Depois do fenómeno do quiet quitting, surge agora uma nova tendência no mundo do trabalho: o quiet cracking. O conceito descreve colaboradores que continuam nas empresas e cumprem as suas funções, mas vivem um afastamento emocional silencioso e progressivo da organização.Segundo uma análise da Eurofirms – People first, o fenómeno está associado ao aumento do absentismo, erros, rotatividade e quebra de produtividade, num contexto em que apenas 19% dos trabalhadores em Portugal afirmam estar envolvidos no trabalho.Os dados, baseados no mais recente relatório global da Gallup, mostram ainda que 47% dos profissionais em Portugal reportam níveis elevados de stress diário, acima da média europeia e global.‘Quiet cracking’ cresce nas empresas portuguesasAo contrário do quiet quitting, marcado por uma redução deliberada do esforço no trabalho, o quiet cracking traduz uma rutura emocional mais profunda e difícil de identificar.Os colaboradores mantêm-se em funções, mas perdem progressivamente ligação à empresa, deixando de participar ativamente, questionar decisões ou propor soluções. Entre os principais sinais estão:Perda de iniciativa;Ausência emocional em reuniões;Menor envolvimento nas equipas;‘Hiper-conformidade’, quando o trabalhador deixa simplesmente de contribuir além do mínimo exigido.Segundo Cristina Rosa, People Leader do Eurofirms Group Portugal, o maior risco está precisamente no facto de este desgaste passar despercebido.«Nestes casos não existe uma carta de demissão, nem manifestações de conflito. Há apenas um vazio silencioso que pode passar despercebido até ser tarde demais», afirma.Stress e falta de envolvimento afetam produtividadeO fenómeno está a ganhar relevância num contexto de crescente desgaste emocional nas organizações. Em Portugal, apenas 19% dos trabalhadores dizem sentir-se envolvidos no trabalho, enquanto 47% reportam elevados níveis de stress diário.Na Europa, o cenário é ainda mais crítico: apenas 12% dos profissionais se consideram verdadeiramente envolvidos, abaixo da média global de 20%.Segundo a análise, a quebra de envolvimento dos colaboradores já representa perdas equivalentes a 9% do PIB mundial em produtividade, refletindo-se em:Maior absentismo;Aumento de erros operacionais;Desgaste das equipas;Custos mais elevados de rotatividade.Trabalho híbrido dificulta identificação do problemaAs empresas de maior dimensão enfrentam desafios adicionais na deteção destes sinais, sobretudo em modelos híbridos e remotos, onde a distância pode tornar o afastamento emocional menos percetível.A análise aponta ainda fatores culturais específicos em Portugal, como a dificuldade em contrariar hierarquias ou a valorização excessiva da resiliência, que podem contribuir para que o fenómeno evolua de forma silenciosa.Gerações mais jovens valorizam propósito e reconhecimentoO quiet cracking manifesta-se de forma diferente entre gerações. Segundo a Eurofirms, os profissionais mais jovens tendem a valorizar propósito, reconhecimento, feedback contínuo e impacto do trabalho. Já os colaboradores mais experientes privilegiam estabilidade e continuidade.Esta diferença está a obrigar empresas e líderes a repensarem modelos de gestão de pessoas, comunicação e engagement.Quiet thriving: o lado oposto da desconexãoEm contraste com o quiet cracking, começa também a ganhar destaque o conceito de quiet thriving: colaboradores que mantêm uma relação estável, motivada e sustentável com a organização.Segundo os especialistas, a diferença entre ambos os estados está na qualidade da relação entre a empresa e as pessoas. Liderança próxima, escuta ativa e reconhecimento contínuo são apontados como fatores essenciais para prevenir o desgaste silencioso. «Quando existe proximidade na liderança e um ambiente onde as pessoas se sentem reconhecidas, é possível criar equipas mais resilientes e envolvidas», conclui Cristina Rosa.O conteúdo ‘Quiet cracking’: apenas 19% dos trabalhadores em Portugal dizem estar envolvidos no trabalho aparece primeiro em Revista Líder.