NASA testa jato supersônico que pode mudar as regras da aviação

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A NASA deu mais um passo no desenvolvimento de aeronaves supersônicas ao concluir os primeiros voos acima da velocidade do som com o jato X-59, modelo experimental criado para reduzir o tradicional estrondo provocado por esse tipo de operação. A iniciativa pretende reunir dados que possam embasar futuras mudanças nas regras para voos supersônicos sobre áreas terrestres nos Estados Unidos, segundo informado pela Ars Technica nesta segunda-feira (29).Os testes foram realizados após a estreia do avião em 2025 e marcam o início de uma etapa voltada à comprovação de que a aeronave consegue produzir um ruído significativamente menor do que o registrado por modelos supersônicos do passado. Se os resultados forem confirmados, o projeto poderá influenciar tanto futuras aeronaves comerciais quanto normas regulatórias.Além da validação técnica, a agência espacial planeja levar o X-59 a diferentes comunidades norte-americanas. O objetivo será medir tanto o comportamento das ondas de choque quanto a reação das pessoas aos sons emitidos durante os voos.Como o X-59 tenta mudar a aviação supersônicaO avião supersônico “silencioso” X-59 da NASA realizou seu segundo voo em 20 de março de 2026, próximo ao Centro de Pesquisa de Voo Armstrong, em Edwards, na Califórnia. Crédito: NASA/Jim RossO X-59 foi desenvolvido pela Lockheed Martin em parceria com a NASA dentro da missão Quesst, cujo principal objetivo é reduzir o impacto sonoro provocado por aeronaves que ultrapassam a velocidade do som. A proposta é substituir o conhecido estrondo supersônico por um ruído mais suave, capaz de diminuir os incômodos causados às pessoas em solo.Para alcançar esse resultado, o projeto adotou uma configuração bastante diferente da encontrada em aviões convencionais. O nariz extremamente alongado, o posicionamento superior do motor e o formato das asas foram concebidos para controlar a formação das ondas de choque, impedindo que elas se combinem da mesma forma que ocorre em aeronaves supersônicas tradicionais.Segundo Peter Coen, responsável pela integração da missão Quesst, a distribuição dessas ondas ao longo da fuselagem permite que elas percam intensidade antes de alcançar o solo. “O resultado é que o ouvido humano perceberá um ‘baque’ ou um ‘sopro’, em vez de um estrondo sônico típico“, afirmou em entrevista à Ars Technica.A NASA pretende que o X-59 produza um ruído em torno de 75 PldB. O valor é bem inferior aos cerca de 105 PldB atribuídos ao Concorde, aeronave comercial supersônica que marcou a aviação de 1976 a 2003. Caso a meta seja alcançada, a tendência é reduzir os incômodos causados pelo som em áreas sobrevoadas.Outra característica incomum do X-59 está na cabine. Em razão do longo nariz da aeronave, o piloto não possui uma janela frontal convencional. Em seu lugar, utiliza um sistema externo de visão composto por câmeras de alta resolução e um monitor 4K que exibe a imagem à frente da aeronave, além de informações de voo apresentadas com recursos de realidade aumentada.Antes dos voos reais, os pilotos passaram centenas de horas em simuladores e realizaram cerca de mil pousos simulados cada um. Conforme explicou o piloto de testes Jim Less, a adaptação ao sistema tornou sua utilização parte da rotina operacional. O projeto também reúne componentes aproveitados de diferentes aeronaves militares. Trem de pouso, comandos de voo, sistema hidráulico, cabine e outros equipamentos foram adaptados de modelos já existentes, característica que levou a equipe a definir o X-59 como um “frankenjet” (gíria no ramo da aviação que designa uma aeronave montada com peças de outras duas ou mais aeronaves).O X-59 sobrevoa Rogers Dry Lake, próximo ao Centro de Pesquisa de Voo Armstrong, da NASA, na Califórnia, em maio de 2026. A agência realiza testes em altitudes e velocidades progressivamente maiores antes das campanhas de voo acima da velocidade do som – Imagem: NASA/Jim RossOs primeiros ensaios em voo tiveram como foco verificar o comportamento da aeronave em diferentes condições operacionais. Embora a equipe já previsse uma sensibilidade maior nos movimentos de arfagem, os testes mostraram que o avião respondeu melhor do que o esperado. Um dos poucos incidentes ocorreu durante um voo em março, quando um alerta indicou falsamente uma possível perda de ar, obrigando o retorno imediato para pouso. Posteriormente, a equipe identificou que o aviso havia sido provocado pela instalação incorreta de um instrumento.No início de junho, o X-59 ultrapassou pela primeira vez a velocidade do som, alcançando Mach 1,1. Dias depois, uma nova missão elevou esse desempenho para Mach 1,4 e cerca de 55 mil pés de altitude, parâmetros que deverão servir de referência para as próximas etapas de avaliação.Durante essa fase, a NASA utilizará sensores instalados na própria aeronave, um planador equipado com microfones e conjuntos de gravadores distribuídos em solo para medir a propagação das ondas de choque e verificar se o comportamento do ruído corresponde ao previsto pelos engenheiros.A etapa seguinte prevê voos sobre comunidades de diferentes regiões dos Estados Unidos. Além da instrumentação técnica, moradores serão convidados a informar como perceberam os sons produzidos pelo X-59 ao longo de aproximadamente um mês de operações em cada localidade. Os dados serão enviados posteriormente à Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos e à Organização da Aviação Civil Internacional para auxiliar a elaboração de futuras normas sobre voos supersônicos sobre áreas terrestres.Peter Coen destacou que a participação da população será decisiva para essa fase do projeto. “O objetivo é criar um padrão que permita avançar com a inovação e torne viáveis os voos supersônicos no futuro, sem comprometer a segurança e o bem-estar das pessoas em solo“, explicou o gerente de integração da missão Quesst durante entrevista concedida à Ars Technica.O post NASA testa jato supersônico que pode mudar as regras da aviação apareceu primeiro em Olhar Digital.