Imagine uma rocha espacial, maior que o morro do Pão de Açúcar, se aproximando perigosamente da Terra. Em certo momento, ela chega tão perto que pode ser vista a olho nu, cruzando o céu, passando abaixo dos nossos satélites geoestacionários. A gravidade do nosso planeta puxa o asteroide, muda sua trajetória, mas não o suficiente para provocar um impacto que seria catastrófico. Essa poderia ser uma cena de um filme de ficção – ou de suspense – mas é, na verdade, uma previsão do que realmente ocorrerá em 2029 com a passagem do asteroide Apophis. Uma história que ainda não foi contada, mas que graças à ciência, já sabemos que terminará bem. O Apophis, o último asteroide da nossa série sobre objetos próximos à Terra, teve sua história iniciada em junho de 2004, quando foi descoberto por astrônomos do Observatório de Kitt Peak, no Arizona. No começo, era apenas mais um objeto que passaria próximo da Terra. Poucos meses depois, observações adicionais permitiram calcular sua órbita com mais precisão e os resultados chamaram atenção dos cientistas e deixaram muita gente preocupada.Modelo tridimensional do asteroide Apophis gerado a partir de sua curva de brilho – Créditos: Astronomical Institute of the Charles University: Josef Ďurech, Vojtěch SidorinTerra em 13 de abril de 2029. A probabilidade era pequena, menos de 3%, mas o asteroide, nem tanto… Com cerca de 450 metros e uma massa estimada em 61 milhões de toneladas, o Apophis teria potencial destrutivo equivalente a mais de 70 mil bombas atômicas como a de Hiroshima. Por isso, ele alcançou o nível 4 da Escala de Torino, uma classificação de risco para objetos próximos à Terra, onde o nível 4 é reservado para aqueles com chances de impacto superiores a 1% e com potencial para causar danos regionais. Foi a única vez na história que um objeto atingiu um valor tão elevado nessa escala.Dá para imaginar o motivo deste asteroide ter recebido o nome de Apophis, o deus egípcio associada ao caos e à destruição.Apep (Apophis na versão em grego), deus egício do caos e da destruição representado pela serpente – Creditos: autor desconhecido / Domínio PúblicoA notícia do possível impacto rapidamente tomou repercussão mundial. Manchetes em tons alarmistas noticiando o “fim do mundo” quase certo ganharam a mídia. Felizmente, antes mesmo do lançamento dos primeiros cursos de “como sobreviver ao apocalipse do asteroide” os cientistas acabaram com a festa, ou pelo menos, adiaram ela. À medida que novas observações eram realizadas, os cálculos orbitais foram sendo refinados. Em poucos meses, o risco para 2029 foi descartado, mas aí surgiu uma nova preocupação: talvez, em sua passagem extremamente próxima em 2029, a gravidade do nosso planeta poderia alterar sua órbita de tal forma, que colocaria o Apophis em rota de colisão com a Terra, numa passagem futura, em 2036 ou 2068. Ao contrário dos planetas e luas, os asteroides não tem uma órbita estável que nos permita calcular sua posição exata no futuro. Eles podem ter sua trajetória alterada pela gravidade dos grandes corpos ou por colisões com outros asteroides. Além disso, fatores não gravitacionais como a pressão da radiação e o chamado efeito Yarkovsky podem provocar alterações mínimas que, acumuladas ao longo das décadas, podem significar a diferença entre uma passagem de raspão e um impacto catastrófico. Por isso, rastrear os objetos próximos à Terra é tão importante. E por isso que o Apophis permaneceu entre os objetos mais monitorados e mais perigosos da tabela de risco do Sentry por quase duas décadas. Observatórios do mundo inteiro acompanharam cada aproximação, refinando continuamente sua órbita. Finalmente, em março de 2021, durante uma aproximação favorável, observações mais precisas permitiram eliminar qualquer possibilidade de impacto, pelo menos nos próximos duzentos anos. Imagens de radar do asteroide Apophis feitas em 2012, pouco antes de sua aproximação em 2013 – Créditos: NASA/JPL-CalTechFoi um grande alívio, mas não significa que podemos relaxar. Continuar monitorando o Apophis é importante, principalmente para o refinamento dos nossos modelos, o que nos permite prever, com maior precisão, o comportamento de outros asteroides potencialmente perigosos.As observações indicam que o Apophis pertence à classe dos asteroides do tipo S, ricos em silicatos e metais como ferro e níquel. Mas os estudos sugerem que ele pode ser uma pilha de entulhos, um amontoado de blocos rochosos, fragmentos menores e material pulverizado, unidos principalmente pela gravidade. Isso desperta especial interesse dos cientistas sobre como essa estrutura fragmentada vai se comportar durante sua aproximação de 13 de abril de 2029. Nesse dia, o asteroide passará a menos de 32 mil quilômetros da superfície terrestre, mais próximo do que muitos satélites de comunicação em órbita geoestacionária. Tão perto que poderá ser visto a olho nu no céu, inclusive do Brasil. Apesar do risco de impacto ter sido descartado, sua aproximação será um evento astronômico excepcional. Passagem próxima do asteroide Apophis em 13 de abril de 2029. Em azul, o cinturão dos satélites geoestacionários. Crédito: NASADurante a passagem, a gravidade da Terra deverá produzir efeitos mensuráveis sobre o asteroide. Os cientistas esperam observar pequenas alterações em sua rotação, possíveis deslocamentos de material superficial e até mudanças sutis em sua estrutura.E foi justamente para observar esses efeitos de perto, que a NASA estendeu a missão da sonda OSIRIS-Rex, que visitou o asteroide Bennu em 2020. Depois de encaminhar as amostras de Bennu para a Terra e concluir, com sucesso, sua missão original, a espaçonave foi redirecionada para um novo alvo: o Apophis.Rebatizada como OSIRIS-APEX, ela deverá alcançar o asteroide pouco depois de sua aproximação com a Terra em 2029, e estudar como a passagem próxima alterou o asteroide, observando processos que raramente temos a oportunidade de acompanhar em tempo real.Tamanho do asteroide Apophis comparado ao Empire State, Torre Eifel e Pão de Açucar – Créditos: Asteroid Day BrazilO 13 de abril de 2029, que para muitos foi considerada a data do fim do mundo, se tornou fundamental para aprendermos mais sobre esses pequenos corpos que passam perigosamente próximos à Terra. Tão importante que a ONU declarou 2029 como o Ano Internacional da Conscientização sobre Asteroides e da Defesa Planetária.Um ano para nos lembrar que impactos cósmicos fazem parte da história da Terra desde a sua formação. A diferença é que hoje somos a primeira espécie capaz de nos defender dessas ameaças. E há algo fundamental que o Apophis já nos ensinou: na defesa do nosso planeta, nossas armas mais poderosas não são foguetes nem explosivos, mas o conhecimento, a ciência e a capacidade de agir com antecedência.O post Apophis: da ameaça do caos ao conhecimento apareceu primeiro em Olhar Digital.