O conflito entre Estados Unidos e Irã dificilmente encontrará uma solução definitiva durante o governo de Donald Trump. A avaliação é de Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, que vê poucas chances de um acordo duradouro entre os dois países antes do fim do atual mandato do presidente americano. A análise foi feita em entrevista ao programa Giro do Mercado, nesta quinta-feira (9).Segundo Spiess, embora o mercado caminhe para acreditar em uma normalização das tensões no Oriente Médio, isso não significa uma pacificação da região. Para ele, os conflitos devem continuar, ainda que em menor intensidade, permitindo a retomada parcial dos fluxos comerciais pelo Estreito de Ormuz, um dos principais corredores para o transporte mundial de petróleo.Na visão do estrategista, um entendimento definitivo entre Washington e Teerã deverá ser conduzido pela próxima administração americana.“Eu admito aqui que não acredito que Donald Trump vai conseguir algum acordo duradouro com o Irã. Isso vai caber ao próximo presidente”, afirmou.Spiess argumenta que o Irã saiu do confronto em uma posição estratégica mais favorável do que a esperada inicialmente. Por isso, segundo ele, o regime iraniano pode simplesmente aguardar o fim do mandato de Trump antes de retomar negociações mais amplas com os Estados Unidos.Para o estrategista, a diferença entre o sistema político iraniano e as democracias ocidentais também pesa nesse cálculo. “Como é um regime diferente dos regimes democráticos ocidentais, ele coloca a população dele à mercê ao longo do tempo para justamente esperar o mandato do Donald Trump passar”, afirmou.Apesar desse cenário, Spiess avalia que o mercado já passou a precificar um “novo normal” para a região. A leitura é que o mercado deixou de precificar uma escalada contínua do conflito e passou a considerar um cenário de volatilidade recorrente. Para Spiess, episódios de tensão continuarão provocando oscilações nos ativos, mas sem interromper completamente o fluxo de petróleo pela região.Nesse cenário, o estrategista avalia que o barril dificilmente voltará aos níveis observados antes da escalada das tensões. Em sua visão, o mercado deve conviver com um “prêmio geopolítico” embutido nos preços da commodity, mantendo o petróleo negociado em torno de US$ 70 por barril, com movimentos pontuais que podem levá-lo novamente para perto dos US$ 80 diante de novos episódios de conflito.Segundo Spiess, essa dinâmica representa uma normalização do conflito, e não uma pacificação da região. “A região vai continuar em conflito, mas vai viabilizar minimamente fluxos no Estreito de Ormuz”, afirmou. Na avaliação do estrategista, o choque energético provocado pelos confrontos recentes acabou sendo menos duradouro do que o mercado temia, o que explica a recuperação dos ativos após os episódios mais agudos de tensão.Ata do Fed reforça cenário de juros elevadosAlém da geopolítica, Spiess afirmou que a ata da última reunião do Federal Reserve (Fed), divulgada na quarta-feira (8), reforçou a percepção de que o banco central americano deve manter uma postura mais dura nos próximos meses.Segundo o estrategista, o documento mostrou que parte dos dirigentes chegou a considerar uma nova alta de juros já na última reunião e que a maioria dos participantes avalia que a política monetária atual ainda não é suficientemente restritiva. Para ele, a probabilidade de uma elevação adicional dos juros no segundo semestre segue elevada, possivelmente nas reuniões de outubro ou dezembro.Leia também: Ata do Fed reforça cautela com inflação e mostra que alta de juros está na mesaNa avaliação de Spiess, esse cenário também traz consequências para o Brasil. Como os juros americanos servem de referência para os mercados globais, uma política monetária mais restritiva nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar, limitar o espaço para cortes da Selic e pressionar os ativos brasileiros.“O Brasil é muito sensível à dinâmica de juros americanos. Juros mais altos significam dólar mais forte e limitam o espaço para cortes de juros por aqui“, afirmou. Apesar disso, Spiess acredita que o Banco Central brasileiro ainda deverá reduzir a Selic, embora em um ritmo menor do que o esperado no início do ano.