Uma notificação do Banco Central a bancos e corretoras de câmbio acendeu um alerta no mercado cripto brasileiro nos últimos dias. A medida levou à suspensão ou à revisão de operações de câmbio usadas por fundos de investimento para trazer criptomoedas do exterior ao Brasil, em um movimento que teve impacto imediato na liquidez local e chegou a deixar stablecoins até 2% mais caras no país.Na prática, isso significa que comprar dólares digitais, como USDT ou USDC, ficou temporariamente mais caro no Brasil do que no exterior. Como stablecoins são usadas por corretoras e investidores como base de liquidez para negociar Bitcoin, Ethereum e outros criptoativos, o impacto pode se espalhar para todo o mercado local.O BC não publicou uma nova norma geral sobre o tema. O que houve, segundo Diego Perez, vice-presidente da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABcripto), foi um comunicado direcionado a instituições financeiras que fazem remessas internacionais por conta e ordem de clientes, como bancos e corretoras de câmbio.Nesse comunicado, o BC manifestou preocupação com operações de câmbio destinadas à “nacionalização” de ativos virtuais por meio de fundos de investimento. A leitura da autoridade monetária é que, em determinados casos, esses fundos poderiam estar atuando como intermediadores de criptoativos sem autorização como prestadores de serviços de ativos virtuais.A preocupação do regulador envolve dois pontos principais. O primeiro é a falta de visibilidade sobre as contrapartes das operações. Ou seja, quem vendeu o ativo virtual no exterior, como esse criptoativo foi adquirido e se ele poderia ter relação com fraude, crime financeiro, lavagem de dinheiro ou ocultação de bens.Leia também: Banco Central propõe que corretoras travem por até 24h envio de criptomoedas para exteriorO segundo ponto é jurídico-regulatório. Para o BC, se um fundo compra criptoativos no exterior e depois os repassa ao mercado brasileiro, a operação pode ter características de intermediação. O problema é que fundos de investimento não são pessoas jurídicas, mas condomínios de bens, administrados por gestores e administradores. Por isso, na visão do setor, há dúvida sobre como enquadrar essas operações.“Não foi um ajuste regulatório, uma nova norma, não foi algo abrangente. Foi um comunicado simultâneo para várias instituições financeiras, comunicando o entendimento do próprio banco”, disse Perez em entrevista ao Portal do Bitcoin.Para a ABcripto, esse tipo de operação pode ser legítimo quando feito por fundos regulados, com política de investimento definida e aquisição de ativos em entidades autorizadas, no Brasil ou no exterior. A entidade avalia que não há vedação expressa nas leis ou normas atuais que torne automaticamente irregular o uso desses instrumentos.Samir Kerbage, CIO da Hashdex, também vê o tema como uma “zona cinzenta”, mas defende que é preciso separar operações legítimas de arbitragem de estruturas usadas como canal de câmbio para terceiros.“De um lado há arbitragem legítima: fundos comprando e vendendo criptoativos por conta própria, no livro de ordens, capturando diferenças de preço entre o mercado local e o exterior. Isso melhora a liquidez, aperta spreads e mantém o preço brasileiro conectado ao global. Beneficia o cotista e o mercado”, afirmou.Segundo ele, o problema apontado pelo BC estaria em outro tipo de estrutura. “O que o Banco Central mirou foi o desvio de finalidade — estruturas em que o fundo deixa de operar por conta própria e vira um canal de câmbio para uma contraparte conhecida, importando stablecoin para um cliente específico e usando a alíquota zero de IOF do fundo como vantagem competitiva”, disse.Para Kerbage, esse tipo de operação muda a natureza do fundo. “Aí não é gestão de carteira, é intermediação — e enfraquece o IOF como instrumento de controle de capitais e dificulta o monitoramento cambial.”Por que isso pode encarecer Bitcoin e stablecoinsO impacto para o consumidor aparece por meio da liquidez. Exchanges brasileiras precisam acessar ativos digitais no mercado global para manter livros de negociação eficientes, preços próximos aos praticados no exterior e oferta suficiente para clientes que querem comprar ou vender criptoativos a qualquer momento.Quando o canal usado por fundos para trazer ativos virtuais ao Brasil fica sob incerteza, essa engrenagem perde eficiência. Menos fornecedores de liquidez significam menos capacidade de arbitragem entre o mercado local e o internacional. Com isso, o preço do Bitcoin, do Ethereum ou das stablecoins no Brasil pode se descolar do preço global.Perez explica que, sem acesso adequado a pools internacionais de liquidez, o mercado brasileiro pode passar a operar com assimetrias. Em outras palavras, o Bitcoin lá fora pode estar em um preço, enquanto o Bitcoin no Brasil passa a negociar mais caro ou mais barato, dependendo da oferta e da demanda local.“Você acaba abrindo janelas de arbitragem, ou seja, pessoas compram lá fora para vender aqui ou compram aqui para vender lá fora e ganham no spread da transação”, afirmou.Esse descolamento é especialmente sensível no caso das stablecoins. Por serem tokens atrelados ao dólar, elas funcionam como uma espécie de dólar digital dentro do mercado cripto. São usadas para entrada e saída de posições, remessas, pagamentos, proteção cambial e formação de preço de outros ativos. Quando a stablecoin encarece, o custo de operar todo o ecossistema também pode subir.A alta inicial de até 2% mostrou como a interrupção repentina desse tipo de operação pode afetar o mercado. Pouco depois da notícia, esse spread caiu para cerca de 0,5%, mas ainda indica um custo adicional para quem opera no Brasil. Para investidores pessoa física, isso pode aparecer como preço menos competitivo na hora de comprar cripto. Para empresas, pode significar maior custo operacional e menor eficiência na formação de mercado.Kerbage avalia que o efeito para o varejo é indireto, mas existe no curto prazo. “Com esses fundos fora do mercado, o livro fica mais raso, o spread abre e cripto fica mais caro no Brasil do que lá fora — já se viu ágio em stablecoin, Bitcoin e Ether”, afirmou.Leia também: ABcripto rebate Banco Central e defende que stablecoins sejam consideradas ativos virtuaisSegundo o CIO da Hashdex, o impacto tende a se acomodar conforme o mercado se adapta. “Deve normalizar à medida que o mercado se reorganiza dentro das regras. A liquidez dos ETFs não é impactada por esse tipo de mecanismo”, disse.O efeito não é apenas financeiro. Se o mercado brasileiro passa a operar com preços mais distantes do exterior, ele se torna menos competitivo. Plataformas locais podem perder eficiência frente a exchanges estrangeiras, e usuários mais sofisticados podem buscar alternativas fora do país para reduzir custos.Setor vê incerteza e busca diálogo com o Banco CentralA avaliação da ABcripto é que o maior problema, neste momento, é a incerteza. Segundo Perez, não está claro se todas as operações com fundos estão vedadas, se apenas determinados modelos são questionados ou quais ajustes seriam suficientes para endereçar as preocupações do Banco Central.“É um cenário em que a gente não tem um piso firme para caminhar”, afirmou.Na prática, instituições financeiras mais conservadoras tendem a dar “dois passos para trás” diante de uma sinalização do regulador. Mesmo sem uma norma publicada, bancos e corretoras de câmbio podem preferir suspender operações para evitar risco de fiscalização, medidas cautelares ou sanções.Isso cria um efeito em cadeia. Empresas que já haviam estruturado produtos, times e tecnologia para operar com liquidez internacional ficam vulneráveis. Outras que estudavam entrar no segmento podem simplesmente desistir. Para Perez, se o tema não for esclarecido, o Brasil pode ficar menos atrativo para empresas cripto locais e globais.Kerbage também aponta que o impacto recai principalmente sobre os participantes que fizeram da arbitragem cambial uma estratégia. “Quem sente são as mesas, corretoras e gestores que fizeram dessa arbitragem cambial a principal vantagem competitiva”, afirmou.O episódio ocorre em um momento de maior pressão regulatória sobre o setor. Em novembro, o BC publicou regras para prestadores de serviços de ativos virtuais, incluindo normas sobre autorização, funcionamento, custódia e operações com ativos virtuais no mercado de câmbio. Na semana passada, a autarquia também apresentou proposta para permitir que corretoras retenham por até 24 horas determinadas transferências de cripto para o exterior ou carteiras de autocustódia, em operações acima de US$ 10 mil.Para o BC, o objetivo é reduzir riscos de fraude, lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e prejuízos ao sistema financeiro. Para o setor, a preocupação é que medidas legítimas de controle acabem criando custos excessivos, reduzindo concorrência e prejudicando usuários.Perez afirma que a ABcripto ainda está coletando informações com associados e outras entidades para apresentar uma posição consolidada ao regulador. A entidade já pediu reunião com o BC para discutir o tema e buscar alternativas.A defesa do setor é que operações legítimas sejam diferenciadas de estruturas eventualmente irregulares. A preocupação é que uma interrupção ampla, sem critérios públicos claros, penalize fundos regulados, exchanges e consumidores, em vez de atingir apenas os agentes que possam estar atuando fora das regras.Kerbage faz avaliação semelhante ao separar exposição cripto de uso indevido de fundos. “O problema nunca foi o fundo com exposição a cripto. É o fundo usado como veículo de otimização tributária para o câmbio de terceiros”, afirmou.No fim, a discussão é mais ampla do que um canal específico de câmbio. O ponto central é como o Brasil vai equilibrar fiscalização e competitividade em um mercado global. Se o país restringir demais o acesso à liquidez internacional, o consumidor pode pagar a conta na forma de stablecoins mais caras, spreads maiores e Bitcoin descolado do preço global.Procurando uma alternativa para aumentar seus ganhos? A Renda Fixa Digital do MB é a solução: até 18% de ganho ao ano, risco controlado e a segurança que seu dinheiro merece. 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