Depois de um primeiro semestre em que passou da euforia à melancolia com entrada e saída do fluxo estrangeiro, a Bolsa brasileira entra na segunda metade de 2026 diante de uma pergunta cada vez mais relevante para investidores: o rali do Ibovespa ainda tem fôlego ou os riscos fiscais, políticos e externos devem limitar novos ganhos?A resposta está longe de ser consenso. Enquanto algumas instituições seguem enxergando espaço para valorização relevante da Bolsa brasileira, outras passaram a adotar um posicionamento mais cauteloso diante da combinação de juros elevados, incertezas eleitorais e fragilidade das contas públicas.Apesar das turbulências recentes, o saldo do ano ainda é positivo. Segundo Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, o índice conseguiu preservar parte da recuperação acumulada nos últimos 12 meses, mesmo após perder força nas últimas semanas.O Ibovespa encerrou o semestre a 172.024,12 pontos, acumulando um declínio de 1,01% em junho. No segundo trimestre, a perda alcançou 8,24%, reduzindo a alta no primeiro semestre para 6,76%. Já no acumulado de 12 meses, a alta é mais expressiva, de cerca de 24%. “O Ibovespa não perdeu totalmente sua tendência de recuperação, mas entrou em uma fase de maior seletividade, em que o investidor precisa olhar menos para o índice cheio e mais para a qualidade dos ativos que carrega na carteira”, afirma.Leia também4 ações sobem mais de 30% e 13 caem mais de 20%: destaques do Ibovespa no 1º semestreCSN registrou maior queda do período, enquanto Usiminas teve maior altaPara Murad, o cenário atual separa empresas mais resilientes daquelas mais dependentes de crescimento acelerado e juros menores. Setores ligados ao consumo e ao crédito podem voltar a ganhar força caso haja uma melhora na percepção fiscal e um ciclo mais consistente de queda dos juros. Caso contrário, a preferência tende a permanecer em companhias com caixa robusto, receitas previsíveis e menor dependência do ciclo econômico.Fluxo estrangeiro continua sendo peça-chaveUma das principais conclusões de estrategistas é que o desempenho da Bolsa depende cada vez mais do investidor estrangeiro.Relatório recente do Morgan Stanley mostra que, após fortes entradas de capital no primeiro trimestre, investidores internacionais voltaram a retirar recursos do mercado brasileiro no segundo trimestre. Ainda assim, o banco mantém recomendação overweight para Brasil e avalia que as ações locais negociam próximas de um cenário pessimista, oferecendo uma relação risco-retorno favorável. Para os estrategistas Nikolaj Lippmann e Julia Nogueira, a recente migração de recursos para mercados ligados ao boom global de inteligência artificial, como Coreia do Sul e Taiwan, não representa uma mudança estrutural contra a América Latina. Pelo contrário, a região pode ser beneficiária indireta do ciclo global de investimentos em infraestrutura, energia e commodities associado à IA. O banco destaca ainda que o principal risco externo para a Bolsa brasileira não é a inteligência artificial, mas o comportamento dos juros americanos de longo prazo. Uma manutenção dos rendimentos elevados dos Treasuries poderia continuar drenando recursos dos mercados emergentes. Fed e Selic devem ganhar protagonismoA visão é compartilhada por Marcos Praça, da Zero Markets Brasil. Segundo ele, julho marca uma transição importante para os mercados. Temas que dominaram parte do semestre, como conflitos geopolíticos e oscilações do petróleo, devem perder espaço para fatores mais tradicionais, como as decisões do Federal Reserve, a política monetária brasileira e o avanço do calendário eleitoral.Também nessa linha, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que a trajetória dos juros americanos será determinante para definir o fluxo de recursos para o Brasil.Por outro lado, ele ressalta que qualquer cenário positivo dependerá de avanços na questão fiscal doméstica. “O mercado continuará exigindo sinais concretos de responsabilidade fiscal e controle da dívida pública.”Fiscal e eleições entram no radarSe o cenário internacional já inspira cautela, o ambiente doméstico também ganhou peso entre os gestores.Nas últimas semanas, tanto UBS quanto Bank of America adotaram uma postura mais conservadora para as ações brasileiras. O UBS rebaixou sua recomendação para neutra citando a convergência de fatores adversos, enquanto o Bank of America também reduziu sua exposição ao Brasil após revisar suas projeções para a Selic e aumentar preocupações com o ambiente macroeconômico.O Morgan Stanley reconhece que os desafios fiscais permanecem como principal tema doméstico de preocupação. No entanto, avalia que eles já são amplamente conhecidos pelo mercado e que ainda é cedo para construir apostas direcionais relevantes para as eleições de 2026.A proximidade do pleito, porém, tende a tornar a volatilidade mais frequente.“À medida que a disputa eleitoral ganhar intensidade, o mercado tende a incorporar um prêmio adicional de risco, não pela preferência por um candidato específico, mas pelas expectativas em relação à condução da política fiscal, das reformas e do ambiente regulatório”, afirma Sidney Lima.Há espaço para novas máximas?Mesmo diante dos riscos, algumas instituições seguem otimistas. A equipe de estratégia da XP Investimentos, por exemplo, trabalha com um cenário de Ibovespa em 205 mil pontos e vê oportunidades ligadas principalmente à queda dos juros futuros e à possível reprecificação de ativos domésticos.Já o Morgan Stanley entende que o mercado brasileiro negocia próximo de seu cenário pessimista (“bear case”), o que cria uma assimetria favorável para investidores de longo prazo. Além disso, o banco continua preferindo setores mais ligados à economia global, como energia, materiais básicos, utilities e serviços financeiros, enquanto mantém cautela com cíclicas domésticas. Se existe um ponto de concordância entre as diferentes casas, é a expectativa de um segundo semestre mais volátil. A combinação entre decisões do Fed, trajetória da Selic, fluxo estrangeiro, situação fiscal e corrida eleitoral deve manter os investidores em alerta até o fim de 2026.Para Murad, isso não significa abandonar a Bolsa, mas sim ser mais seletivo. “O segundo semestre deve premiar menos a aposta rápida e mais o investidor preparado para montar posição com método.”The post Após 1º semestre de altos e baixos, o que esperar para o Ibovespa até o fim de 2026? appeared first on InfoMoney.