização dos jogos, nomeados pela Federação Paulista. A equipe de futebol de salão de Mirandópolis classificou-se facilmente para a final. O adversário seria Andradina.Aguardávamos a condução em frente ao Bar Jardim para disputar a decisão. O caminhão chegou. Era um basculante. Não falamos nada, apenas alguns resmungos. Jorge Sekino, chefe da comitiva e técnico do futebol de salão, apressava o pessoal: Subam no caminhão! Quem está faltando? Cadê o Nata?Eu apenas observava, apreensivo. Considerava o Nata uma peça importante para o time, mas sabia que ele não gostava de viajar em caminhão e, quando viajava, tinha de ser na cabine. Partimos sem ele. Makoto seria seu substituto. Chegamos a Andradina e me assustei. A quadra estava lotada. O barulho era infernal. Tinham levado a fanfarra, e a batucada era ensurdecedora. Gritavam palavras de ordem e nos ameaçavam. Tivemos de passar pelo meio deles para chegar ao vestiário.Não havia alambrado. Apenas dois policiais tentavam conter a multidão. Gente, eu era um garoto novo e confesso que senti medo. Só pensava:  O Nata fez bem em não vir.Entramos em quadra. Fenelon, Gato, Bispo, Makoto e Cabeção. Andradina entrou logo depois. O barulho aumentou ainda mais. Até fogos de artifício soltaram. Do outro lado estavam Capu, Torquato, Bicicleta, o técnico, e outros jogadores cujos nomes já não recordo.Eles escolheram o lado da quadra. Nós ficamos com a saída de bola. O juiz apitou. Makoto rolou a bola. Cabeção soltou a bomba. Gol! Gol! Gol! Do meio da quadra! Silêncio. Silêncio absoluto. Não se ouvia nem o zum-zum dos besouros. Pensei: será que é depois da bonança que vem a tempestade? Sim. A torcida despertou, caiu na realidade e passou a exigir o empate. Por alguns instantes, esqueceram de nos ameaçar.Não demorou muito. Empataram o jogo. Nova saída. Makoto rolou. Cabeção bateu. E… Gol! Gol! Gol de novo! A partida virou uma pancadaria.Apesar do medo que sentia da torcida, não afinei. Nunca tive medo de jogador. Canário e Emilinho, que jogaram comigo, podem confirmar. Eu dividia todas as bolas com lealdade, mas sem fugir da disputa e sem tirar o pé. Do outro lado, Gato, que era mais força bruta do que raciocínio, deitava e rolava. Era exatamente o tipo de jogo de que ele gostava. Na frente, Makoto parecia um joão-bobo. Caía e levantava. Caía e levantava. Era pancada atrás de pancada. Japonês valente. Cabeção não parava de reclamar com o juiz, que fazia vista grossa para certos lances. Jorge Sekino precisou ser contido por um policial porque queria partir para cima da arbitragem.Não suportamos a pressão. Tomamos três gols seguidos. A torcida foi à loucura. Pedimos tempo e conversamos. Cinco amigos. Assustados, mas unidos. Um defendendo o outro. Partimos para o tudo ou nada. Crescemos. Acreditamos no nosso futebol. Empatamos. Depois fizemos o quinto gol. O cronômetro já estava quase zerando. Era só segurar a bola. Cabeção segura. Cabeção protege com o corpo. Mas Cabeção queria chutar. Dava bico na bola rasteira. Dava bico na bola alta. Não sei como conseguia. Makoto, agora, caía por qualquer coisa. Caía e gritava. Japonês, você está exagerando! Vai acabar expulso!Cabeção perde a bola. Eles vêm com tudo. Parecia uma avalanche empurrada pela torcida. Empatam o jogo. Até parecia que o cronômetro havia diminuído a velocidade para ajudá-los. Todo mundo reclama com Cabeção: Por que você não segurou a bola? Ele respondeu: Não estou jogando futebol americano. Futebol de salão é para chutar.Nova saída. Makoto rola a bola. E então, o monstro, o iluminado. Cabeção. Bica a bola.Gol! Seis a cinco. O cronômetro zera. Somos campeões. Ganhamos a medalha de ouro. No ano seguinte, em Araçatuba, seríamos bicampeões.O post A batalha do Curiango apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.