«As pessoas veem os artistas e o palco, mas não imaginam o risco financeiro que existe por trás», diz Tiago Cruz (Nómadas Festival)

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O Nómadas Festival regressou nos dias 3, 4 e 5 de julho, em Braga, num projeto que tem vindo a cruzar música eletrónica, natureza, cultura e comunidade. A 5ª edição reuniu alguns dos nomes mais relevantes da cena eletrónica internacional num ambiente pensado para proporcionar uma experiência diferenciadora ao público.Ao longo das últimas edições, o festival recebeu artistas como Black Coffee, RÜFÜS DU SOL, Peggy Gou, Francis Mercier, Mochakk, Maz e Antdot. Em entrevista à Líder, Tiago Cruz, também DJ, produtor e promotor, reflete sobre a evolução do Nómadas, os desafios de fazer crescer um festival em Portugal e a transformação da cultura eletrónica. Como define a identidade do Nómadas Festival e o que o distingue no panorama nacional?O Nómadas nasceu da vontade de criar algo diferente. Não queríamos ser apenas mais um festival de música eletrónica. Queríamos criar uma experiência onde a música, a natureza, a estética e as pessoas se cruzassem de uma forma especial e o cenário da Pedreira tornou isso possível. O que nos distingue é a identidade. Fazemos escolhas a pensar na experiência completa e não apenas nos nomes do cartaz. O Nómadas tem uma personalidade própria e quem já esteve no festival percebe isso assim que entra no recinto. Que evolução tem sentido desde as primeiras edições? Como se preserva a autenticidade de um evento como este?A evolução tem sido enorme. Crescemos em público, em dimensão, em produção e na capacidade de atrair artistas internacionais de topo. Mas, ao mesmo tempo, tentamos proteger aquilo que nos trouxe até aqui. A autenticidade preserva-se quando se tomam decisões com base na visão do projeto e não apenas nos números. Nem sempre é a decisão mais fácil ou mais rentável, mas é a que garante que o festival continua a ser reconhecido pela sua identidade. A Pedreira continuará a ser a nossa imagem de marca e aquilo que nos destaca. O que entusiasma mais ao organizar um festival?Ver uma ideia ganhar vida. Durante meses estamos a trabalhar em planeamento, reuniões, contratos e problemas. Depois chega o dia e vemos milhares de pessoas felizes num espaço que meses antes era apenas uma ideia na nossa cabeça. Esse momento continua a ser o mais especial.Como se lida com a pressão de fazer um bom festival que também seja lucrativo?Com muito realismo. As pessoas veem os artistas e o palco, mas não imaginam o risco financeiro que existe por trás de um festival. Há uma pressão constante para criar algo memorável sem comprometer a sustentabilidade do projeto. Já passamos por imensas dificuldades no passado, em que, dando um passo em falso, podíamos sair bem prejudicados.Tentamos encontrar equilíbrio. Se um festival não for bom, as pessoas não voltam. Se não for sustentável financeiramente, deixa de existir. É preciso pensar nas duas coisas ao mesmo tempo. Como se gere uma enorme equipa, presença de marcas e egos de artistas?A comunicação é tudo. Quando toda a gente percebe qual é o objetivo comum, as coisas tornam-se mais simples. Há sempre opiniões diferentes, interesses diferentes e momentos de tensão, mas o importante é manter o foco na experiência final do público. No fim do dia, estamos todos a trabalhar para o mesmo resultado. Há algum pedido inesperado ou momento insólito com artistas que se destaque na sua memória? E um concerto?Pedidos inesperados existem praticamente em todos os eventos. Faz parte desta indústria. Mas o que mais me marca não são os pedidos dos artistas mas sim os momentos em palco. Ver milhares de pessoas a cantar a mesma música ou sentir uma energia coletiva difícil de explicar acaba por ser aquilo que fica na memória muitos anos depois. Os pedidos inesperados acabam por ser secundários quando o foco é a experiência do público. O que é que o público nunca vê, mas faz realmente um festival acontecer?As centenas de pessoas que trabalham no planeamento. Montagens que começam semanas antes, equipas técnicas, produção, segurança, limpeza, comunicação, fornecedores. O público vê algumas horas de espetáculo, mas existe um trabalho gigantesco que começa muito antes da abertura de portas. Sente que o público mudou nos últimos anos? O que se procura hoje numa experiência de festival?Sem dúvida. Hoje as pessoas procuram mais do que música. Procuram experiências, conforto, estética, boa comida, conteúdos para partilhar nas redes sociais e momentos que lhes fiquem na memória. O cartaz continua a ser importante, mas já não é o único fator de decisão. Como caracteriza a audiência do Nómadas Festival?São pessoas que escolhem os eventos onde vão estar e que valorizam identidade e autenticidade. Qual é o segredo para um festival memorável?Não existe uma fórmula. Mas acredito que os melhores festivais são aqueles onde tudo faz sentido. O local, a música, a energia das pessoas, a produção e os pequenos detalhes. Quando as pessoas vão para casa com a sensação de que viveram algo especial e difícil de explicar, então o festival cumpriu a sua missão. Leia todas as entrevistas:«Solomon Burke atuou sentado no seu trono, uma adaptação feita à cadeira de rodas»: Karla Campos recorda momentos marcantes do Ageas Cooljazz«Sines permanece uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada», defende Carlos Seixas, Diretor do FMM«A regra de ouro é nunca defraudar o público», garante Tiago Castelo Branco (Afro Nation Portugal)O conteúdo «As pessoas veem os artistas e o palco, mas não imaginam o risco financeiro que existe por trás», diz Tiago Cruz (Nómadas Festival) aparece primeiro em Revista Líder.