«Sines permanece uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada», defende Carlos Seixas, Diretor do FMM

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Há festivais que ultrapassam as margens do cartaz para se tornar símbolos de algo maior que eles. Pode-se dizer que o FMM Sines – Festival Músicas do Mundo é um desses eventos, por reunir ritmos de todas as latitudes numa vasta programação maioritariamente gratuita. Este ano, a agenda conta com artistas de mais de 15 nacionalidades, de países como Cuba, Mali, Eslováquia, Palestina, Senegal e Argentina.Com concertos que se estendem de 17 a 25 de julho, começando em Porto Covo e partindo para Sines, o festival é conhecido por atrair um público perfeitamente heterogéneo. Há quem vá pela música, há quem simplesmente more mesmo ao lado, e há ainda quem persiga esta promessa de um sonho quase hippie que insiste em repetir-se há 27 anos dentro das muralhas da cidade alentejana. Uma coisa é certa: as ruas da cidade são para todos e os ritmos vêm do mundo inteiro.À Líder, Carlos Seixas, diretor artístico e de produção, explica o sonho que move o festival que caracteriza como «uma utopia humanista» e «uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada». Como define a identidade do FMM Sines – Festival Músicas do Mundo e o que o distingue no panorama nacional?A sua identidade foca-se nas músicas do mundo contemporâneas, das tradicionais às urbanas, que nascem das migrações e do diálogo global. A programação carrega um forte compromisso social. Promove a paz, a tolerância e a diversidade, combatendo o racismo e a xenofobia ao dar voz a minorias e artistas fora dos circuitos comerciais. Enquanto o panorama dos festivais em Portugal seguiu uma lógica comercial e focada em marcas, o FMM afirmou-se pela sua total independência, enquanto serviço público. Que evolução tem sentido desde as primeiras edições? Como se preserva a autenticidade de um evento como este?Evoluiu de um projeto de valorização do património local para um festival cultural de escala europeia. O segredo do seu sucesso reside na capacidade de crescer sem perder a alma, expandindo o antigo cartaz de concertos para um manifesto multidisciplinar. Na defesa da sua autenticidade, a sua matriz pública protege-o da urgência do lucro, garantindo a continuidade de uma política de portas abertas.Esta consistência reflete-se no público. Acompanhando a maturidade dos primeiros melómanos, o festival soube acolher uma nova geração de jovens curiosos e de espírito crítico.No panorama atual, Sines permanece uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada. Num contexto em que muitos festivais crescem constantemente em escala e cartaz, existe uma decisão consciente de preservar o FMM como um festival mais humano e próximo?Ao rejeitar uma expansão que desvirtue a sua essência, o festival prefere a lotação esgotada e confortável do Largo ou do Castelo à frieza de um descampado fora da cidade concebido apenas para acumular receitas. A proximidade entre o público e o palco cria uma atmosfera íntima e quase de ritual, incompatível com a lógica dos festivais de massas.Aqui, a ausência de áreas exclusivas garante uma horizontalidade democrática onde o espaço é partilhado. Do mesmo modo, o programa é estruturado com tempo para respirar, evitando sobreposições de concertos para que o público possa escutar e absorver cada cultura por inteiro. Manter o FMM à escala humana não reflete uma incapacidade de crescer, mas sim uma recusa absoluta em descaracterizar-se. O que entusiasma mais ao organizar um festival?A recompensa humana, a criação e a adrenalina dos bastidores. O entusiasmo começa na conceção do cartaz e na liberdade de criar uma narrativa. De trazer um artista improvável, de juntar músicos de geografias opostas ou de apostar num desconhecido que vai surpreender tudo e todos. Há prazer em projetar esta viagem.Ver a transformação física do espaço é o passo seguinte. De repente, um castelo silencioso, uma avenida ou um largo ganham a forma de uma comunidade feliz. O auge do processo acontece quando o som ecoa e o público reage. O entusiasmo aparece ao ler a descoberta nos rostos, ver milhares de pessoas sintonizadas na mesma frequência e sentir o orgulho dos sinienses que vêm a sua cidade ser a capital do mundo por uns dias. No fundo, é o privilégio de fabricar memórias. O festival mantém uma aposta significativa na programação gratuita. Como se garante a sustentabilidade de um festival desta dimensão sem abdicar dessa missão de democratizar o acesso à cultura?A Câmara Municipal de Sines, que organiza e financia o FMM, é o grande pilar desta política de gratuitidade. Ao contrário dos promotores privados focados no lucro da bilheteira, o município trata o festival como um serviço público essencial e um motor de desenvolvimento.Esta aposta financia-se a si própria através do retorno indireto. Milhares de visitantes esgotam os hotéis, restaurantes e lojas da região, fazendo com que o investimento público regresse multiplicado à economia local. Sines demonstra, desta forma, que a democratização da cultura é perfeitamente sustentável quando aliada à vontade política, ao envolvimento comunitário e a uma visão económica integrada. Longe de ser uma perda de valor, a gratuitidade afirma-se como um dos maiores ativos de reputação do festival. Há algum pedido inesperado ou momento insólito com artistas que se destaque na sua memória? E um concerto?Em Sines o pedido inesperado mais comum dos artistas é se podem ficar mais alguns dias. Já várias estrelas internacionais adiaram os voos de regresso só para continuarem na praia, a ver os concertos dos colegas ou a tocar nas ruas pela madrugada. Sines humaniza e transforma estrelas distantes em festivaleiros comuns. Esta magia traduz-se em palco.Um grupo de Kinshasa, República Democrática do Congo, composto maioritariamente por sobreviventes de poliomielite em cadeiras de rodas artesanais e jovens que tocavam instrumentos inventados com lixo reciclado, desfez instantaneamente qualquer paternalismo do público assim que os primeiros acordes ecoaram, entregando uma descarga de pura energia e dignidade. Noutra noite mítica, um artista sírio, acompanhado apenas por um teclado com batidas e ritmos de casamentos tradicionais, arrastou milhares de pessoas de todas as idades para um transe coletivo dentro do Castelo. É a prova viva de que, em Sines, não existem barreiras capazes de travar o poder da música. O que é que o público nunca vê, mas faz realmente um festival acontecer?Por trás da magia do palco existe uma engrenagem invisível que opera com precisão. O público não vê a complexidade de conseguir vistos em tempo recorde para artistas vindos de zonas de conflito, nem o pânico de resolver, a poucas horas do espetáculo, o extravio de um instrumento tradicional único. Ninguém nota a pressão necessária para mudar todo o equipamento de vinte músicos em apenas quinze minutos, onde um único cabo mal ligado pode ditar o fracasso. Ou lidar com o cansaço de bandas exaustas de voos transatlânticos, garantindo-lhes o conforto e o acolhimento necessários para subirem ao palco na sua máxima força.O que o público nunca vê é o trabalho de centenas de técnicos, produtores, eletricistas, motoristas e equipas de apoio que abdicam de assistir ao festival para garantir que todos os outros o possam viver. Sente que o público mudou nos últimos anos? O que se procura hoje numa experiência de festival?As antigas barreiras que dividiam o público por tribos urbanas ou géneros musicais rígidos dissolveram-se. Deu-se lugar a um espectador mais aberto e imprevisível. Em Sines, já não se compra o bilhete pelo cabeça de cartaz, mas sim pela confiança na descoberta do desconhecido.Hoje rejeita-se a estética artificial e procuram-se experiências reais, orgânicas e integradas na história das cidades acolhedoras. Os mais jovens, em particular, exigem uma postura ética. Procuram espaços seguros, inclusivos e ambientalmente responsáveis que reflitam um mundo melhor. A exigência atual passa também pelo respeito, pela dignidade e pelo bem-estar. O público quer tempo para respirar, sem sobreposições asfixiantes, num espaço que convide à pausa, à contemplação e ao pensamento. No fundo, procura-se a ligação com a música, com o território e com o outro.Como caracteriza a audiência do FMM?Há uma harmonia improvável entre gerações e mundos que raramente se cruzam. No mesmo metro quadrado convivem bebés, jovens estudantes, melómanos e idosos locais. O festival conseguiu o feito raro de envelhecer com o seu público original sem nunca falhar a renovação geracional. Livre da ansiedade pelo que já conhece, este público move-se pela curiosidade. Escuta com atenção, respeita o silêncio e entrega-se com confiança ao desconhecido. Nasce assim uma moldura humana cosmopolita, onde viajantes de todo o mundo se misturam de forma pacífica e sem atritos com as famílias locais. Partilhando uma forte consciência cívica, esta comunidade valoriza a tolerância e a inclusão.Mais do que consumidora, a audiência é parte ativa da identidade do FMM, transformando Sines, durante uma semana, numa verdadeira utopia humanista. Qual é o segredo para um festival memorável?Não reside no orçamento, mas na capacidade de criar uma alma e partilhá-la com o público. Tem de se fundir com o território, gerar a certeza de que aquele momento só poderia acontecer ali e em mais nenhum lugar do planeta.Em vez de ceder ao previsível, os festivais marcantes propõem o inesperado. Desafiam o público a sair da zona de conforto e a apaixonar-se por artistas cujo nome nem sequer sabe pronunciar. Cria-se, assim, um espaço livre onde músicos, habitantes locais, viajantes e melómanos partilham o chão e a melodia. É uma escolha clara, recusar ser uma indústria e escolher ser uma memória.Um festival cumpre o seu propósito quando o público regressa a casa a sentir que pertence a uma comunidade e que o mundo é um lugar mais habitável. No fundo, é a garantia de que o festival continua a ser um ponto de encontro de pessoas e culturas e não uma mera engrenagem de entreter multidões.Fotografia: Joana César Leia todas as entrevistas:«Solomon Burke atuou sentado no seu trono, uma adaptação feita à cadeira de rodas»: Karla Campos recorda momentos marcantes do Ageas CooljazzO conteúdo «Sines permanece uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada», defende Carlos Seixas, Diretor do FMM aparece primeiro em Revista Líder.