Foto: Criada via Chat GPTOs meninos estavam reunidos na esquina do Assad Abud. Não chegavam a fazer sombra aos Capitães da Areia, de Jorge Amado, mas poderiam muito bem ser chamados de “Capitães da Rua São João”. Eram uns dez garotos. Dois seguravam um pneu, enquanto Silvio se posicionava, em posição fetal, dentro dele.Saíram empurrando o pneu e, até ele ganhar velocidade, parecia que ia tombar a qualquer momento. A molecada, numa algazarra danada, gritava e assobiava. O pneu, aos trancos e barrancos, descia a rua aumentando cada vez mais a velocidade. Silvio, como um verdadeiro peão, fazia das tripas coração e tentava controlar o equilíbrio do pneu. Se Asa Branca estivesse narrando o feito, diria: Segura, peão, que o pneu é manso! E o pneu seguia descendo, cada vez mais rápido. Não tinha freio.No final da rua estava a casa do Vavá, com a porta da sala aberta. E o pneu vinha descendo. Os meninos gritavam, riam e admiravam a coragem do Silvio. O pneu descendo. A porta da sala se aproximando. De repente, a zoeira começou a diminuir. Todos começaram a perceber o que estava prestes a acontecer. Canário, o menorzinho, virou-se, afastou-se correndo do grupo e disparou em direção à esquina da Casa Moreira. Marques, magrelo, só de calção, vinha subindo a rua e se assustou quando o pneu passou por ele. Encostou-se na cerca e, gaguejando, tentou falar alguma coisa, mas foi interrompido por Rosa Branca: Fica quieto, Marques, não fala nada.O pneu continuava descendo, a velocidade aumentando e a casa cada vez mais próxima. Mas a algazarra tinha acabado. O silêncio só foi quebrado pela bronca de dona Minervina, da varanda da casa: Seus moleques! Não têm pai? Não têm mãe? Não estudam? Todo dia é essa bagunça aqui!Calil, Abdala e Aziz vieram de fininho ver o que estava acontecendo. Dona Minervina soltou os cachorros neles: Já pra dentro! Vão fazer a tarefa! Vocês têm o que fazer! Outro dia botaram fogo na rua!E era verdade. Ainda não havia calçadas, e os dois lados da rua estavam tomados por um mato alto. Cido e Demá resolveram pôr fogo. O mato seco e o vento espalharam as labaredas para as balaústras das cercas. A rua virou um fumaceiro só. A mulherada gritava, o fogo ameaçava alcançar o poste de luz — que ainda era de madeira — e não havia água encanada. Era preciso tirar água dos poços dos quintais e levar em bacias e baldes para apagar o incêndio.Cido e Demá se esconderam no alto do pé de jaca. Olhando um para o outro, com um sorriso amarelo, misto de medo e sem-vergonhice, sabiam que iam apanhar. Dona Floripa não alisava. Pegava Demá de cinta e batia soletrando as palavras: Vo-cê vai a-pren-der a ser gen-te!Para, mãe! Para, tá doendo!Cido não apanharia de dona Graça. Sua mãe era tranquila e generosa. Ia apanhar era do Silvino. E ele não usava cinta. Era no pescoção e no pé do ouvido.O pneu entrou na sala do Vavá.Silvio saiu de lá com o mesmo sorriso amarelo, enquanto a mãe do Vavá vinha atrás, gesticulando e falando um monte. A molecada, que havia desaparecido, começou a voltar aos poucos. Era hora do futebol. Os gols eram feitos com os próprios sapatos.Silvio e Demá escolheriam os times. Os dois não podiam ficar juntos: eram os melhorzinhos. Jogaram no “João Caipó”: pedra, papel e tesoura. Quem perdesse ficava com Dedé Pardo, que era ruinzinho, mas era o dono da bola.O post Artigo: O pneu apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.