"Fico me cobrando", diz primo que indicou diarista a casal morto em BH

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Belo Horizonte — Parente do casal morto à facadas em Belo Horizonte, o advogado Vinícius Mitre contou que foi o responsável por indicar Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, principal suspeita do crime, para trabalhar na casa do advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e da empresária aposentada Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76. Ele diz que está muito abalado com o caso e que se sente culpado pela indicação.“Estou muito, muito mal. Fico me cobrando desde a terça-feira”, disse Mitre nesta quinta-feira (2/7), após a prisão de Paola. O advogado afirma que ficou supreso com a confissão da diarista, que prestava serviço em sua casa e, segundo ele, era uma excelente profissional. Contudo, ele declarou que nos últimos dias a mulher mudou o comportamento.A diarista trabalhava para o advogado desde outubro do ano passado. “Paola começou muito bem lá em casa. Era muito gracinha, cuidava de tudo, deixava comida pronta, cuidava muito bem das minhas roupas. Mas, de uns tempos para cá, começou a mudar o comportamento”, afirmou.De acordo com Mitre, a mudança teria ocorrido após uma viagem da suspeita ao Sul do país. Inicialmente, Paola teria dito a ele que visitaria o pai por uma semana, mas permaneceu fora por cerca de três semanas. “Depois fui descobrir que ela não tinha ido ver o pai. Sei que viajou com um homem e voltou mudada. Nunca explicou direito o que aconteceu”, falou. Leia também Minas GeraisDiarista matou casal em BH no 1º dia de trabalho na casa, diz polícia Minas GeraisSuspeita de matar casal em BH diz que teve “surto” e dopou as vítimas Minas GeraisImagens mostram diarista suspeita de matar casal sendo presa em BH Minas GeraisAcusada de matar casal em BH está foragida com filho de 6 anos Ele também contou que passou a perceber um uso frequente de medicamentos controlados. “Ela começou a tomar muito remédio. Me mandava mensagem dizendo que tinha tomado clonazepam e outros medicamentos. Na última conversa, eu falei: ‘Paola, você está exagerando. Está tomando isso sem prescrição médica. Você vai ter uma parada cardiorrespiratória a qualquer momento'”, relatou o advogado.Na sexta-feira anterior ao crime, Mitre disse que recebeu uma ligação de Cláudio pedindo o contato da diarista. “Ele tinha perdido o telefone dela e me ligou pedindo o número. E eu passei”, lamentou.“Não é a Paola que eu conheci”Após a prisão de Paola, ele disse estar abalado. “Não é a Paola que eu conheci. Para mim, ela foi excelente. Custa acreditar que ela tenha feito isso. Hoje de manhã fiquei estarrecido ao saber que ela confessou o crime”, disse.O advogado ainda relatou um episódio ocorrido há poucos dias, durante um jogo da Seleção Brasileira, e diz que hoje suspeita que o episódio possa ter relação com Paola, embora diga não ter provas. Ele afirma que passou mal após ingerir uma bebida em casa.“Alguma coisa aconteceu lá em casa. Não sei se ela tentou alguma coisa. Comecei a passar mal”, disse.O delegado responsável pelo caso reforçou a versão de Mitre e disse que, em depoimento, ele também demonstrou que ficou abalado. “Ele conversou com a nossa equipe, se disse bastante arrependido, muito abalado por tê-la indicado e, nas palavras dele, sentiu até um pouco de culpa por essa tragédia que acometeu a família'”, declarou.Dopou casal com remédios própriosPaola afirmou em depoimento à Polícia Civil que dopou o casal antes do crime e alegou ter sofrido um “surto” psicótico.De acordo com o delegado, a diarista dopou o casal com um sonífero que ela mesmo usava. A dose dada aos dois, contudo, foi de quatro comprimidos para cada uma das vítimas. Eles teriam ficado desacordados após tomar os medicamentos.“Ela alegou que, durante o almoço, preparou um suco natural. Nesse momento, viu uma oportunidade, foi até a bolsa, pegou quatro comprimidos de um medicamento de uso controlado, utilizado no tratamento de depressão e de transtornos psiquiátricos mais graves, e os colocou na bebida”, disse.Segundo os investigadores, a suspeita também disse que foi ao apartamento sem a intenção de cometer o roubo, mas alegou ter sido “atraída” pelos objetos de valor na casa. Ela ainda afirmou que o carro que a buscou após deixar o prédio era de um motorista de aplicativo. A polícia, no entanto, afirma que as investigações continuam.PrisãoImagens mostram o momento em que a diarista Paola chega ao Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri), em Belo Horizonte, no fim da madrugada desta quinta-feira (2/7). Ela foi presa poucas horas antes, em um hotel de Itabira, na Região Central do estado, após passar cerca de um dia foragida.Ela estava acompanhada do filho, de 6 anos quando foi localizada. Segundo a polícia, a prisão ocorreu após um trabalho de inteligência que rastreou o paradeiro da suspeita.Crime brutalAinda segundo os investigadores, imagens do circuito interno mostram que a diarista entrou no prédio por volta das 7h30 carregando apenas uma bolsa.Cerca de oito horas depois, deixou o edifício usando roupas diferentes das que vestia ao entrar e carregando duas sacolas grandes e uma bolsa reconhecida pela família como sendo de Maria Clotilde.Objetos furtados e fugaApós o crime, segundo a investigação, joias, relógios, celulares e outros objetos foram levados do apartamento. Parte dos itens encontrados foi vendida pouco depois, na região central da capital.Sobre os bens levados, o delegado afirmou que a própria suspeita relatou ter roubado cerca de R$ 18 mil em dinheiro que estavam no apartamento.“Ela mesma não soube dizer precisamente o valor. Os familiares também não tinham certeza, porque os idosos moravam sozinhos e, salvo engano, nem sabiam que havia dinheiro em espécie na residência. Ela afirmou que retirou cerca de R$ 18 mil do casal“, disse.Segundo o investigador, parte desse dinheiro já teria sido gasta com hotéis, corridas de aplicativo, restaurantes e compras.Polícia apura participação de comparsasApesar da prisão da principal suspeita, a Polícia Civil afirma que o caso ainda está longe de ser encerrado.Um dos principais pontos investigados é a possível participação de outras pessoas. Imagens de câmeras de segurança mostram um carro de alto padrão aguardando nas proximidades do local onde objetos ligados ao crime foram descartados.Para os investigadores, há indícios de que alguém possa ter auxiliado a diarista na fuga, no transporte dos bens furtados ou na ocultação de provas.Dívidas Outro aspecto apurado é a situação financeira de Paola. Segundo a Polícia Civil, familiares relataram que ela acumulava dívidas e que parentes chegaram a reunir cerca de R$ 40 mil para quitar débitos com agiotas. A polícia também informou que familiares descreveram a mulher como emocionalmente instável e com histórico de depressão.Os investigadores, porém, ressaltam que essas informações não estabelecem relação direta com o crime e seguem apurando a motivação e a dinâmica completa dos assassinatos.O outro lado A defesa de Paola, por meio de Bruno Correa Lemos, advogado criminalista, afirmou que manifesta “profundo pesar e solidariedade aos familiares das vítimas” e que apresentará suas razões “no momento processual oportuno”, com base nas provas produzidas.O advogado também destacou que eventual responsabilização deve decorrer da instrução processual, “e não de julgamentos antecipados”.