Na madrugada seguinte à publicação da reportagem do Money Times, entre segunda (11) e terça (12), o patrimônio declarado dos quatro fundos da antiga Reag — Cutter, Maranta, Fresia e Alamo — foi reduzido nos arquivos públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O total combinado dos quatro fundos, que chegava a R$ 160,3 bilhões nos arquivos originais, ficou em R$ 179 milhões após a alteração.O Cutter, que aparecia com R$ 59,3 bilhões, passou a R$ 120 milhões. Maranta recuou de R$ 41,8 bilhões para R$ 12 milhões. Fresia caiu de R$ 34,1 bilhões para R$ 31 milhões. Alamo saiu de R$ 25,1 bilhões para R$ 16 milhões.A CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários — antiga Reag Investimentos — entrou em liquidação extrajudicial em 15 de janeiro de 2026, por decisão do Banco Central. Desde então, a instituição passou a ser administrada pela estrutura de liquidação conduzida por Antonio Pereira de Souza, ex-funcionário do BC nomeado como liquidante.O liquidante, após a publicação da reportagem, afirmou que as variações registradas nos dados públicos da CVM decorrem de um “erro operacional de processamento” das informações. Segundo ele, os valores não refletem transações reais e o problema foi comunicado ao regulador.“Explica-se que o ocorrido se deu em decorrência de um erro operacional de processamento. Conforme a própria reportagem identifica, a mencionada ‘remarcação em cotas do Cutter’, acabou por impactar os outros fundos, vez que um fundo investe em cotas do outro”, diz o email.O primeiro contato do Money Times com o liquidante foi no dia 30 de abril. Antes de republicar os dados e já após o primeiro contato da reportagem, o liquidante optou por tornar as carteiras, ainda com o patrimônio bilionário declarado, confidenciais no sistema da CVM.Agora, a última alteração dos valores foi feita por meio do procedimento de reprocessamento, pelo qual o administrador solicita ao regulador a republicação de informações corrigidas.Após o contato do liquidante, a reportagem enviou nova série de questionamentos. Entre as perguntas encaminhadas está se os patrimônios declarados, posteriormente corrigidos, chegaram a produzir efeitos econômicos concretos durante o período em que permaneceram ativos nos registros da CVM.A reportagem questionou, por exemplo, se houve resgates, amortizações, cessões de cotas ou utilização dos valores declarados como referência para operações financeiras, garantias ou transferências patrimoniais durante o período em que os fundos registraram patrimônios inflados.Em estruturas de fundos fechados, o valor da cota pode servir como parâmetro para operações privadas entre cotistas e credores. Caso alguma movimentação tenha ocorrido antes do reprocessamento, participantes da estrutura poderiam, em tese, ter utilizado os patrimônios posteriormente corrigidos como referência econômica. Não houve resposta até o fechamento desta edição.Como a estrutura funcionaOs quatro fundos fazem parte de uma cadeia em que a valorização de um ativo na base se propaga automaticamente para os fundos acima. No centro da estrutura está o Muffy FIDC, fundo de direitos creditórios classificado como parte relacionada.O Cutter detém cotas do Muffy; Maranta, Fresia e Alamo detêm cotas do Cutter. Quando o valor declarado por cota do Muffy sobe, o patrimônio do Cutter sobe na mesma proporção — e, por consequência, o patrimônio dos três fundos que detêm cotas do Cutter também sobe.Esse mecanismo é tecnicamente previsto na regulação de fundos: a marcação a mercado de cotas de fundos segue o valor declarado pelo fundo subjacente. O que os dados da CVM mostram, porém, é que o valor atribuído às cotas do Muffy não guardava relação com o preço pelo qual novas cotas do mesmo fundo eram adquiridas.Em março de 2026, o Cutter registrou a aquisição de novas cotas do Muffy a cerca de R$ 34,96 por unidade. No mesmo documento, assinado pelo liquidante, as cotas já existentes do fundo estavam marcadas a aproximadamente R$ 237 mil cada — uma diferença de cerca de 6.800 vezes entre o preço de aquisição e o valor atribuído à mesma classe de ativo, na mesma base de dados e no mesmo mês.Os dados analisados pela reportagem indicam que parte das remarcações antecede em semanas ou meses o episódio de abril atribuído pelo liquidante ao erro operacional.Em 27 de janeiro de 2026, doze dias após o início da liquidação extrajudicial da CBSF, os fundos Fresia, Alamo e Maranta registraram patrimônio líquido negativo nos informes diários enviados à CVM. O Cutter recuou de R$ 115 milhões para pouco mais de R$ 2,6 milhões no mesmo dia.No primeiro dia útil de fevereiro, os mesmos fundos voltaram a registrar valores próximos aos anteriores, sem captação identificável na base de dados da CVM. Em março, novas remarcações ocorreram em duas datas distintas — dias 10 e 17 —, com os quatro fundos registrando elevações simultâneas de patrimônio.A explosão para a casa dos bilhões ocorreu em 16 de abril. Todos os documentos foram enviados à CVM já sob a gestão da estrutura de liquidação nomeada pelo Banco Central.Um formato utilizado pela ReagA estrutura em cascata reproduz um formato que a própria Reag utilizou antes da liquidação para compor o patrimônio de seus fundos administrados.Segundo investigações da PF, a Reag teria estruturarado e administrado fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos. Ela é investigada em escândalos que envolvem o Banco Master, ocultação de propinas e até mesmo pela ligação com o crime organizado.Outra estrutura identificável da Reag era formada pelos fundos Nauatle, Maia 95 e Astralo 95. O Nauatle declarava ter investido no Maia 95; o Maia 95, por sua vez, aplicava 96,5% de seu patrimônio em cotas do Astralo 95.Abaixo do Astralo 95, uma série de FIDCs compunha a base da cadeia, entre eles Rio Vermelho, Esperanza, GSR e RSG, todos administrados pela CBSF ou por gestoras do mesmo ecossistema.Os informes desses FIDCs, enviados à CVM apenas a partir de novembro de 2025 — após período em que os fundos já apareciam compondo patrimônios bilionários em estruturas superiores —, revelavam um padrão uniforme: carteiras compostas integralmente por recebíveis classificados como vencidos e adimplentes, com inadimplência zero, sem identificação dos cedentes e com todos os ativos enquadrados na categoria mais genérica disponível no formulário da autarquia.Quatro desses FIDCs declaravam valores de carteira rigorosamente idênticos por meses consecutivos. Três deles passaram a ter patrimônios bilionários apenas após junho de 2025, quando o cerco à Reag já se fechava. A Carbono Oculto, que atingiu diretamente a companhia, aconteceu em agosto.A lógica estrutural era a mesma: o valor declarado na base da cadeia determinava o patrimônio dos fundos acima. A CBSF era administradora das estruturas cujos valores declarava, concentrando funções de administração dentro do mesmo ecossistema.Um outro fundo, chamado Nauatle, é o maior da estrutura que ainda reporta dados à CVM, não foi afetado pelo reprocessamento e permanece com patrimônio declarado de R$ 26,9 bilhões.O fundo investe no Maia 95, que deixou de aparecer nos informes públicos da CVM em fevereiro de 2026, sem registro de resgate correspondente ao patrimônio acumulado.Em março de 2026, já sob gestão da estrutura de liquidação, Nauatle declarou uma posição no Maia 95 avaliada em R$ 68,8 bilhões — valor que supera em quase duas vezes o patrimônio líquido do próprio Maia 95, que era de R$ 35,9 bilhões à época.Em abril, a posição passou a ser declarada por canal confidencial da CVM, ajustada para R$ 41,9 bilhões com passivo de R$ 7,5 bilhões, resultando no patrimônio de R$ 26,9 bilhões que permanece nos registros.