HSINCHU, Taiwan — April Lo se lembra de quando os imóveis mais cobiçados de Taiwan eram terras agrícolas.Quando ela se mudou para a região, há 16 anos, não havia lojas de departamento, parques corporativos ou restaurantes sofisticados.“Era tudo muito ermo”, disse.Hoje, a realidade é exatamente o oposto. Os arrozais deram lugar a Hsinchu, cidade que abriga a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) e se tornou o epicentro de uma indústria que move a economia global: a produção dos chips avançados que alimentam o boom da inteligência artificial.Sede da Chi Deh Crane Engineering, em Hsinchu, Taiwan, em 3 de março de 2026. A empresa ajudou a construir algumas das primeiras fábricas do Parque Científico de Hsinchu, incluindo a primeira unidade de produção da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC). (Lam Yik Fei/The New York Times)À medida que a indústria de semicondutores de Taiwan decolou, a TSMC passou a fabricar chips presentes em praticamente todo tipo de dispositivo eletrônico. Isso inclui os cobiçados aceleradores de IA projetados pela Nvidia, hoje a empresa mais valiosa do mundo. Aos poucos, agricultores foram sendo expulsos da região pelo avanço de fábricas, escritórios e torres residenciais de luxo. A linha de trem-bala que liga as maiores cidades de Taiwan agora transporta 80 milhões de passageiros por ano passando pelos fundos da casa de Lo.No norte de Hsinchu, em uma área conhecida como Zhubei, os preços dos imóveis dispararam, à medida que compradores disputam vagas em filas de espera de anos por apartamentos novos perto do Parque Científico de Hsinchu, onde fica a sede da TSMC. Clínicas de cirurgia plástica, restaurantes de alto padrão e estúdios boutique de ginástica surgiram para atender trabalhadores de tecnologia enriquecidos pela onda da IA.Nos últimos seis anos, as famílias que vivem perto do Parque Científico de Hsinchu registraram algumas das rendas mais altas de Taiwan. Em um dos bairros, a renda média domiciliar superou US$ 146 mil em 2023 — cerca de cinco vezes a média do país.Pessoas passam em frente a uma loja da Tesla no shopping Big City, em Hsinchu, Taiwan, em 1º de março de 2026. O centro comercial está entre os de melhor desempenho de Taiwan (Lam Yik Fei/The New York Times)Essa prosperidade deu origem ao que ficou conhecido como “Zhuke Mama”: a mulher cujo marido trabalha na lucrativa indústria de semicondutores e que, por isso, tem tempo para atividades como aulas de pilates, compras de casas de veraneio na Tailândia e acompanhamento da trajetória acadêmica dos filhos.Enquanto o restante de Taiwan e boa parte do Leste Asiático enfrentam uma forte queda populacional, tantos filhos nasceram em Hsinchu nos últimos anos que as escolas já não dão conta da demanda. Hoje, colégios públicos de ensino médio na região só aceitam alunos com notas suficientemente altas nos exames — prática contra a qual Lo e um grupo de mães vêm protestando. Quem não atinge a pontuação exigida precisa se deslocar para outro distrito escolar.“A população explodiu”, disse Lo. “Ficou tudo muito competitivo.”Clientes no shopping Big City, em Hsinchu, Taiwan, em 1º de março de 2026. Entre as lojas de alto padrão do centro comercial está a Brooks Brothers, onde alguns ternos custam quase US$ 1.500 — mais do que o salário mensal da maioria dos trabalhadores do varejo. (Lam Yik Fei/The New York Times)Hoje, Hsinchu abriga mais de 1 milhão de habitantes, e quem não tem ligação com a indústria de tecnologia foi, em grande parte, excluído pelo custo de vida. A riqueza gerada pelos semicondutores não se traduziu em ganhos salariais para outros setores. Embora os chips estejam impulsionando exportações recordes, os números agregados escondem um abismo crescente entre quem está conectado à indústria e todo o restante.O shopping local, o Big City, está agora entre os centros de varejo de melhor desempenho de Taiwan. Durante a grande liquidação de dezembro, movimentou mais de US$ 100 milhões em apenas 12 dias, alta de 6% em relação ao ano anterior, segundo o gerente-geral Alex Ro.O shopping é um templo voltado aos novos ricos de Hsinchu, com uma loja da Tesla no térreo, a poucos passos de uma Apple Store. Na Brooks Brothers, alguns ternos custam quase US$ 1.500 — mais do que o salário mensal da maioria dos trabalhadores do varejo.Pessoas comem na praça de alimentação do shopping Big City, em Hsinchu, Taiwan, em 1º de março de 2026. Fortunas, prédios de luxo e taxas de natalidade estão em alta na cidade no centro da cadeia de suprimentos de chips de Taiwan. (Lam Yik Fei/The New York Times)Várias vezes por ano, engenheiros das empresas de chips recebem bônus equivalentes a vários meses de salário. É nessa hora que eles aparecem no escritório de imóveis de Lin Ping-yang.“Meus clientes frequentemente dizem que não sabem o que fazer com os bônus”, afirmou Lin. “Então eles compram um carro novo ou usam o dinheiro como entrada para uma casa.”Nos últimos dez anos, os preços dos imóveis em Zhubei dobraram, disse ele.Hu Han-yen, dono da Chi Deh Crane Engineering, em seu escritório em Hsinchu, Taiwan, em 3 de março de 2026. Sua empresa ajudou a construir algumas das mais importantes fábricas de chips de Taiwan. (Lam Yik Fei/The New York Times)O sucesso da família de Hu Han-yen espelha a transformação de Hsinchu.Quarenta anos atrás, a empresa de guindastes de seu pai, a Chi Deh Crane Engineering, ajudou a construir algumas das primeiras fábricas do Parque Científico de Hsinchu, incluindo a primeira unidade de produção da TSMC.Na época, a indústria de semicondutores de Taiwan era pouco mais do que um experimento financiado pelo governo. Empresas que precisavam de chips tinham de arcar com o enorme custo de fabricá-los, o que exigia investimentos constantes em novas tecnologias. Mas a TSMC transformou o setor ao adotar um modelo diferente: os clientes desenhariam os chips, e a TSMC ficaria responsável pela fabricação.Funcionários na sede da Chi Deh Crane Engineering, em Hsinchu, Taiwan, em 3 de março de 2026. Hoje, a Chi Deh transporta as máquinas de precisão da holandesa ASML, fundamentais para a indústria de chips de Taiwan. (Lam Yik Fei/The New York Times)Hu apostou que aquela indústria ainda nascente precisaria de muito mais do que apenas algumas fábricas. Ele investiu as economias da família para importar guindastes gigantes, capazes de erguer fábricas, aeroportos e arranha-céus.Hoje, a Chi Deh é uma empresa de confiança no transporte das máquinas complexas e altamente calibradas fabricadas pela holandesa ASML, fundamentais para dar a Taiwan sua vantagem na manufatura de chips.Hu ficou conhecido por seu estilo extravagante, usando roupas com estampas florais chamativas e publicando nas redes sociais fotos ao lado de seus guindastes. Para celebrar o sucesso, construiu para a empresa da família uma sede elaborada na periferia de Hsinchu. O prédio remete à grandiosidade colunada de Versalhes, com uma fachada branca imponente que lhe confere um ar quase presidencial. No interior, armários exibem obras de arte contemporânea e garrafas grandes de kaoliang, um destilado taiwanês à base de sorgo.“Esse lugar antes era um terreno vazio e desolado”, disse Hu. “Hoje está completamente diferente, foi uma transformação total.”Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.The post Bem-vindo à cidade de luxo erguida pelo boom da IA em Taiwan appeared first on InfoMoney.