A economia europeia depende hoje tanto da circulação de dados como da eletricidade ou da água. Mas, apesar da crescente digitalização, a Europa continua vulnerável a uma falha prolongada das suas infraestruturas digitais, um cenário que poderá desencadear uma crise sistémica com consequências económicas e sociais de grande escala.O alerta é lançado pela Boston Consulting Group (BCG) no estudo The Day Europe’s Data Stops Flowing, que identifica um défice de resiliência digital na Europa e defende que governos, reguladores e empresas devem tratar as infraestruturas digitais como ativos estratégicos críticos. A Europa depende cada vez mais dos dados — mas continua vulnerávelA transformação digital acelerou a modernização da economia europeia, tornando possível operar serviços financeiros em tempo real, gerir redes elétricas inteligentes, digitalizar hospitais e automatizar cadeias de abastecimento.Contudo, segundo a BCG, essa evolução criou também um novo risco: quanto maior é a dependência dos sistemas digitais, maiores são as consequências de uma interrupção prolongada da circulação de dados.Embora as redes atuais estejam preparadas para responder a falhas de curta duração, a consultora identifica um ‘gap de resiliência’ entre o grau de dependência digital da Europa e a capacidade efetiva das infraestruturas para continuar a funcionar sob cenários de elevada pressão.«Em Portugal e Espanha tivemos no ano passado o alerta para o nível de importância das infraestruturas digitais. Este estudo mostra que a necessidade de reforçar a resiliência deste ecossistema é real à escala europeia. Esta deve ser uma prioridade estratégica para a Europa, para os operadores do setor e para os investidores», afirma, via comunicado, Eduardo Bicacro, Managing Director e Partner da BCG Lisboa. Os pontos fracos da infraestrutura digital europeiaO relatório identifica diversas vulnerabilidades estruturais que continuam a afetar a infraestrutura digital europeia. Entre elas destacam-se os pontos únicos de falha em redes principais e ligações de acesso, uma realidade particularmente visível em várias regiões da Europa Central e de Leste, onde mais de 80% do tráfego internacional depende apenas de um ou dois conectores físicos.A BCG alerta ainda para fragilidades na proteção de centros de dados regionais, sistemas de backup e cabos submarinos, considerados elementos críticos para garantir a continuidade dos serviços digitais.Segundo dados da Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA), menos de 20% das estações de amarração de cabos submarinos na União Europeia dispõe de vigilância permanente, enquanto a capacidade para reparar múltiplos cabos em simultâneo continua limitada. O que aconteceria se os dados deixassem de circular?Para demonstrar o impacto potencial de uma falha prolongada, a BCG construiu três cenários. Algumas horas de interrupçãoNum primeiro cenário, a Europa conseguiria operar em modo de contingência. Ainda assim, até 200 milhões de euros em pagamentos digitais poderiam sofrer atrasos, entre 30 mil e 50 mil chamadas de emergência ficariam em espera e cerca de 150 mil testes laboratoriais tornar-se-iam temporariamente inacessíveis.Os operadores energéticos perderiam também capacidade de monitorização em tempo real das redes. Um dia sem fluxo de dadosSe a interrupção se prolongasse durante 24 horas, os impactos tornar-se-iam significativamente mais graves. Segundo o estudo, entre 25 e 30 mil milhões de euros em pagamentos interbancários poderiam ficar bloqueados, comprometendo o funcionamento do sistema financeiro europeu.Ao mesmo tempo, cerca de 400 mil consultas médicas seriam canceladas, 500 mil resultados laboratoriais deixariam de estar disponíveis e até 140 mil chamadas de emergência sofreriam atrasos.Também o setor energético seria afetado, podendo perder entre 2 e 3 gigawatts de produção renovável devido à falta de monitorização das infraestruturas. Uma semana de interrupçãoNum cenário extremo, com uma semana sem circulação de dados, as consequências assumiriam uma dimensão sistémica. O bloqueio das transações financeiras poderia atingir 200 mil milhões de euros, enquanto mais de quatro milhões de consultas médicas seriam canceladas.As farmácias enfrentariam riscos de rutura de stock, as cadeias de abastecimento poderiam ficar comprometidas e os operadores energéticos seriam obrigados a reduzir a procura para preservar a estabilidade da rede.Segundo a BCG, uma situação desta natureza colocaria igualmente em causa a imagem internacional da Europa como parceiro económico fiável, afetando a confiança dos investidores. Não é apenas um problema tecnológicoO estudo defende que a resiliência digital deixou de ser uma questão exclusivamente tecnológica para se tornar um desafio económico e geopolítico.Com mais de 450 milhões de cidadãos europeus dependentes diariamente de infraestruturas digitais, uma interrupção prolongada teria impacto direto na atividade empresarial, nos serviços públicos e na confiança dos mercados.A crescente digitalização dos sistemas financeiros, da saúde, da energia e da indústria significa que uma falha de conectividade pode rapidamente transformar-se numa crise transversal. O que deve mudar?Perante este cenário, a BCG defende uma mudança de paradigma. Em vez de uma abordagem centrada apenas na proteção individual de infraestruturas, a consultora propõe um modelo coordenado de resiliência digital, envolvendo governos, reguladores, operadores e empresas.Entre as principais recomendações estão:Reforçar arquiteturas modulares e geograficamente distribuídas para eliminar pontos únicos de falha;Monitorizar continuamente os níveis de redundância das infraestruturas críticas;Aumentar o investimento em sistemas de backup e recuperação;Promover exercícios regulares de simulação entre operadores públicos e privados;Reforçar a cooperação transfronteiriça entre os Estados-membros.Para as empresas, o estudo recomenda ainda mapear todas as dependências digitais, desenvolver procedimentos de operação em modo offline e definir critérios mínimos de resiliência para fornecedores críticos.Num contexto em que a transformação digital continua a acelerar, a principal conclusão da BCG é clara: a infraestrutura de dados tornou-se um ativo tão estratégico como as redes de energia ou de transportes. Garantir a sua resiliência poderá ser determinante para proteger a competitividade da economia europeia e assegurar a continuidade dos serviços essenciais numa sociedade cada vez mais dependente do digital.O conteúdo E se os dados deixassem de circular na Europa? Existe risco de uma crise digital com impacto na economia aparece primeiro em Revista Líder.