A Rise quer usar blockchain para resolver um problema menos visível, mas central no mercado financeiro: a infraestrutura por trás das operações de crédito privado. Segundo Conrado Grandino, fundador e CMO da empresa, a proposta não é “colocar cripto em cima de ativo tradicional”, mas reduzir processos manuais, fragmentação operacional e falta de transparência em operações como recebíveis, notas comerciais e debêntures.“A gente não veio para o mercado para tentar colocar cripto em cima de ativo tradicional ou ser uma corretora”, afirmou Grandino, em entrevista ao Portal do Bitcoin. “A gente veio porque entende que parte do crédito real no Brasil, como operações estruturadas, recebíveis, notas comerciais e debêntures, acaba ficando muito engessada, travada, em vários processos manuais.”A empresa se apresenta como uma infraestrutura blockchain para o mercado financeiro institucional. Na prática, a Rise desenvolve sistemas para emissão, escrituração, custódia, conciliação, auditoria e liquidação de ativos digitais. A tese é que processos hoje dependentes de planilhas, relatórios periódicos e intermediários possam ser acompanhados de forma mais automatizada e rastreável.Segundo Grandino, a Rise trabalha com duas frentes principais de tecnologia: a Rise Network, uma blockchain institucional, e a Rise Engine, voltada à gestão do ciclo de vida das ofertas. O objetivo é permitir que uma emissão nasça, seja acompanhada e se encerre em ambiente on-chain, com registro das movimentações, titularidade e liquidação.“Quando a galera fala muito desse hype de tokenizar para parecer que você está inovando, a gente tokeniza porque isso resolve um problema real de back office desses grandes bancos e gestoras ou de empresas que querem emitir ofertas e que acaba, de fato, travando o crédito no Brasil”, disse.A Rise ganhou mais visibilidade neste ano após captar R$ 3 milhões em uma rodada pré-seed com participação da Moroni Capital, ligada a Katia Moroni, cofundadora do Banco Original, e do escritório Carvalho Borges Araujo Advogados (CBA), especializado em ativos digitais. A empresa também estreou no mercado de RWA com o BATS001, token lastreado em instrumentos musicais, em parceria com a BATS, empresa de aluguel de instrumentos por assinatura.Blockchain não elimina risco de créditoPara Grandino, a principal diferença entre um ativo tokenizado e uma operação tradicional de crédito não está necessariamente na natureza jurídica do produto, mas na camada operacional. O ativo continua tendo prazo, fluxo de pagamento, garantias e risco de crédito, como ocorre em uma nota comercial ou em outras estruturas de dívida.A mudança, segundo ele, está na possibilidade de registrar em blockchain etapas como titularidade, custódia e conciliação. Isso permite acompanhar a operação com mais transparência, em vez de depender apenas de documentos e relatórios enviados periodicamente.“Ele é muito parecido, porque não deixa de ser uma operação de crédito, que você tem ali um prazo definido, fluxo de pagamento, garantias. Só que você tem uma diferença na camada operacional”, afirmou. “O registro de titularidade, a custódia, a conciliação, acontece tudo on-chain, em tempo real.”Leia também: Tokenização salta 40% e supera US$ 51 bilhões com disputa por ações onchain, diz BernsteinO executivo reconhece, porém, que a tecnologia não resolve sozinha o risco do tomador. Em outras palavras, uma empresa pode continuar tendo problemas de caixa, liquidez ou capacidade de pagamento mesmo que a dívida esteja registrada em blockchain. O ganho, na visão dele, é reduzir a opacidade da operação.“A blockchain não vai eliminar o risco de crédito. Mas ela tira essa opacidade em cima dele”, disse Grandino. “Você consegue fazer toda essa parte que seriam vários sistemas, várias instrumentações, tudo on-chain e com auditabilidade.”Essa visão também serve como resposta a uma crítica recorrente ao avanço da tokenização: a de que o acesso facilitado ao mercado poderia abrir espaço para crédito de baixa qualidade ou empresas mal-intencionadas. Grandino afirma que a Rise faz análise jurídica, de compliance e de risco antes de colocar uma oferta no ar, em parceria com o CBA, que atua como sócio jurídico e de compliance da empresa.“Tudo isso, antes da gente colocar no ar, passa por validação dentro da documentação pedida e aprovação de compliance e riscos”, afirmou. “A gente faz um trabalho institucional para qualquer tipo de emissão, extremamente criterioso e feito com análise jurídica profunda.”Distribuição ainda é gargaloApesar do avanço regulatório no Brasil, Grandino avalia que a tokenização ainda precisa superar dois desafios para ganhar escala: produto institucional de verdade e distribuição.Na avaliação dele, o principal problema não é mais a ausência completa de regulação. O executivo cita normas como a Resolução CVM 88, a Resolução CVM 160, a Lei 14.430 e a Resolução CVM 21 como parte de um arcabouço que já permite estruturar operações com ativos digitais e ofertas reguladas no país.“Do ponto de vista de regulação, isso já não é o principal gargalo”, disse. “Tem muita coisa que a galera chama de tokenização que é basicamente hoje uma camada visual só sobre o ativo. Você não tem custódia com prova, não tem escrituração real on-chain, não tem possibilidade de fazer auditoria contínua.”O segundo ponto é a distribuição. A Rise tem conversado com escritórios de investimento, assessores, agentes autônomos e plataformas para ampliar o acesso aos seus produtos. Também está em desenvolvimento a Rise Academy, frente educacional voltada a parceiros e distribuidores. A ideia é treinar o mercado para explicar os produtos sem exigir que o investidor final entenda toda a parte técnica da blockchain.“A tecnologia está embaixo do capô. Quando você mexe em uma conta do seu banco, você não precisa saber como funciona a tecnologia por trás de uma fintech. Mas você precisa que essa tecnologia funcione”, afirmou. “A blockchain é a tecnologia que está embaixo do capô da Rise.”Crédito estruturado, agro e commodities no radarPara os próximos passos, a Rise pretende focar em setores nos quais o mercado financeiro tradicional já opera, mas onde a infraestrutura blockchain pode trazer ganhos de eficiência. Grandino cita crédito estruturado, recebíveis, agro e commodities como áreas prioritárias.“A gente tem que atacar onde o mercado institucional já está e que já é validado por décadas de operação”, afirmou. “A gente olha muito para crédito estruturado, para recebíveis no geral, porque eles têm mais volume e um arcabouço jurídico muito mais maduro.”No caso do agro e das commodities, a tese passa pelo tamanho do mercado brasileiro e pela possibilidade de estruturar ativos com lastro em cadeias produtivas já conhecidas. Segundo Grandino, o Brasil tem potencial para se beneficiar da combinação entre um mercado relevante de ativos reais e um ambiente regulatório que, apesar dos desafios, avançou em relação a outros países.A empresa também vê espaço para pequenas e médias empresas acessarem crédito de forma mais direta. O caso da BATS, citado pelo executivo, é usado como exemplo de uma startup que conseguiu emitir uma oferta com custos menores, mais agilidade e maior transparência do que encontraria em estruturas tradicionais.“Ela prova a tese de que é possível uma startup, uma empresa pequena, com poucos funcionários e pouco acesso ao crédito de qualidade, conseguir emitir uma oferta com mais agilidade, mais transparência e menos custos”, disse.Para Grandino, a tokenização tende a ganhar força quando deixar de ser vendida como uma inovação em si mesma e passar a ser percebida pelo que entrega: redução de fricção, rastreabilidade, auditabilidade e acesso a estruturas de crédito antes concentradas em grandes instituições.Do NX Zero à tokenizaçãoA trajetória de Grandino também ajuda a explicar a forma como a Rise tenta se posicionar no mercado. Antes de atuar com blockchain, ele é o baixista do NX Zero, banda que marcou uma geração nos anos 2000. Depois, também atuou como empresário de artistas, abriu uma agência de marketing voltada a música e entretenimento e hoje apresenta um programa diário na Rádio Mix.Segundo ele, essa experiência fora do mercado financeiro ajudou a moldar sua atuação na Rise. Grandino afirma que aprendeu a tratar o investidor como audiência: se a mensagem não foi compreendida, o problema não está em quem escuta, mas em quem comunica.“O mercado da música, de comunicação e de startup me trouxe que eu tenho que tratar o investidor como se ele fosse a minha audiência”, disse. “Se ele não entendeu aquilo que eu estou querendo explicar, o erro não é dele, o erro sou eu.”Para ele, o desafio da tokenização também passa por simplificar a linguagem. A tecnologia pode estar “embaixo do capô”, mas o investidor precisa entender o que o produto entrega, quais são os riscos e por que ele faz sentido dentro de uma carteira.“Eu tenho que conseguir maneiras, assim como eu estou falando na rádio, de falar com o meu ouvinte e ele entender a mensagem de maneira simples”, afirmou. “Essa experiência na comunicação, na música e também em startups me traz aqui a possibilidade de simplificar a linguagem e fazer as pessoas se sentirem incluídas, e não excluídas, de uma nova tecnologia e de uma nova economia.”Procurando uma alternativa para aumentar seus ganhos? A Renda Fixa Digital do MB é a solução: até 18% de ganho ao ano, risco controlado e a segurança que seu dinheiro merece. Conheça agora!O post Crédito privado tokenizado: Rise aposta em blockchain para reduzir custos e dar transparência apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.