Quando Portugal inteiro ouvia a mesma música: antes das playlists, havia a rádio

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Nos anos 90, ouvir rádio era um ritual coletivo. Milhares de portugueses ouviam as mesmas músicas à mesma hora. As canções transformavam-se em banda sonora das férias grandes, das viagens até ao Algarve, dos dias passados no parque de campismo ou das tardes intermináveis passadas na rua. Quando Portugal inteiro ouvia a mesma música.A rádio mandava mais do que a televisãoHoje é difícil imaginar, mas houve uma altura em que uma música só se tornava verdadeiramente popular depois de conquistar as rádios. As editoras disputavam espaço nas emissoras nacionais, enquanto programas especializados revelavam novos artistas quase todas as semanas. Quem queria descobrir música ligava a rádio. Quem queria gravar uma canção esperava pacientemente, cassete pronta, na esperança de que o locutor não falasse por cima da introdução. Era uma relação quase romântica com a música. As canções não estavam sempre disponíveis. Era preciso esperá-las.Os anos 90 estavam longe de caber num único género musical. A pop dançável dividia espaço com o rock alternativo, o grunge, a música eletrónica, o hip hop e o pop-rock que começava a dominar as tabelas.Num momento tocava Snap!, no seguinte surgiam U2, Madonna, Michael Jackson, Bryan Adams ou R.E.M.. Logo depois apareciam uma novidade britânica, um clássico do rock ou uma música portuguesa. Bowie ou Prince ressuscitavam os 80. Os Red Hot Chilli Peppers explodiam.  Essa diversidade fazia parte do encanto. O verão dos anos 90 era simultaneamente colorido, melancólico, romântico e irreverente.Os sons de Seattle e os êxitos que ninguém conseguia evitarPoucos movimentos marcaram tanto a década como o grunge. Depois da explosão de ‘Smells Like Teen Spirit’, em 1991, o som vindo de Seattle atravessou o Atlântico e entrou também nas rádios portuguesas no final do verão de 1991. Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains passaram a fazer parte da programação, sobretudo nas estações mais viradas para um público jovem.Mas a década também pertenceu ao britpop. Oasis, Blur, Pulp ou Radiohead mostraram que as guitarras continuavam vivas do outro lado do Atlântico. Canções como ‘Wonderwall’, ‘Don’t Look Back in Anger’ ou ‘Common People’ passaram igualmente pelas rádios portuguesas e marcaram a segunda metade da década.Enquanto muitos dançavam ‘Rhythm Is a Dancer’, outros encontravam em ‘Black’, dos Pearl Jam, ou em ‘Come As You Are’, dos Nirvana, a banda sonora perfeita para uma adolescência feita de descobertas, dúvidas e primeiras desilusões. O verão dos anos 90 tinha espaço para todos.Havia, no entanto, músicas que escapavam a qualquer divisão de gostos. Em 1990, ‘Nothing Compares 2 U’, de Sinéad O’Connor, emocionava milhões de ouvintes, enquanto MC Hammer colocava toda a gente a tentar reproduzir os passos de ‘U Can’t Touch This’.Dois anos depois, ‘Rhythm Is a Dancer’, dos Snap!, transformava qualquer festa numa pista de dança improvisada. Em Portugal, era impossível entrar num bar de praia ou numa festa popular sem ouvir aqueles primeiros acordes. Em 1994, os Ace of Base conquistavam as rádios com ‘The Sign’ ou ‘Happy Nation’,duas das músicas mais tocadas da década.Logo a seguir chegava um dos fenómenos mais improváveis dos anos 90. ‘Scatman (Ski-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop)’, de Scatman John, provava que nem era preciso compreender a letra para cantar o refrão.Em 1995 aconteceu um fenómeno raro. ‘Macarena’, dos espanhóis Los del Río, ultrapassou a condição de simples sucesso radiofónico e tornou-se um acontecimento social. A coreografia era ensinada nas escolas, repetida nos casamentos, nas festas populares, nos hotéis e nas colónias de férias. Poucas músicas conseguiram unir tantas gerações ao mesmo tempo.Ainda hoje, bastam os primeiros compassos para que muita gente continue a levantar automaticamente os braços.A explosão da pop e pop-rockÀ medida que a década caminhava para o fim, a pop ganhou um novo protagonismo. As Spice Girls levaram o ‘girl power’ para as rádios de todo o mundo. Os Backstreet Boys tornaram-se ídolos adolescentes. Britney Spears apareceu quase sem aviso com ‘…Baby One More Time’, enquanto Ricky Martin fez explodir a pop latina através de ‘Livin’ la Vida Loca’.Pouco depois surgiam Aqua com ‘Barbie Girl’, Eiffel 65 com ‘Blue (Da Ba Dee)’ e os Vengaboys, que pareciam ter sido criados especificamente para o verão. Foram músicas leves, coloridas e irresistíveis, feitas para durar muito para lá das férias.Ao mesmo tempo, a eurodance vivia os seus anos dourados. Culture Beat, 2 Unlimited, Corona, La Bouche, Haddaway ou Whigfield eram presença constante nas rádios e nas discotecas de verão. Bastavam poucos segundos para reconhecer os sintetizadores e os refrões que pareciam feitos para tocar em praias, festas populares ou pistas de dança improvisadas.As rádios portuguesas não viviam apenas dos sucessos internacionais. Xutos & Pontapés, GNR, Rui Veloso, Delfins, Santos & Pecadores, Clã ou Silence 4 ocupavam frequentemente espaço na programação, mostrando que a música portuguesa atravessava também um dos seus períodos mais criativos.Era comum ouvir uma canção internacional seguida de um clássico nacional sem que isso causasse estranheza.Muito antes do SpotifyQuem nasceu depois dos anos 90 dificilmente imagina a paciência que era necessária para ouvir uma música favorita. Não existia pesquisa instantânea. Não havia listas infinitas. A rádio decidia o momento. Muitos jovens passavam horas à espera de gravar uma canção numa cassete. Outros decoravam os horários dos programas musicais ou telefonavam para pedir um tema específico. Essa espera acabava por criar uma ligação emocional muito diferente da que existe atualmente.Três décadas passaram. Mudaram os formatos, desapareceram as cassetes, chegaram o streaming e os algoritmos. A rádio perdeu parte da influência que teve durante décadas.O cheiro do protetor solar, as janelas abertas do carro, as férias grandes, os primeiros amores, os amigos da rua ou da praia regressam quase instantaneamente. Aí reside o verdadeiro poder da rádio dos anos 90. Mais do que passar músicas, soube construir memórias coletivas. E poucas estações do tempo ficaram tão bem gravadas na memória dos portugueses como os verões que chegavam… antes de tudo, através de uma canção.O conteúdo Quando Portugal inteiro ouvia a mesma música: antes das playlists, havia a rádio aparece primeiro em Revista Líder.