Diversidade só em junho? Conversa sobre a comunidade LGBTI+ caiu 66% em Portugal e concentra-se no Pride

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Portugal continua a ser uma referência europeia na proteção legal dos direitos da comunidade LGBTI+, mas o apoio público e corporativo à diversidade está a enfraquecer. A conclusão é do novo relatório Orgulho Sem Resposta, da consultora global LLYC, que identifica um fenómeno designado por Rainbow Ghosting: um silêncio progressivo em torno das questões de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), apesar de os direitos permanecerem legalmente consolidados.O estudo revela que a conversa social mensal sobre a comunidade LGBTI+ em Portugal caiu 66% quando comparada com a média registada entre 2021 e 2026, evidenciando uma quebra significativa da atenção pública sobre o tema.O Pride concentra cada vez mais a conversaA análise mostra que a discussão sobre diversidade se tornou cada vez mais sazonal. Enquanto em 2023 cerca de 28,5% das publicações anuais sobre a comunidade LGBTI+ se concentravam durante o segundo trimestre — coincidindo com o mês do Pride —, esse valor ultrapassa atualmente os 32%.Para a LLYC, este efeito demonstra que muitas organizações continuam a associar a diversidade a campanhas pontuais, em vez de a integrarem de forma consistente na cultura empresarial e na comunicação ao longo de todo o ano.Ao mesmo tempo, a cobertura mediática internacional registou uma quebra contínua: diminuiu 2,5% por trimestre desde 2021, ritmo que acelerou para quase 10% por trimestre nos últimos três anos. Portugal mantém os direitos, mas perde visibilidadeSegundo a LLYC, Portugal continua a ocupar uma posição de destaque nos quadros europeus de proteção jurídica da comunidade LGBTI+. No entanto, essa evolução legislativa já não encontra correspondência no espaço público.Em vez de um recuo legal, o relatório identifica um enfraquecimento silencioso da presença da diversidade no debate social, institucional e empresarial.A consultora designa este fenómeno por Rainbow Ghosting, uma metáfora para a retirada gradual do apoio público por parte de empresas, instituições e meios de comunicação, sem que exista uma reversão explícita das políticas de inclusão.«O que revela este relatório é a retirada progressiva e por gotejo do apoio público à diversidade LGBTI+ por parte de marcas, instituições e meios», afirma Albert Medrán, Global Brand & ESG Head da LLYC e coordenador do estudo. «O ecossistema que antes contribuía para sustentar publicamente esta pertença responde hoje com menor frequência e continuidade, deixando que as narrativas mais hostis ocupem esse espaço.» Empresas estão a reduzir a visibilidade das políticas de diversidadeO relatório identifica igualmente um recuo do compromisso empresarial. Segundo a análise, as empresas da Fortune 500 com políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) visíveis representam atualmente apenas dois terços das que existiam em 2023.Também no ensino superior o cenário é semelhante: 85% das alterações recentes em universidades corresponderam ao encerramento, revisão ou enfraquecimento de iniciativas relacionadas com diversidade e inclusão.Para a consultora, estes dados mostram que a inclusão está a perder espaço precisamente num momento em que a diversidade continua a ser um tema estratégico para as organizações, seja na atração de talento, na inovação ou na reputação corporativa. Menos conversa, mais discurso de ódioA diminuição do volume de publicações não significa um ambiente digital mais saudável, muito pelo contrário. Embora o número total de mensagens sobre a comunidade LGBTI+ na rede social X tenha caído de 26,1 milhões em 2023 para 12,7 milhões, o discurso de ódio aumentou em oito dos 10 países analisados, registando um crescimento médio de 38% face aos quatro anos anteriores.Atualmente, três em cada cinco mensagens analisadas constituem ataques diretos.O estudo alerta ainda para uma mudança na natureza dessas mensagens. Em vez de discursos explicitamente discriminatórios, cresce a utilização de narrativas associadas à proteção das crianças ou da família tradicional como forma de legitimar posições hostis. Inteligência artificial também revela enviesamentosUm dos capítulos mais relevantes do relatório centra-se no impacto da Inteligência Artificial generativa. A auditoria realizada pela LLYC analisou respostas produzidas por sistemas de IA para diferentes perfis — quatro pertencentes à comunidade LGBTI+ e um perfil cisgénero e heterossexual —, concluindo que a tecnologia continua a reproduzir desigualdades.Os resultados mostram que conceitos como autonomia, independência e sucesso surgem com uma intensidade 140% superior nas respostas dirigidas a perfis cis-hetero.Já os perfis LGBTI+ recebem significativamente mais referências associadas ao medo, à exclusão, ao respeito ou à necessidade de dignidade.Também ao nível visual foram identificados enviesamentos. Em 70% das imagens geradas, os perfis LGBTI+ surgem representados através de símbolos explícitos, como bandeiras arco-íris, enquanto 97% das imagens geradas sem contexto representam pessoas caucasianas por defeito.Para a LLYC, estes resultados demonstram que os preconceitos existentes na sociedade começam igualmente a refletir-se nos sistemas de Inteligência Artificial, reforçando a necessidade de auditorias e mecanismos de mitigação destes enviesamentos. O desafio das empresas vai além do mês do PridePerante este cenário, a consultora defende que as organizações devem abandonar uma lógica de comunicação sazonal e assumir um compromisso permanente com a inclusão.O relatório apresenta cinco recomendações estratégicas para as empresas:Continuidade, garantindo que as políticas de diversidade se mantêm ao longo de todo o ano;Coerência, alinhando a comunicação externa com a experiência real dos colaboradores;Complexidade, representando a comunidade LGBTIQ+ para além da narrativa da vulnerabilidade;Futuro, promovendo oportunidades e autonomia para as novas gerações;Responsabilidade algorítmica, auditando ferramentas de Inteligência Artificial para identificar e corrigir enviesamentos.Para a LLYC, o maior risco já não reside apenas na perda de visibilidade da diversidade, mas na criação de um vazio onde discursos hostis, preconceitos e algoritmos enviesados passam a ocupar o espaço deixado pelo silêncio.O conteúdo Diversidade só em junho? 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