A inteligência artificial (IA) pode não estar eliminando empregos em larga escala, mas já está mudando a forma como as empresas contratam, especialmente para cargos de entrada. Essa é a conclusão de uma análise publicada pela empresa holandesa de tecnologia jurídica Wolters Kluwer, que argumenta que a IA funciona como uma "máquina de tarefas", automatizando atividades específicas sem substituir o trabalho humano como um todo. Ao mesmo tempo, a empresa afirma que essa transformação ajuda a explicar o aumento das dificuldades enfrentadas por profissionais iniciantes, como integrantes da Geração Z, para conseguir o primeiro emprego.No estudo, a Wolters Kluwer recorre a dois conceitos clássicos da economia para sustentar sua análise. O primeiro é a chamada "falácia da quantidade fixa de trabalho", formulada em 1891 pelo economista inglês David Frederick Schloss. Segundo essa ideia, é errado acreditar que existe uma quantidade limitada de trabalho na economia e que, se uma tecnologia assumir determinadas tarefas, necessariamente faltarão empregos para as pessoas.A empresa afirma que esse raciocínio não se confirma na prática observada em escritórios de advocacia, um dos setores que mais têm adotado ferramentas de IA. Segundo a análise, os sistemas automatizam tarefas repetitivas, como pesquisas jurídicas e revisão de documentos, liberando os advogados para atividades que exigem estratégia, interpretação e julgamento. Em vez de reduzir equipes, muitos escritórios estariam contratando profissionais capazes de operar, supervisionar e validar os resultados produzidos pela IA.Eficiência amplia demanda, mas muda perfil das contrataçõesO segundo conceito citado pela Wolters Kluwer é o Paradoxo de Jevons, formulado em 1865 pelo economista William Stanley Jevons. A teoria diz que, quando um recurso se torna mais eficiente e barato, seu consumo tende a aumentar, e não diminuir. A empresa aplica esse princípio à IA para argumentar que a redução do custo de determinadas atividades jurídicas amplia a demanda por serviços, já que clientes passam a esperar análises mais rápidas, completas e frequentes. "Os ganhos de eficiência impulsionados pela IA provavelmente aumentarão as expectativas sobre o trabalho que você pode produzir, em vez de reduzir a demanda", afirma o estudo.A companhia também destaca que a IA ainda apresenta limitações importantes. Com base em pesquisas internas, a Wolters Kluwer informa que os sistemas conseguem produzir resultados de qualidade profissional em tarefas isoladas entre 50% e 60% das vezes. No entanto, quando precisam executar projetos completos, do início ao fim, a taxa de sucesso cai para aproximadamente 2%. Para a empresa, isso reforça que a tecnologia complementa o trabalho humano, mas ainda depende da supervisão e do discernimento de profissionais experientes.Embora a análise apresente uma perspectiva menos pessimista sobre a substituição de empregos pela IA, ela também ajuda a explicar um fenômeno observado em diferentes mercados: a redução das oportunidades para trabalhadores iniciantes. Segundo dados citados no material, o mercado de trabalho para profissionais em início de carreira vive seu pior momento em 37 anos. As vagas de entrada em serviços profissionais caíram 29% desde janeiro de 2024, enquanto os setores financeiro e de serviços de informação passaram de uma média de criação de 44 mil vagas mensais antes da pandemia para uma perda de cerca de 9 mil postos por mês desde 2023.O documento também cita um estudo da Universidade Stanford segundo o qual trabalhadores entre 22 e 25 anos em ocupações altamente expostas à IA registraram queda de 13% no emprego desde 2022. A análise afirma ainda que as empresas têm elevado as exigências para cargos de entrada, priorizando candidatos que já possuam habilidades como tomada de decisão, liderança, gestão de stakeholders e capacidade de interpretar os resultados produzidos pela IA.Segundo a consultoria PwC, em seu Barômetro de Empregos em IA de 2026, vagas iniciais em profissões mais expostas à inteligência artificial têm sete vezes mais probabilidade de exigir competências que, tradicionalmente, eram desenvolvidas apenas ao longo da carreira.Para a Wolters Kluwer, o cenário indica que a IA não elimina a necessidade de profissionais, mas altera profundamente quais habilidades são valorizadas e em que momento elas passam a ser exigidas. A empresa afirma que o principal desafio não está na substituição completa dos trabalhadores, mas na reorganização do mercado de trabalho, em que tarefas básicas são automatizadas e o primeiro degrau da carreira se torna cada vez mais difícil de alcançar para novos profissionais.