A história de “Rocks”, o auge criativo do Aerosmith nos anos 1970

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“Não éramos muito ambiciosos quando começamos”, disse o vocalista Steven Tyler. “Só queríamos ser a maior coisa que já pisou na Terra.”A frase, meio bravata meio confissão de intenções, ajuda a dimensionar o momento vivido pelo Aerosmith na metade dos anos 1970. Em 1975, o grupo alcançou um novo patamar com “Toys in the Attic”, que ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos. O impacto foi imediato — e também retroativo: os dois primeiros álbuns, “Aerosmith” (1973) e “Get Your Wings” (1974), tiveram suas vendas impulsionadas, consolidando a ascensão da banda no mercado.O rádio desempenhou papel decisivo nesse processo. Primeiro, ao transformar “Walk This Way” em um dos principais cartões de visita do grupo. Depois, ao resgatar “Dream On”, balada originalmente lançada no disco de estreia e que, relançada como single, alcançou o top 10 da Billboard, tornando-se o primeiro grande sucesso comercial da banda.Já não mais como coadjuvante em turnês alheias, o Aerosmith entrou em uma nova fase. Com agenda intensa e exposição crescente, o grupo decidiu interromper temporariamente a rotina de shows para se concentrar na gravação de seu quarto álbum. Era um momento de afirmação artística — e também de excessos, como reconhece o guitarrista Joe Perry: “Naquela época, estávamos usando muitas drogas, mas dava para perceber que, independentemente do que estivéssemos fazendo, ainda estava funcionando para nós.”Dessa combinação de pressão por um sucesso ainda maior, criatividade em ebulição e um estilo de vida cada vez mais desregrado, surgiria um álbum que transcenderia sua época e deixaria marcas indeléveis em gerações futuras. Décadas depois, Kurt Cobain, do Nirvana, o listaria em seus diários como um de seus discos favoritos, e Slash, guitarrista do Guns N’ Roses, apontaria o trabalho como um dos principais responsáveis por despertar seu interesse pela guitarra.Aqui está a história de “Rocks”.Um QG para chamar de seuDemorou cinco anos desde a formação, mas o estouro comercial de “Toys in the Attic” colocou o Aerosmith em um novo patamar: orçamento amplo, agenda cheia e status de superestrelas. O impacto financeiro foi proporcional. “Quando chegaram os cheques de royalties, fui direto ao topo e comprei uma Ferrari”, lembra o guitarrista Brad Whitford.Antes disso, porém, ainda em 1975, o grupo tomou uma decisão estratégica que se mostraria fundamental para o passo seguinte da carreira.No outono daquele ano, o Aerosmith decidiu que precisava de uma base fixa — um espaço próprio para ensaiar, compor e conviver. O encarregado da missão foi Ray Tabano, guitarrista da fase embrionária da banda. Ele encontrou um armazém vazio nas proximidades de Boston e, com o aval do empresário David Krebs, transformou o local em um quartel-general multifuncional.Batizado de A. Wherehouse, o espaço incluía um pequeno palco e uma área no andar superior, que funcionava como lounge e sede do fã-clube. A inauguração, realizada no Halloween de 1975, teve contornos de celebração à altura do momento vivido pela banda. “Cheiramos metade do Peru no escritório do Ray”, recorda-se Steven Tyler.O Wherehouse era funcional em escala incomum: comportava veículos, equipamentos e até caminhões — algo que seria determinante para o próximo passo criativo do Aerosmith. “Era tão grande que dava para estacionar carros lá dentro, o que todos os membros da banda faziam. Era grande o suficiente para abrigar um caminhão, que foi exatamente o que fizemos”, diz Tyler.Foi ali que teve início a gestação de “Rocks”. Grande parte da pré-produção aconteceu no próprio Wherehouse, em um ambiente descrito por Whitford como “acolhedor e vibrante” — características que contrastavam com a rigidez dos estúdios tradicionais.A atmosfera inspirou uma solução de gravação pouco convencional. O produtor Jack Douglas teve a ideia de levar a unidade móvel do Record Plant — basicamente, um caminhão-estúdio — para dentro do espaço.A decisão eliminou barreiras logísticas e psicológicas. Pela primeira vez, a banda podia transitar naturalmente entre ensaio e gravação, sem as interrupções típicas de um estúdio alugado. O resultado foi um ambiente de criação mais orgânico, em que conforto e confiança substituíram a pressão habitual. “Desta vez, podíamos simplesmente nos soltar e relaxar. Desta vez, estávamos em casa”, descreve Perry.Essa mudança de dinâmica teve impacto direto no som do disco — mais cru, direto e coeso. Para o guitarrista, “essa sensação de conforto e confiança é o motivo pelo qual, aos meus ouvidos, ‘Rocks’ se tornou nosso disco com o melhor som e o mais impactante”.Inspiração e autodestruição, lado a ladoO ambiente de gravação costuma determinar, em grande medida, o que uma música se torna — e, no caso do Aerosmith, isso nunca foi tão evidente quanto em “Rocks”. Instalado no A. Wherehouse, o grupo encontrou um ecossistema criativo que moldou diretamente o resultado final do álbum. Ali foram registradas todas as faixas básicas, com exceção de duas.A pré-produção ficou nas mãos da cozinha da banda: Joey Kramer (bateria) e Tom Hamilton (baixo), ao lado do guitarrista Brad Whitford e do produtor Jack Douglas. O processo se estendeu por três a quatro meses, sob a sombra inevitável do sucesso de “Toys in the Attic”. Havia uma pressão clara para que o novo material não apenas mantivesse o nível, mas, se possível, o superasse.Nesse contexto, o guitarrista Joe Perry adotava uma dinâmica peculiar dentro do processo. Segundo Douglas, ele “chegava, gravava suas partes e sabia que podia ir embora” — um indicativo tanto da confiança no próprio trabalho quanto da fluidez que o ambiente proporcionava.A adaptação acústica do Wherehouse exigiu soluções improvisadas. Sem a estrutura de um estúdio tradicional, Douglas recorreu a expedientes práticos: tapetes pendurados, carpetes espalhados, qualquer recurso que ajudasse a domar a reverberação do espaço. O resultado, no entanto, foi além do esperado:“Porque a música que estava sendo criada foi feita para se adequar ao ambiente. Não fizemos isso de propósito, mas certos riffs simplesmente soavam bem naquele galpão. Finalmente, eu disse que não iríamos para Nova York gravar — ficaríamos lá mesmo e faríamos tudo. Trouxe um caminhão para gravar remotamente. A vibe permaneceu a mesma enquanto gravávamos as faixas básicas, e isso realmente contribuiu para a magia de ‘Rocks’.”Outro aspecto fundamental foi a ampliação do protagonismo criativo dentro da banda. Se trabalhos anteriores eram fortemente associados à dupla Steven Tyler e Joe Perry, desta vez Tom Hamilton e Brad Whitford tiveram participação mais expressiva na composição. Whitford levou as bases de “Last Child” e “Nobody’s Fault”, enquanto Hamilton apresentou “Uncle Tom’s Cabin”, que evoluiu para “Sick as a Dog”. Juntos, desenvolveram “Tit for Tat”, que acabaria se transformando em “Rats in the Cellar”.Sobre essa última, Tyler oferece uma leitura que conecta diretamente música e contexto:“Escrevi ‘Rats in the Cellar’ como uma homenagem, ou uma resposta a ‘Toys in the Attic’. Rato/porão — brinquedos/sótão. Enquanto isso, na vida real, ‘Rats’ era mais parecida com o que realmente estava acontecendo. As coisas estavam desmoronando, a sanidade estava se esvaindo, a cautela foi jogada aos ventos e, pouco a pouco, o caos se instalava permanentemente.”O relato não é apenas metafórico. À medida que o sucesso financeiro permitia, o acesso a drogas também se intensificava — e com ele, o impacto direto no cotidiano da banda. Como agora eles podiam pagar, o Aerosmith conseguia entorpecentes de primeira qualidade. Todos os grandes traficantes começaram a rondar a banda. O ambiente criativo, antes impulsionado pela liberdade do Wherehouse, logo passaria a conviver com excessos cada vez mais difíceis de controlar.Um episódio ilustra esse cenário com precisão: o assassinato de um traficante de Nova York que acabou incorporado à narrativa do disco. “Por isso a frase ‘losing my connection’ (‘perdendo meu contato’) em ‘Rats in the Cellar’”, explica Tyler.Para Joe Perry, a relação com as drogas assumia contornos ainda mais complexos, quase místicos. Ele relembra:“Comecei a estudar o folclore do ópio como sacramento e realmente me aprofundei nisso. Me ajudou a me concentrar no meu trabalho e se tornou uma boa ferramenta de escrita para mim na época… antes de se transformar nesse maldito monstro.”Cocos, chicotes e heroínaO processo criativo de “Rocks” muitas vezes começava em um estado alterado — algo que, à época, os próprios integrantes viam como catalisador artístico. Diversas composições do Aerosmith nos anos 1970 nasceram sob efeito de drogas, e poucas histórias ilustram isso de forma tão direta quanto a origem de “Back in the Saddle”. O riff principal surgiu quando Joe Perry, sob efeito de heroína, experimentava um baixo de seis cordas:“Eu estava no meu quarto, deitado de costas, chapado de heroína. A música simplesmente jorrou de mim — todas as partes, todos os riffs. Veio em um pacote de entrega especial. Eu ainda estava na fase em que as drogas estavam abrindo as portas para a minha imaginação. E tive a sorte de ter um contato que me conseguiu heroína tão pura quanto eu jamais veria.”A faixa, que abriria o álbum, também se destacou pelo cuidado quase cinematográfico na construção de sua ambientação sonora. Steven Tyler explorou diferentes ideias para reforçar a atmosfera de faroeste — influência direta dos chamados “spaghetti westerns”, populares nas décadas anteriores. Ele recorda:“Jack Douglas e eu tivemos a ideia de usar botas de marcha sobre uma grande folha de compensado. Eu queria usar as minhas velhas botas de cowboy com botões laterais, as mesmas que eu usava no colégio. Assim que conseguimos a madeira, eu me preparava para fixar um pandeiro nelas e criar aquele efeito especial, quando o David Johansen apareceu e me ajudou com a fita adesiva. Ali eu virei o próprio ‘Mr. Tambourine Man’ — valeu pela inspiração, Bob Dylan! Dá para ouvir as batidas de pé logo após o verso e, no final da música, o som de cascos galopando; para isso, usei dois cocos que ‘roubei’ do baú de uma sereia.”O produtor Jack Douglas complementa o relato, destacando as tentativas — nem sempre bem-sucedidas — de enriquecer ainda mais a ambientação:“Queríamos ter um som de chicote no final da música. Compramos um e passamos horas tentando fazê-lo estalar; nos cortamos e nos machucamos, e o som ficou péssimo. Vergonha total.”A concepção de “Back in the Saddle” também envolveu uma direção estética clara desde o início. Perry relembra como sugeriu o caminho a Tyler, evocando diretamente o imaginário country de Gene Autry:“Estávamos conversando sobre a faixa, e Steven estava buscando inspiração, e pensando em qual música deveria ser. Eu disse: ‘Tem que ser a primeira música do disco, e quero que você pense nessa música quando estiver escrevendo a letra.’ Cantei para ele uma música do Gene Autry [‘Back in the Saddle Again’]. Era uma música country, e ele entendeu a ideia. Ele se sentava em uma escada com os fones de ouvido em uma fita cassete, e ficava tocando a faixa repetidamente. Ele era muito rápido quando se inspirava.”Outras faixas do disco refletem, cada uma à sua maneira, o momento vivido pela banda. “Combination”, por exemplo, marcou a estreia de Joe Perry como vocalista principal em um álbum do Aerosmith, com uma letra que aborda diretamente heroína, cocaína e sua própria vivência. Já “Nobody’s Fault” parte de um medo coletivo — desastres naturais — como explica Tyler:“Todos nós tínhamos medo de terremotos, assim como de voar. Tinha havido um terremoto enorme na Nicarágua e um pequeno na Califórnia. Depois, ouvimos dizer que havia uma falha geológica em Nova Jersey que passava perto de uma usina nuclear.”“Lick and a Promise”, por sua vez, funciona como um retrato direto da dinâmica da banda naquele período. Tyler a descreve como “um retrato do Aerosmith naquela época”, especialmente no que diz respeito à missão de conquistar o público ao vivo — “uma coisa muito difícil de se fazer”. Para reproduzir essa energia em estúdio, Douglas recorreu a soluções criativas:“Era para soar como a banda tocando ao vivo, então precisávamos de uma multidão gritando. Pegamos seis caras — Paul Prestopino [que também toca banjo em ‘Last Child’], traficantes de drogas, assistentes — e ficamos passando a música para outra faixa, aumentando e diminuindo o volume, até que conseguimos que seis caras soassem como mil.”O álbum se encerra com sua única balada, reforçando uma tradição já presente nos trabalhos anteriores da banda. Como lembra Perry:“Sempre podíamos contar com Steven para criar algumas coisinhas no piano. ‘Home Tonight’ seria a nossa balada para o disco. E foi isso. Assim que tivemos músicas suficientes para o álbum, paramos de gravar e voltamos para a estrada.”A joia mais dura do rockLançado em 14 de maio de 1976, “Rocks” foi recebido com críticas amplamente positivas. O quarto álbum de estúdio da banda tornou-se também seu quarto disco de ouro, alcançando a 3ª posição na Billboard e permanecendo nas paradas por cerca de um ano. O primeiro single, “Last Child”, chegou ao 21º lugar, ampliando a presença do grupo no rádio.O momento era de ascensão acelerada. Em 12 de junho de 1976, pouco após o lançamento do álbum, a banda realizou seu primeiro show como atração principal em um estádio: 80 mil pessoas no Pontiac Stadium, em Michigan. “Os ingressos esgotaram em doze horas”, recorda Steven Tyler. Já em julho seguinte, em meio a turnê, o grupo recebeu o primeiro disco de platina por “Rocks”. Como lembra Joe Perry: “Dizia-se que o disco estava vendendo 10 mil cópias ou mais por dia. Tivemos algumas semanas com mais de 100 mil unidades vendidas.”A repercussão na imprensa especializada reforçava essa posição de destaque. A revista Circus chegou a afirmar: “Em 1976, apenas Kiss e ZZ Top podiam rivalizar com a afirmação do Aerosmith de ser a banda nova mais quente da América. Eles são praticamente os únicos herdeiros naturais da tradição do hard rock fundada pelos Yardbirds e transmitida até os anos setenta através do Led Zeppelin.”Ainda assim, o olhar retrospectivo dos próprios integrantes revela uma leitura mais ambígua daquele período. Tyler reconhece o peso do contexto em que o disco foi criado:“Hoje eu ouço esses álbuns, alguns dos nossos melhores, e tudo o que consigo ouvir são as drogas. Olhando para trás, para ‘Rocks’, vejo seu tema de uma palavra: festa. Seu principal objetivo era nos reidentificar como a banda de garagem definitiva da América, com guitarras estridentes, vocais estridentes e uma produção avassaladora que esmagava seus tímpanos. Quando foi lançado em maio de 1976, a capa mostrava cinco diamantes, um para cada um de nós. Vimos o disco como uma joia, o ápice de toda a nossa angústia, raiva, empolgação e alegria como roqueiros destemidos. ‘Rocks’ era a trilha sonora definitiva para a festa que dávamos aos nossos fãs em todos os nossos shows ao vivo.”A percepção de que o álbum sintetiza um momento específico — intenso, caótico e criativamente fértil — também aparece nos relatos de outros integrantes. O baterista Joey Kramer resume:“Eu estava vivendo o meu sonho. Agora eu ouço ‘Rocks’ e ele exala o tempo e a diversão que dedicamos a ele.”Já Perry reforça a entrega total ao processo:“Estávamos vivendo a vida ao máximo e não prestando atenção em nada além de fazer este disco.”Foi dele, inclusive, a ideia para o título do álbum, que traduzia tanto o peso musical quanto o simbolismo visual da capa:“Diamantes são chamados de rocks, e nada é mais duro que um diamante. Eu queria o disco de rock mais pesado imaginável.”A sonoridade e a coesão do trabalho também são frequentemente atribuídas ao ambiente em que foi concebido — um fator destacado pelo produtor Jack Douglas:“O mais perto que já cheguei do som das músicas ter a verdade absoluta foi com o álbum ‘Rocks’ do Aerosmith. Até hoje, ainda sinto que esse álbum é o mais próximo de uma declaração realmente verdadeira, e isso porque o ambiente em que foi escrito era o mesmo em que foi gravado.”A avaliação se mantém consistente ao longo do tempo. Questionado diretamente sobre se algum dos álbuns do Aerosmith se destaca dos outros para ele, Douglas foi categórico:“Sim: ‘Rocks’ é sem sombra de dúvida o meu favorito.”Aerosmith – “Rocks”Lançado em 14 de maio de 1976 pela Columbia RecordsProduzido por Jack Douglas e AerosmithFaixas:Back in the SaddleLast ChildRats in the CellarCombinationSick as a DogNobody’s FaultGet the Lead OutLick and a PromiseHome TonightMúsicos:Steven Tyler – vocais, teclados, baixo em “Sick as a Dog”Joe Perry – guitarras, vocais, baixo de seis cordas em “Back in the Saddle”, lap steel em “Home Tonight”, baixo em “Sick as a Dog”Brad Whitford – guitarrasTom Hamilton – baixo, guitarra em “Sick as a Dog”Joey Kramer – bateria, percussão, backing vocals em “Home Tonight”Músico adicional:Paul Prestopino – banjo em “Last Child”Quer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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