‘Não perdi minha serenidade e convicção’, diz Fred Trajano sobre queda da ação do Magazine Luiza (MGLU3) no ano

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Se engana quem pensa que a trajetória de liderança de Frederico Trajano no Magazine Luiza (MGLU3) teve início com a posição de CEO que assumiu há 10 anos. Na realidade, o executivo deixou para trás o mercado financeiro e tocou uma jornada de implementação do e-commerce na varejista ainda nos anos 2000, totalizando 26 anos de atuação na empresa fundada por sua família.Apesar do reconhecimento que recebe como peça importante na digitalização da empresa nascida em Franca, no interior de São Paulo, ele é enfático ao afirmar que nunca deixou de olhar para o varejo físico, mesmo com a forte expansão do digital. “Quando assumi a companhia, eu tinha uma convicção brutal da oportunidade que tinha pela frente”, conta.Em entrevista a Thiago Salomão e Leopoldo Rosa, em edição especial do podcast Market Makers, parceiro do Money Times, Frederico Trajano afirmou que o futuro da loja física é oferecer mais do que um ponto de venda, mas uma experiência ressignificada para o consumidor.A exemplo disso, o executivo chamou atenção para o próprio ambiente em que a entrevista era gravada. O Teatro YouTube fica na Galeria Magalu, no Conjunto Nacional, em São Paulo, num espaço com mais de 4 mil metros quadrados inaugurado em dezembro de 2025.Ali estão reunidas as marcas Magazine Luiza, Netshoes, Época Cosméticos, Estante Virtual e KaBuM!, negócios de diferentes segmentos que compõem o ecossistema da varejista. Além disso, há o Teatro YouTube e uma exposição da Pinacoteca de São Paulo.Saiba mais: Galeria Magalu: Loja-conceito deve liderar faturamento da varejista; veja o que esperar da nova aposta no físico Para Trajano, o futuro do varejo não está no online ou no físico, mas justamente na continuidade da integração entre os modelos.Como exemplo, ele cita a Estante Virtual, um sebo que oferece livros novos e usados, presente na Galeria, que promove encontros entre autores e leitores para além dos autógrafos, mas com utilização do teatro em que a entrevista foi concedida.Segundo a visão apresentada por ele, o varejo brasileiro movimenta trilhões no Brasil, sendo que o e-commerce representa aproximadamente 15% desse mercado, enquanto 85% ainda está no físico. Ele cita que mesmo na China, um dos mercados digitais mais avançados, a penetração do e-commerce gira em torno de 33%. Nos Estados Unidos, esse percentual seria próximo de 20%.Desde que assumiu a liderança do Magazine Luiza, em 2016, o executivo conduziu dois ciclos de transformação, de digitalização e expansão do e-commerce, que, aliados com o conceito de experiência que vê para as lojas físicas, formam as bases em que a varejista caminha hoje.Volatilidade das ações As ações do Magazine Luiza vêm sofrendo na Bolsa recentemente. No acumulado de 2026, MGLU3 está no topo das maiores quedas do Ibovespa (IBOV), com recuo acumulado de 47% até o dia 30 de junho.Trajano não é de falar em entrevistas sobre o preço das ações e destacou, em suas falas, que seu foco enquanto executivo está, sim, na geração de valor aos acionistas e demais stakeholders (partes envolvidas). No entanto, com a compreensão de que nem tudo está sob o seu controle — como os juros, aspecto que machuca o desempenho dos papéis.“Para qualquer CEO responsável por uma empresa de capital aberto, se você disser que não olha para o preço de tela e falar que isso não é importante, não é verdade. São, sim, aspectos relevantes, especialmente quando se considera o longo prazo”, afirmou, em uma dessas raras falas diretas sobre o assunto.Leia mais: Magazine Luiza (MGLU3) derrete 50% no ano sob pressão de juros, concorrência e consumo; há saída? Afirmou, no entanto, que busca refletir sobre o que está ou não ao seu alcance. “Eu procuro focar naquilo que eu controlo. No curto prazo, eu controlo fundamento da companhia e, no longo prazo, isso vai se refletir no preço da companhia, dado o momento de mercado”, disse ao Market Makers.O CEO recorda que as ações do Magazine Luiza viveram um momento de “vacas gordas” durante seus primeiros anos de gestão, em um momento em que a taxa básica de juros (Selic) saiu do patamar de 14%, em 2016, e chegou a 2%, em 2020, na época da pandemia de coronavírus.Nesse período, Trajano conta que manteve o pé no chão e já entendia que, seja em momentos de euforia ou adversidade, precisava entregar consistência nos resultados, pois o ciclo dos juros muda — como, de fato, mudou.“Não perdi a minha humildade lá [Selic baixa], nem perdi minha serenidade e convicção agora”, disse Trajano, defendendo a posição de um executivo que foca nos fundamentos da empresa em detrimento das oscilações do papel no curto prazo.O impacto do macroFalar de varejo sem falar de macroeconomia é uma missão quase impossível. O próprio Frederico Trajano reconhece que os indicadores macro afetam o negócio, em razão do baque nas despesas financeiras, limitação de investimentos e comportamento do consumidor. Além disso, o coração do Magazine Luiza são bens duráveis, que também sofrem em momentos de endividamento das famílias e juros elevados.Trajano chama atenção para o movimento dos ciclos estratégicos que conduziu, que levaram à diversificação dos produtos sob o guarda-chuva do Magazine Luiza, além de marcas distintas, com seus respectivos posicionamentos.Apesar disso, o CEO pondera que são cinco anos de diversificação (desde a implementação desse ciclo), contra 70 anos de uma Magazine Luiza reconhecida por bens duráveis.Ele afirma que a companhia busca cada vez mais reduzir o impacto da Selic no negócio, mas afirmou que, no entanto, isso demanda tempo.O problema das betsQuestionado pelo Market Makers sobre sua visão acerca das bets, Trajano afirmou que, junto com os juros elevados, estão entre os principais fatores que ajudam a explicar por que o PIB (Produto Interno Bruto) cresce sem que o consumo das famílias acompanhe no mesmo ritmo.Passando também a visão do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), onde ocupa a posição de vice-presidente, Trajano classificou a relação do brasileiro com as bets como mais do que um problema econômico, mas de saúde pública. “Eu acho que deveria ser extinto ou muito bem regulamentado”, afirmou.