O Bitcoin encerrou o primeiro semestre de 2026 sob forte pressão. Depois de atingir quase US$ 126 mil no topo do ciclo em 2025, a maior criptomoeda do mundo chegou a tocar a região dos US$ 58 mil em junho, acumulando queda de pouco mais de 32% no ano. Apenas no mês passado, o recuo foi de cerca de 20,8%, o pior desempenho mensal desde junho de 2022, quando o BTC havia despencado 37%.A queda marcou uma mudança importante de percepção no mercado. Se entre o fim de fevereiro e o início de maio o Bitcoin ainda havia conseguido se recuperar da faixa dos US$ 60 mil para perto de US$ 82 mil, sustentado por entradas em ETFs e pela acumulação de investidores de longo prazo, junho trouxe uma nova rodada de aversão ao risco.Segundo Pedro Fontes, analista de research do MB | Mercado Bitcoin, o semestre teve três fases distintas: uma correção inicial, uma recuperação relevante entre o fim de fevereiro e o começo de maio e uma nova onda de pressão em junho. A virada negativa foi explicada por uma combinação de juros mais altos nos Estados Unidos, saídas recordes dos ETFs de Bitcoin, dúvidas sobre a Strategy, tensões geopolíticas, alta do petróleo e disputa por liquidez com ações ligadas à inteligência artificial.O sinal mais claro dessa piora veio dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos. Depois de terem ajudado a sustentar parte da recuperação do semestre, com mais de US$ 5 bilhões em entradas entre fevereiro e maio, os fundos passaram a registrar resgates. De acordo com a análise do MB, os ETFs acumularam sete semanas consecutivas de fluxo líquido negativo, a pior sequência desde o lançamento desses produtos, com mais de US$ 7,7 bilhões em saídas. Apenas na semana encerrada em 26 de junho, o saldo foi negativo em US$ 1,79 bilhão.Leia também: 10 criptomoedas que podem disparar em julho, segundo analistasComo os ETFs são uma das principais portas de entrada institucional para o Bitcoin, a inversão dos fluxos teve impacto direto sobre o preço. Em vez de absorver oferta e reforçar a demanda, os fundos passaram a funcionar como fonte adicional de pressão em um momento em que o mercado já estava sensível ao cenário macroeconômico.O pano de fundo também piorou. O mercado passou a precificar uma postura mais dura do Federal Reserve, com maior chance de novas altas de juros. Juros americanos mais altos fortalecem o dólar, tornam os títulos públicos dos EUA mais atrativos e reduzem o apetite por ativos de risco, como criptomoedas. Ao mesmo tempo, tensões no Oriente Médio e no Estreito de Hormuz elevaram o preço do petróleo, reacendendo preocupações com inflação e dificultando uma postura mais branda do Fed.Outro ponto observado pelos analistas foi a Strategy, empresa de Michael Saylor e maior acumuladora corporativa de Bitcoin do mundo, com mais de 847 mil BTC em tesouraria. A companhia segue como um dos principais símbolos da demanda corporativa por Bitcoin, mas a queda de suas ações e a compressão do seu prêmio de mercado aumentaram dúvidas sobre a força dessa fonte de compra daqui para frente.Fundo em formação, não euforia imediataApesar do cenário negativo, a leitura para o segundo semestre não é necessariamente de colapso. Para Fontes, o período deve ser marcado por um processo de formação de fundo no mercado cripto, com volatilidade ainda elevada no curto prazo, mas também com oportunidades de acumulação para investidores com horizonte de médio e longo prazo.O ponto central continua sendo a região dos US$ 60 mil. A perda desse patamar colocou o mercado em uma zona decisiva. Se o Bitcoin conseguir recuperar rapidamente a faixa entre US$ 60 mil e US$ 62 mil, o cenário técnico melhora e aumenta a chance de uma recuperação gradual. Mas, se o ativo tentar voltar para essa região e falhar, os US$ 60 mil podem deixar de atuar como suporte e passar a funcionar como resistência.Nesse caso, o primeiro suporte relevante aparece entre US$ 54 mil e US$ 55 mil. A região coincide com a média móvel de 305 semanas, referência acompanhada em momentos mais extremos de correção do Bitcoin, e também foi defendida várias vezes pelo mercado em 2024. Em um cenário de maior estresse, a faixa dos US$ 50 mil é vista como o suporte estrutural mais importante e possível região de formação de fundo.A comparação feita pelo MB não é com o preço de ciclos anteriores, mas com o momento de mercado. Segundo a análise, a região dos US$ 50 mil pode representar, no ciclo atual, uma oportunidade semelhante à acumulação abaixo de US$ 20 mil no fim de 2022. Naquele período, o Bitcoin era negociado perto de US$ 16,5 mil, em meio a forte pessimismo, indicadores on-chain deprimidos e baixa disposição a risco. Um ano depois, estava próximo de US$ 42,2 mil. Dois anos depois, acima de US$ 90 mil.A tese não é que o mesmo movimento vá se repetir, mas que as melhores janelas de acumulação historicamente surgem quando o mercado está mais desconfortável. Hoje, apenas cerca de 46% da oferta de Bitcoin está em lucro, o que significa que mais da metade está no prejuízo. Segundo o MB, a última vez que esse indicador esteve em patamar parecido foi justamente perto do fundo do ciclo anterior, no fim de 2022.Leia também: Por que a alta de juros nos EUA pode derrubar o BitcoinOutros analistas mantêm cautela. André Franco, CEO da Boost Research, avalia que o Bitcoin segue preso à estrutura de baixa construída desde o topo histórico de outubro de 2025, na região dos US$ 126 mil. Para ele, o ativo precisa reconquistar a faixa entre US$ 68 mil e US$ 70 mil para aliviar a pressão de curto prazo. Sem isso, a perda dos US$ 60 mil pode abrir caminho para uma queda em direção aos US$ 55 mil. Na avaliação da Boost, apenas uma recuperação para a região dos US$ 97 mil mudaria estruturalmente a sequência de topos e fundos descendentes.A visão de Marcelo Person, da Foxbit, também reforça a importância do Bitcoin como principal termômetro de confiança do mercado. Mesmo em um ambiente de maior rotação para altcoins, o BTC continua sendo a posição de base para atravessar o ciclo e o ativo que tende a recuperar primeiro a tração institucional em uma eventual retomada.O que pode mudar o rumo do BitcoinPara os analistas, a direção do Bitcoin no segundo semestre dependerá de diversos fatores: ETFs, juros nos Estados Unidos, geopolítica, rotação de liquidez, Strategy e regulação.O primeiro fator é a retomada, ou não, dos fluxos nos ETFs. Se os fundos voltarem a registrar entradas, podem novamente servir como vento a favor para o BTC. Se os resgates continuarem, a recuperação tende a ser mais lenta e instável.O segundo é a política monetária americana. Dados mais fracos de inflação ou mercado de trabalho podem reduzir a percepção de que o Fed terá espaço para subir juros novamente, o que seria positivo para cripto. Já inflação persistente ou atividade econômica forte podem reforçar a tese de juros altos por mais tempo, mantendo pressão sobre o mercado.A geopolítica também seguirá no radar por causa do petróleo. Uma alta mais forte do barril pode reacender riscos inflacionários e reduzir a chance de alívio monetário. Além disso, a disputa por liquidez com ações americanas, especialmente empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, continua sendo um obstáculo para o Bitcoin. Parte relevante do capital global segue concentrada nessas teses, reduzindo o apetite por cripto.A Strategy é outro ponto de atenção. A continuidade das compras da empresa de Michael Saylor pode ajudar a sustentar a narrativa de demanda corporativa. Por outro lado, a nova estrutura de capital anunciada pela companhia, que inclui maior flexibilidade e até possibilidade de venda de bitcoins em determinadas condições, mudou a percepção de risco em torno dessa fonte de demanda.Por fim, a regulação americana pode funcionar como catalisador positivo. O avanço do CLARITY Act, projeto que busca criar regras mais claras para ativos digitais nos EUA, pode reduzir incertezas sobre a classificação de criptoativos, DeFi, stablecoins e tokenização. Caso avance de forma relevante, pode abrir espaço para uma nova fase de adoção institucional.A conclusão dos analistas é que o segundo semestre deve ser menos sobre euforia imediata e mais sobre construção de base. O Bitcoin ainda pode buscar preços mais baixos antes de retomar uma tendência mais consistente de alta, especialmente se não recuperar os US$ 60 mil. Mas, justamente por isso, regiões como US$ 54 mil, US$ 55 mil e, principalmente, US$ 50 mil passam a ser vistas como zonas importantes de acumulação.Para o restante do mercado cripto, o recado é de seletividade. Mesmo com o Bitcoin em queda, teses como tokenização, stablecoins e derivativos on-chain conseguiram mostrar força no primeiro semestre. A Hyperliquid, por exemplo, foi destaque positivo, enquanto ativos ligados a DeFi, infraestrutura de stablecoins, redes de segunda camada e tokenização seguem no radar de diferentes casas de análise.No caso do Bitcoin, porém, o cenário é mais claro: o ativo chega ao segundo semestre machucado, pressionado por fluxos negativos e por um ambiente macro mais duro. Mas, para quem olha além da volatilidade imediata, a queda pode estar preparando justamente o tipo de janela que costuma anteceder as melhores fases de recuperação dos ciclos cripto.A porta de entrada para o bitcoin, a maior criptomoeda do mundo, está no MB. 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