O primeiro semestre de 2026 não poupou o investidor brasileiro da volatilidade – mesmo na renda fixa. Quem iniciou o ano projetando um ciclo de quedas da Selic precisou recalcular a rota diante do temor inflacionário global somado aos ruídos em torno da sustentabilidade fiscal do Brasil. Agora, a transição para o segundo semestre impõe um cenário com uma Selic projetada em 14% no fim do ano e IPCA acima do teto da meta. Nesse ambiente, um papel vem chamando a atenção: o Tesouro IPCA+.O título com vencimento em 2032 segue oferecendo mais de 8% ao ano acima da inflação, pressionado pelo resultado fiscal visto como ruim pelo mercado. E, nesta quarta-feira (1) o papel com juros semestrais que vence em 2037 também atingiu essa marca, com o mercado digerindo uma nova pesquisa eleitoral.“Para o segundo semestre, seguimos vendo um ambiente de elevada incerteza”, diz a XP, em relatório, lembrando que “as eleições de outubro tendem a aumentar a volatilidade dos ativos brasileiros, especialmente à medida que o mercado busca sinais mais claros sobre os rumos da política econômica e fiscal a partir de 2027″.Leia também: “IPCA+8% não é de graça”: Por que aposta em dólar pode ser chave no 2º semestreAo quadro também se somam as incertezas sobre os juros lá fora, além do conflito no Oriente Médio, que não está 100% resolvido. Caio Tonet, diretor institucional da W1 Consultoria, traduz o impacto desse ambiente árido não apenas nas cotações dos ativos, mas na economia real: “os juros altos e uma inflação ainda salgada causam um efeito comparável a uma doença na economia”.Nesse contexto de estresse prolongado, a volatilidade da marcação a mercado (precificação diária), deve ser protagonista até dezembro. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, ressalta que o controle emocional e a clareza de objetivos serão vitais para o sucesso das carteiras. “O maior desafio é não se deixar paralisar pela contradição do momento. Nunca foi tão atrativo travar juro real, e ao mesmo tempo nunca foi tão fácil tomar um susto pelo caminho“.Ele acrescenta que as taxas atuais podem garantir ganhos extras caso os juros caiam no futuro, apesar de reforçar que o investidor deve aplicar pensando sempre em levar o papel até seu vencimento, para evitar perdas caso tenha de resgatar antes o valor.A XP enxerga uma janela rara para aplicar em títulos de inflação, desde que o objetivo não seja vender antes da hora, dada a possibilidade de flutuação no meio do caminho. Ventos do exterior e desafios fiscais ainda devem pressionar as taxas nos próximos meses, diz a XP, então a possibilidade de ver juros menores para ganhar mais saindo da aplicação antecipadamente deve ser encarada como bônus.Corano reforça o alerta sobre o risco de desvalorização no meio do caminho, e lembra que o IPCA+ longo só cumpre seu papel de porto seguro para quem tem certeza de que carregará o título até o vencimento, mesmo com os solavancos da marcação a mercado.Leia mais: Comprar título IPCA+ “errado” com plano de sair antes pode custar metade do capitalCleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos, avalia que o Tesouro IPCA+ segue como a ferramenta mais eficiente contra a perda do poder de compra, mas exige uma carteira bem calibrada. “Minha preferência continua sendo pelos vencimentos intermediários, que oferecem um equilíbrio mais interessante entre remuneração, liquidez e volatilidade”, aponta Souza.A preferência pelo “miolo” da curva de juros, que hoje pagam juros reais acima de 7% ao ano, é um consenso entre os especialistas. Trevisan recomenda focar na janela de cinco a dez anos, evitando as oscilações maiores e imprevisíveis de papéis ultralongos, como os vencimentos em 2050 ou 2060. “Carregar um título público que paga inflação mais 8% de juro real é uma janela rara”, destaca o executivo da Gravus Capital, reforçando a atratividade do momento para quem tem disciplina.Tonet também chancela a estratégia de blindagem contra a alta dos preços para esse horizonte: “se o investidor for pegar papéis com duration (prezo médio) acima de três anos, prefiro que invista no Tesouro IPCA+”.Tesouro Selic sem “inventar moda”O Tesouro Selic segue imbatível para dois propósitos: reserva de emergência e a parcela do patrimônio para aproveitar janelas de oportunidade de curto prazo. Segundo especialistas, ativos mais arriscados devem oferecer um prêmio claro para dispensar o título público que paga acima de 14% ao ano.“O investidor está sendo muito bem pago para não inventar moda. A renda fixa, especialmente no Brasil, tem que funcionar como um estacionamento para o dinheiro. Você coloca o carro ali, ele fica protegido, rende bem, mas consegue tirar o carro quando quiser”, argumenta Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. Ele alerta que abrir mão da liquidez diária por uma diferença marginal de rentabilidade é um dos maiores erros estratégicos que se pode cometer diante de um cenário fiscal ainda nublado.Uso tático do Tesouro PrefixadoSe no Tesouro Selic a recomendação é de tranquilidade e no IPCA+ de oportunidade com disciplina, os títulos prefixados dividem as mesas de operação e exigem ainda mais atenção. Ao travar uma taxa fixa, o investidor fica exposto a surpresas negativas na trajetória da inflação ou a revisões altistas na política monetária.Quem adota uma postura defensiva argumenta que a pressão dos juros americanos e incerteza fiscal no Brasil dificultam uma visão mais clara sobre a trajetória dos juros locais e, portanto, deixam os prefixados ainda mais arriscados. Corano classifica esses títulos como instrumentos de aposta. “O investidor está dizendo que a taxa travada hoje será boa diante do que vai acontecer com os juros no futuro”.Ainda assim, considerando a diversificação, há quem veja um espaço para alocações táticas. Trevisan acredita que a classe pode, sim, compor uma pequena fração da carteira, desde que restrita a prazos curtos, onde a visibilidade econômica é um pouco maior.“Não é mais necessário evitá-los a todo custo, mas também não é hora de carregar a mão. Enxergo oportunidade, sim, mas de forma tática e em doses pequenas, em vencimentos curtos, de dois a quatro anos”, pondera.The post Tesouro IPCA+ deixa aberta janela rara, mas “nunca foi tão fácil tomar susto” appeared first on InfoMoney.