Alceu Valença chega aos 80 com homenagem do bloco Pitombeira em Olinda

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Projetos de aniversário incluem doc, livro de poemas e crônicas, além de shows por lugares como Rio, Dublin e Londres: ‘Não moro nas cidades, eu namoro elas, por falta de tempo para ter um relacionamento como um casamento’Esta quarta-feira, dia do seu aniversário de 80 anos, Alceu Valença está em Olinda (PE), onde (é surpresa, não contem) será homenageado com um cortejo carnavalesco do bloco Pitombeira. Por esses dias, ele esteve com seu show de São João em Campina Grande, Arcoverde, Itaparica, Feira de Santana (“Fiz tanto show que nem sei por onde passei”, reconhece).Na sexta, Alceu estará no Rio de Janeiro para fazer, na Fundição Progresso, o segundo show carioca de sua turnê “80 Girassóis”. Depois, passa um mês de descanso em Lisboa e parte, em outubro, para uma turnê que passa por Dublin, Bruxelas, Amsterdã e Londres, entre outras cidades.— Eu gosto de Olinda, mas gosto do meu Rio de Janeiro, a cidade onde mais passo tempo. Adoro Lisboa também, mas não moro nas cidades, eu namoro elas, por falta de tempo para ter um relacionamento mais consistente, como um casamento — explica o galanteador (e incansável) Alceu, que, sobre esse negócio de comemorar aniversário, sai pela tangente. — Não dou bola para essas coisas, o tempo é o tempo. O tempo segue o tempo do destino.Há mais de 50 anos a bordo de “uma improvável carreira artística”, com músicas como “Anunciação”, “Tropicana (morena tropicana)”, “La belle de jour” e “Girassol”, cantadas por diferentes gerações, Alceu Valença é daqueles que se recusam a olhar para trás e reavaliar a sua própria obra (embora “80 Girassóis”, um show com roteiro cinematográfico, em que “uma música sempre tem relação com a outra”, o tenha obrigado a isso). Mais do que aos seus discos, Alceu se liga mesmo é ao palco — é ali onde tudo acontece para ele.— Palco, para mim, é prazer, é energia, é alegria… tem hora que a plateia vira palco e eu viro a plateia da plateia. É uma troca o palco. Depois é que começam a surgir as outras coisas, algumas de que eu nem me lembrava — diz ele, que, em sua vida errante, não guardou nem reouviu seus próprios discos, o que só foi fazer mais recentemente depois que a mulher, Yanê Montenegro, instalou aplicativo de música por streaming em seu celular. — Quando a Som Livre me deu meu primeiro disco, eu fui ouvir na casa de Decinho (seu irmão), eu não sabia nem bulir na radiola. Só agora, quando saio para caminhar, é que eu comecei a ouvir alguns discos meus. Tem um, o “Maracatus, batuques e ladeiras” (1994), de que eu nem me lembrava de um dia ter ouvido!Mais bem organizado com as memórias de sua própria obra (e vida, que em 2023 foi esquadrinhada no livro “Pelas ruas que andei: uma biografia de Alceu Valença”, do jornalista Julio Moura), o artista agora está cuidando do roteiro de um documentário sobre sua trajetória. E de um livro de poemas e crônicas, que escreve aos poucos, no bloco de notas de seu celular, durante os muitos voos que tem enfrentado para cumprir sua agenda de shows. Canções, diz ele, só nascem mesmo de “surtos criativos”.— Quando começam a me pedir, aí é que eu não faço de jeito nenhum — diverte-se ele, lembrando da gênese de uma canção, em especial. — Eu estava a caminhar à margem do Rio Capibaribe, quando atravessei a rua, porque eu ouvi o som de um trovão. Atravessei a rua correndo para o outro lado e, embaixo de uma marquise, quem eu encontrei, por acaso, também se protegendo da chuva? Dominguinhos! Quando a chuva parou, a gente pegou um táxi para a casa dele. No meio do caminho, o motorista do táxi começou a se lamuriar por causa da mulher que tinha deixado ele. Ao chegar, o Dominguinhos pegou uma sanfona, tocou uma música, e eu fiz a letra todinha na hora. Era “Lava as mágoas” (1982).Beatles regionaisO segredo da criação, para Alceu Valença, é “o HD da memória”. É lá onde está tudo que ouviu, de São Bento do Una (sua cidade natal, em Pernambuco) a Paris (onde morou): os aboiadores, repentistas, as rádios, o serviço de alto-falante, os discos…— Quando eu entrei na faculdade de Direito, me perguntavam uma coisa ridícula: “Você faz música regional ou universal? Eu digo: “Rapaz, os Beatles são regionais.” E eles: “Como é que você pode dizer uma coisa dessas?” E eu: “Falo que os Beatles são regionais porque eles são ingleses e a Inglaterra é uma região.” O que é regional se vira universal na medida em que exista alguma coisa que faça a tocar, no outro canto, como uma rádio, como uma TV ou, hoje, a internet.Para o mês de descanso em Lisboa, Alceu Valença tem planos sérios de continuar com as caminhadas, com as quais têm mantido a saúde nos últimos anos — dez mil passos por dia, no mínimo. Ele sai andando do Castelo de São Jorge, perto de onde mora, e vai descendo ladeiras, até o Marcado da Ribeira, quase nas margens do Tejo. E depois volta. Tudo para evitar as academias de ginástica.— Andar é uma coisa ótima para a coluna, para a musculatura, é o melhor exercício no mundo. Na academia, o cara fica “corre, puxa… e vai, garoto!”. Eu não sou garoto! — indigna-se ele, que, assim como o amigo Geraldo Azevedo, chega aos 80 com cabelos compridos (um compromisso que mantém desde os tempos hippies, da contestação da ditadura). — Não sei se a cabeleira do Geraldinho está perdendo muito cabelo em cima… porque ele não me mostra a dele, e nem eu mostro a minha para ele! Para isso é que existe chapéu. E eu uso o meu desde aquele disco “Espelho cristalino” (1977). Bem antes desse negócio de sertanejo, eu já estava de chapéu!Cena de “Anunciação – O musical de Alceu Valença”, de Miguel Colker e Duda Maia — Foto: Divulgação/Any DuarteDia 23, como parte das comemorações dos 80 anos do artista, estreia no Rio, no Teatro Carlos Gomes, “Anunciação — O musical de Alceu Valença”. Com direção geral de Miguel Colker e direção artística de Duda Maia, o espetáculo mergulha no imaginário criado pelo pernambucano ao longo dos anos e constrói uma experiência cênica livre, irreverente e profundamente brasileira, na qual oito intérpretes, em sua maioria nordestinos, contam uma história sem personagens fixos, guiada por cerca de 35 canções. Alceu diz ter preferido se manter à parte da homenagem.— Meu irmão, quando eu estou dirigindo o meu filme, não deixo nem o Woody Allen, que é muito bom, se meter na minha história. Então, quando as pessoas estão dirigindo uma outra coisa que é minha, eu não me meto. Não fui ver nenhum ensaio. Minha mulher viu e adorou. E eu conheço muito alguns dos atores que estão lá, todos gente fina e muito inteligentes — diz. — Então, sendo gente fina, inteligente e sensível, só pode sair muito bem. O que Yanê me falou é que ele vem com uma linguagem totalmente diferente daquela dos musicais.O musical promete ser um respiro de reflexão para Alceu, que, por esses dias, em seu Instagram, andou destacando uma parte da letra de seu primeiro sucesso, “Papagaio do futuro”, uma profética embolada que ele defendeu no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1972, ao lado de Jackson do Pandeiro e de Geraldo Azevedo. “Estou montado no futuro indicativo, já não corro mais perigo e muito tenho a declarar!”, escreve o cantor e compositor, agora do alto dos seus 80 anos de idade — e sem planos de fazer pausa na carreira ou deitar nos louros da carreira.— Jackson dizia que eu tinha escrito a embolada do ano 2000. Em 1972! Agora eu digo que essa é a embolada do ano 3000, nela você vai me ouvir ali falando da minha relação com o meio ambiente. O meu pai, Décio de Souza Valença, quando adquiriu uma fazenda chamada Riachão, falava que, do jeito que andava o desmatamento do planeta, nós íamos virar o deserto do Saara. E proibiu que se derrubasse qualquer árvore — conta Alceu, hoje otimista, no entanto, em relação à loucura de predadores do planeta. — Acho que os donos do dinheiro vão chegar em determinado momento a saber que eles morrem e que os filhos deles morrem também. É uma coisa que vai bater no pulmão dos maiores bilionários e trilionários!Aliás, Alceu anuncia ter previsões para nova era.— Já falei isso há 500 anos: vai haver a Bolsa Família para todos no mundo. Inclusive, o Brasil fez isso muito bem. Não vai ter saída, isso vai ser necessário para o giro da economia — alerta ele, ferrenho defensor da redistribuição dos recursos financeiros. — Depois de um bi, para que é que o cara quer dinheiro? É por vaidade, porque não dá para gastar de jeito nenhum.Com O GloboO post Alceu Valença chega aos 80 com homenagem do bloco Pitombeira em Olinda apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.