Em San Francisco, salário de US$ 180 mil no setor de tecnologia já não é suficiente

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SAN FRANCISCO — Katrine Razniak, de 27 anos, chegou a San Francisco em 2022 para trabalhar como recrutadora no LinkedIn, com salário de US$ 70 mil por ano. Sua remuneração anual saltou para US$ 180 mil quando ela foi para a empresa de software Rippling, onde passou a liderar uma equipe de gerentes de contas. Seu parceiro, Adam Woodbury, de 39 anos, mudou-se para a cidade em 2021 e ganha US$ 185 mil como engenheiro de software.Hoje, nem mesmo esses salários de seis dígitos parecem suficientes em San Francisco.Quando Razniak e Woodbury tentaram encontrar neste semestre um apartamento de um quarto por menos de US$ 5 mil por mês, não conseguiram. Eles visitaram cerca de 30 imóveis em três meses, mas todos eram caros demais e disputados demais. Em um anúncio de US$ 5.200 por mês, por exemplo, eles descobriram que 30 pessoas haviam colocado seus nomes na lista de interessados em menos de uma hora após a visitação.Leia tambémNúmero de mortos e feridos na guerra da Ucrânia supera 2 milhões, diz estudoA Rússia sofreu as perdas mais pesadas, com 1,4 milhão de militares mortos ou feridos desde a invasão, em fevereiro de 2022EUA sancionam 2 pessoas e 3 empresas brasileiras por suspeita de ligação com o PCCMedida marca a primeira rodada de punições econômicas desde que Washington passou a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristasEles encerraram a busca. Mas, mesmo que tivessem encontrado um imóvel, ficou a dúvida: uma cidade em que as compras do mercado e um jantar com amigos se tornaram motivo de preocupação financeira ainda seria um lugar onde poderiam construir o futuro?“Não me sinto completamente sem esperança, mas acho que não consigo continuar em SF”, disse Razniak. Woodbury acrescentou: “Em algum momento, houve uma transição lenta em que nós dois percebemos que isso simplesmente deixou de fazer sentido”.Razniak e Woodbury não estão em dificuldade por nenhum critério convencional. Mas, com uma onda de riqueza ligada à inteligência artificial prestes a inundar San Francisco, até jovens profissionais de tecnologia que chegaram à cidade perseguindo o sonho do Vale do Silício começaram a sentir que um futuro acessível está cada vez mais fora de alcance.O preço mediano dos imóveis em San Francisco superou US$ 1,7 milhão em abril, e o aluguel médio dos apartamentos na cidade é agora o mais alto dos Estados Unidos. Crédito: Christie Hemm Klok/The New York TimesIsso porque, à medida que empresas de IA como OpenAI e Anthropic — ambas sediadas em San Francisco e avaliadas em quase US$ 1 trilhão — se preparam para abrir capital, surgiu uma elite da inteligência artificial com poder para gastar mais do que outros trabalhadores de tecnologia. As duas empresas, junto com a SpaceX, de Elon Musk, que recentemente abriu capital, podem criar mais de 20 novos bilionários entre funcionários atuais e antigos, segundo uma análise da Sacra, empresa de pesquisa de mercados privados.“Eu me sinto um pouco como se não fosse bom o bastante para morar aqui porque não trabalho em uma empresa de IA”, disse Woodbury, embora seu salário o coloque aproximadamente entre os 20% de domicílios com maior renda nos Estados Unidos, segundo dados do Census Bureau.Woodbury se mudou recentemente para Carnelian Bay, na região do lago Tahoe, na Califórnia, onde o custo é mais baixo. Razniak continua em um apartamento no bairro de Haight-Ashbury, em San Francisco, que divide com duas colegas e pelo qual paga US$ 1.650 por mês. Os dois estão fazendo o relacionamento à distância funcionar.San Francisco há muito tempo enfrenta problemas de acessibilidade, mas a questão ganhou nova dimensão com a chegada em massa de trabalhadores de IA atraídos por OpenAI, Anthropic e outras startups. O custo de vida geral na cidade está 65,6% acima da média nacional, segundo os dados mais recentes do Cost of Living Index, do Council for Community and Economic Research.A moradia lidera a disparada. O preço mediano de uma casa em San Francisco superou US$ 1,7 milhão em abril, segundo relatório da Redfin, bem acima da mediana nacional, em torno de US$ 450 mil. E, nos últimos meses, o aluguel médio dos apartamentos na cidade ultrapassou o de Nova York, tornando-se o mais caro dos Estados Unidos, em US$ 3.827 por mês, segundo a empresa de dados imobiliários CoStar.“É uma panela de pressão, e ela esquentou muito rápido”, disse Nigel Hughes, pesquisador sênior da CoStar. A taxa de vacância em alguns dos bairros mais disputados da cidade — incluindo Marina District, Pacific Heights e South of Market — caiu para cerca de 3%, ante aproximadamente 13% em 2020, segundo dados da CoStar. A construção de novos imóveis desacelerou.A alta dos preços dos imóveis é agravada por outros fatores. Os custos com serviços públicos são cerca de 41% mais altos em San Francisco do que a média nacional; transporte custa cerca de 43% mais; e supermercados têm preços aproximadamente 19% superiores aos do restante do país, segundo o Cost of Living Index.E está cada vez mais difícil acompanhar o padrão dos vizinhos — ou, neste caso, de Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic. A remuneração média anual em San Francisco foi de US$ 196.365 no ano passado, ante US$ 153.359 em 2020, segundo o Bureau of Labor Statistics.Ted Egan, economista-chefe da cidade de San Francisco, disse que pessoas de alta renda sempre avaliaram se valia a pena aceitar as trocas impostas pela cidade ou se mudar para um lugar com quintal e garagem. O que mudou agora, segundo ele, é a escala. Quando a Uber abriu capital, em 2019, seu valor de mercado era de cerca de US$ 82 bilhões.“OpenAI e Anthropic são avaliadas em mais de dez vezes isso”, disse Egan.O prefeito Daniel Lurie afirmou, em comunicado, que sua administração trabalha para reduzir custos por meio de maior acesso a creches, um novo plano de zoneamento para moradias familiares e melhorias no transporte. Ele não abordou especificamente a situação de quem ganha salários de seis dígitos.(O New York Times processou OpenAI e Microsoft, alegando violação de direitos autorais no uso de conteúdo jornalístico em sistemas de IA. As empresas negam as acusações.)Jolie Gan, de 23 anos, mudou-se para San Francisco em janeiro após concluir uma bolsa Fulbright no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Hoje, ela tem dois empregos: trabalha na gestora de venture capital Andreessen Horowitz e escreve para a Core Memory, publicação sobre tecnologia e ciência, somando uma renda de cerca de US$ 250 mil por ano. Ela e a colega de apartamento já se mudaram três vezes em dois meses — em um dos casos, deixaram um imóvel anunciado de forma enganosa como se tivesse dois quartos; em outro, saíram de um prédio com mofo preto e ratos.Com US$ 250 mil por ano e sem dívida estudantil, Gan disse que consegue se virar, inclusive poupando para a aposentadoria. Ainda assim, afirmou ver a pressão sobre amigos que ganham menos de US$ 200 mil, para quem aluguel, contas e supermercado consomem praticamente toda a renda.Gan disse que está determinada a permanecer em San Francisco pelos próximos anos por causa das oportunidades de carreira, da energia da cidade e da comunidade que construiu ali.“Por mais absurda que seja essa situação da moradia, e por mais caro que tudo fique, ainda acho que esses intangíveis valem a pena para mim”, disse.Razniak e Woodbury começaram a pensar em Seattle. A vida que Razniak imagina por lá é uma que ela não consegue se ver bancando em San Francisco, mesmo com uma renda combinada que seria extraordinária em quase qualquer outro lugar do país.“Nós queremos uma casa, queremos uma garagem, queremos espaço para guardar coisas”, disse ela. “E isso simplesmente não parece algo alcançável aqui.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Em San Francisco, salário de US$ 180 mil no setor de tecnologia já não é suficiente appeared first on InfoMoney.