E foi precisamente entre ventoinhas, garrafas de água e corridas para a sombra que me ocorreu uma ideia. Talvez a Inteligência Artificial venha a tornar-se tão invisível — e tão indispensável — como o ar condicionado.Hoje falamos dela todos os dias. Há conferências, podcasts, newsletters, cursos, especialistas, novas versões e uma sucessão interminável de ferramentas que prometem revolucionar a forma como trabalhamos. Perguntamos qual é o melhor modelo, qual a plataforma mais inteligente ou qual o prompt perfeito.Mas arrisco um exercício de futurologia: daqui a poucos anos deixaremos de falar de Inteligência Artificial da mesma forma que deixámos de falar da eletricidade, do Wi-Fi ou do próprio ar condicionado. É esse o destino de todas as grandes tecnologias: deixam de ser extraordinárias no dia em que passam a ser banais.Esta reflexão surgiu-me poucos dias depois de participar num encontro da comunidade Women on Boards, iniciativa promovida pela VdA Academia (que prepara, desenvolve e promove mulheres para cargos de liderança e administração) onde Inês Drummond Borges, Chief Transformation Officer da Sonae Sierra, lançou um desafio tão simples quanto provocador: Fall in Love with Problems, Not Solutions.Ao longo da sessão foram apresentados exemplos muito concretos da utilização da Inteligência Artificial nas empresas. Ferramentas que aceleram processos, libertam equipas de tarefas repetitivas, apoiam decisões mais informadas, melhoram a experiência do cliente e permitem fazer, em minutos, aquilo que antes demorava horas. Tudo impressionante.Mas, quanto mais exemplos surgiam, mais me ocorria uma ideia quase desconfortável. Estamos tão fascinados com as soluções que talvez estejamos a dedicar pouco tempo aos problemas.Nos últimos meses tenho ouvido conversas intermináveis sobre Inteligência Artificial. «Qual é o melhor modelo?» «Que plataforma utilizas?» «Vale a pena pagar a versão premium?» São perguntas perfeitamente legítimas. Mas nenhuma delas é verdadeiramente estratégica. A pergunta estratégica continua a ser outra: que problema estamos realmente a tentar resolver?Comprar tecnologia nunca foi difícil, o desafio é perceber onde é que ela cria verdadeiro valor. Ter acesso ao ChatGPT, ao Copilot, ao Gemini ou à próxima ferramenta que será lançada na semana seguinte não torna, por si só, uma empresa mais competitiva. Da mesma forma que comprar uma bicicleta não transforma ninguém num ciclista do Tour de France.Durante décadas acreditámos que a vantagem competitiva estava no conhecimento. Hoje, o conhecimento está à distância de um clique. O recurso verdadeiramente escasso passou a ser outro: discernimento, pensamento crítico, criatividade, capacidade de decisão e leitura de contexto. Em suma, inteligência… Da outra.Curiosamente, poucos dias depois desta sessão deparei-me com um relatório das Nações Unidas que parecia prolongar exatamente esta conversa. O documento alerta para um paradoxo inquietante: a corrida à Inteligência Artificial está a acontecer muito mais depressa do que a capacidade de adaptação dos países, das empresas e das pessoas. A tecnologia acelera; os sistemas educativos, a legislação, os mercados de trabalho e até os governos tentam acompanhá-la quase sem fôlego.Os números ajudam a perceber a dimensão do desafio. 3,7 mil milhões de pessoas continuam excluídas desta revolução digital e cerca de um quarto da população mundial ainda não tem acesso à Internet. Enquanto discutimos as potencialidades da IA generativa, uma parte significativa do planeta continua sem acesso às condições básicas para participar nesta transformação.O relatório revela ainda que, embora a região Ásia-Pacífico concentre mais de metade dos utilizadores mundiais de Inteligência Artificial, apenas cerca de 14% da população utiliza efetivamente estas ferramentas. No Sul da Ásia, as mulheres têm 40% menos probabilidade de possuir um smartphone do que os homens. Um dado aparentemente simples, mas que mostra como uma revolução tecnológica pode facilmente transformar-se numa revolução da desigualdade.Ao mesmo tempo, a oportunidade é enorme. As Nações Unidas estimam que a Inteligência Artificial possa acrescentar cerca de dois pontos percentuais ao crescimento anual do PIB e aumentar a produtividade em até 5% em setores como a saúde e os serviços financeiros.As organizações que vão liderar esta transformação não serão necessariamente as que comprarem mais tecnologia ou que tiverem acesso às ferramentas mais sofisticadas. Serão aquelas que desenvolverem culturas de aprendizagem contínua, equipas curiosas, líderes capazes de fazer melhores perguntas e organizações suficientemente ágeis para experimentar, adaptar e evoluir.Tal como hoje dificilmente imaginamos um escritório sem ar condicionado, daqui a poucos anos será estranho imaginar uma empresa que não utiliza Inteligência Artificial.Mas o ar condicionado nunca substituiu a ventoinha – apenas tornou o ambiente muito mais confortável. A Inteligência Artificial fará exatamente o mesmo. Se houver uma boa estratégia, torná-la-á mais eficaz. Se houver talento, ampliará o seu impacto. Se houver equipas curiosas, ajudá-las-á a aprender mais depressa.Mas, se houver maus processos, decisões pouco claras ou falta de liderança, apenas permitirá fazer tudo isso… mais depressa.Daqui a uns anos, talvez já ninguém fale de Inteligência Artificial, tal como hoje quase ninguém fala do ar condicionado. Só damos por ele quando deixa de funcionar. Espero apenas que, ao contrário do ar condicionado, a nossa capacidade de pensar nunca fique dependente do botão ‘On’.O conteúdo Primeiro estranha-se. Depois entranha-se aparece primeiro em Revista Líder.