Regulação é o maior entrave para tokenização de ativos reais no Brasil, diz CEO da Tokeniza

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A tokenização de ativos reais no Brasil já avançou o suficiente para virar uma nova forma de financiamento para empresas, mas ainda depende de evolução regulatória para alcançar aplicações mais amplas, como representar diretamente a propriedade de imóveis, precatórios, ativos do agronegócio ou outros bens. A avaliação é de Arthur Coelho, CEO da Tokeniza, plataforma que atua com ativos reais tokenizados.Em entrevista ao Portal do Bitcoin, Coelho afirmou que a tecnologia para ampliar o uso da tokenização já existe, mas que o mercado ainda trabalha dentro de limites jurídicos que empurram boa parte das operações para estruturas de crédito com garantias reais.“Vai chegar um ponto, obviamente, onde eu vou ter um token que representa, de fato, a minha propriedade sobre o imóvel, a minha propriedade sobre o automóvel. Aí sim eu vou falar da tokenização plena. Mas hoje a gente ainda está distante disso”, disse Coelho. “Hoje a gente usa a tokenização muito mais como uma via de financiamento para o empreendedor do que um objetivo em si.”A Tokeniza é a primeira plataforma autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a atuar com tokenização via crowdfunding. Segundo o site da empresa, a proposta é democratizar investimentos em ativos reais por meio da tokenização, tornando esses ativos mais acessíveis, negociáveis e transparentes para investidores.A empresa nasceu com foco em tokenização imobiliária, mas passou a adotar uma tese mais ampla. Segundo Coelho, o objetivo deixou de ser tokenizar necessariamente um imóvel específico e passou a ser estruturar operações com garantias reais, preferencialmente imobiliárias, que deem mais segurança ao investidor e ajudem empresas a captar recursos.Leia também: Crédito privado tokenizado: Rise aposta em blockchain para reduzir custos e dar transparência“A gente nasceu com um foco voltado para a tokenização imobiliária, vimos que na verdade não era bem aquilo”, afirmou. “O legal da blockchain e da tokenização é justamente poder abarcar várias coisas, não ficar preso a um ativo específico.”Tecnologia avançou mais rápido que as regrasPara Coelho, a principal trava do setor hoje não está na tecnologia, mas na regulação. Ele afirma que a educação do investidor melhorou nos últimos anos e que o mercado já entende melhor a diferença entre criptomoedas e tokens de ativos reais. Ainda assim, avalia que normas e interpretações jurídicas precisam evoluir para permitir usos mais sofisticados da blockchain.“Sem dúvida nenhuma, a regulação ainda é o maior problema”, disse. “A coisa acelerou demais tecnologicamente. Hoje, tecnologicamente falando, a gente já pode fazer muita coisa.”O diagnóstico aparece em um momento em que reguladores brasileiros tentam adaptar regras tradicionais a novos modelos de ativos digitais. A Resolução CVM 88, publicada em 2022, disciplina ofertas públicas de valores mobiliários de sociedades empresárias de pequeno porte feitas com dispensa de registro por plataformas eletrônicas de investimento participativo.Em 2025, a CVM abriu uma consulta pública para substituir a Resolução 88, com uma proposta de nova regra para ofertas realizadas por plataformas de crowdfunding de investimento. A discussão é acompanhada de perto pelo mercado de tokenização porque esse arcabouço tem sido usado por plataformas que estruturam emissões tokenizadas de recebíveis, crédito e outros ativos reais.Além da CVM, o Banco Central também passou a detalhar a regulamentação das prestadoras de serviços de ativos virtuais, as PSAVs. A Resolução BCB nº 520 disciplina a constituição e o funcionamento dessas empresas e a prestação de serviços com ativos virtuais.Coelho vê avanços no Brasil, mas afirma que o custo regulatório pode pesar para empresas do setor. Na entrevista, ele citou a exigência de capital para determinadas licenças como um ponto de preocupação.“Com essa regulamentação do PSAV, ficou muito caro”, disse. “Olhando o mundo e comparando com a licença do Brasil, 18 milhões de reais é um absurdo. Então ficou muito caro.”Apesar das críticas, o CEO da Tokeniza afirma que o Brasil não está mal posicionado na comparação internacional. Para ele, a regulação local avança, ainda que com ruídos, e o mercado tem se organizado para dialogar com CVM, Banco Central, Congresso e associações do setor.“Se eu for olhar o mundo, o Brasil está indo bem na regulamentação”, afirmou. “Claro, ainda tem muita coisa para acontecer, é um país muito grande, mas eu acho que a gente está indo bem, apesar de alguns pesares.”Garantias reais e risco para o investidorEnquanto a regulação não permite explorar todo o potencial da tokenização, a Tokeniza tem concentrado sua atuação em operações com garantias reais. Segundo Coelho, a empresa busca atrelar os tokens a ativos ou estruturas que façam sentido para o investidor, como imóveis, recebíveis ou créditos já performados.“Eu preciso levar uma garantia para o investidor e levar dinheiro para o empreendedor”, disse. “Se vai ser com base em um imóvel, em uma fazenda, em uma operação, o importante é que tenha uma garantia interessante para o empreendedor e para o investidor.”Essa abordagem também tenta responder a uma preocupação recorrente no mercado: o risco de que a facilidade de emissão de tokens abra espaço para projetos frágeis, crédito de baixa qualidade ou golpes. Para Coelho, esse risco existe em qualquer mercado financeiro, mas exige transparência das plataformas e cautela dos investidores.“Todo mercado vai ter essa questão dos riscos”, afirmou. “O investidor tem que ter cautela de onde está entrando, da plataforma, qual CVM tem, como é a história, o que é falado sobre ela.”O executivo diz que a Tokeniza busca mitigar riscos com processos internos, auditoria, acompanhamento jurídico e registro das operações em blockchain. Segundo ele, as movimentações dentro do sistema da empresa ficam espelhadas em blockchain, o que cria uma trilha auditável para eventual fiscalização ou revisão interna.Ainda assim, Coelho evita vender a tokenização como produto sem risco. Para ele, promessas de retornos muito elevados e recorrentes devem ser vistas com desconfiança pelo investidor.“Existe investimento que dá 10%? Existe. Mas você ter 10% todo mês, durante meses e meses a fio, isso não existe, ou o risco é muito alto”, disse. “Não acredita em mim. Entra na plataforma, vê o documento, analisa tudo, porque tem que fazer sentido para você.”No caso da Tokeniza, Coelho afirma que dois benefícios já aparecem de forma mais concreta: liquidez e internacionalização. Segundo ele, o mercado secundário da plataforma já movimentou historicamente um volume equivalente a cerca de 80% do mercado primário, o que, na visão do executivo, é incomum para esse tipo de ativo. Também diz que cerca de 7% da base da empresa é formada por pessoas que vivem fora do Brasil, em países como Espanha e Portugal.“Na minha opinião, os dois principais pontos que a gente tem hoje são liquidez e internacionalização, a captação internacional”, afirmou. “Poder vender no mundo inteiro é um negócio muito interessante.”Portugal vira porta de entrada para a EuropaA busca por investidores fora do Brasil também está ligada à expansão internacional da Tokeniza. Segundo Coelho, a empresa está abrindo uma operação em Portugal, país que ele vê como porta de entrada para o mercado europeu.A estratégia passa por permitir que empreendedores façam captações tokenizadas em Portugal, especialmente em ofertas menores. Segundo o executivo, o modelo europeu pode abrir espaço para emissões de até 8 milhões de euros por ano em determinadas estruturas, sem o mesmo peso regulatório de operações maiores.“A gente está trazendo a Tokeniza Portugal para cá”, disse Coelho. “É uma porta de entrada para a Europa. A nossa ideia é vir para cá trazendo esse tipo de ativo.”O movimento conversa com uma ambição maior do setor de ativos reais tokenizados: conectar investidores globais a ativos brasileiros, especialmente em um ambiente de juros elevados no Brasil. Para Coelho, mesmo considerando risco Brasil e variação cambial, retornos de operações locais podem chamar atenção de investidores europeus acostumados a juros menores.A expansão, porém, não elimina os desafios regulatórios. Na visão do CEO da Tokeniza, o mercado só vai conseguir avançar para projetos mais ambiciosos quando houver mais clareza sobre o que pode ser tokenizado, como os direitos serão reconhecidos juridicamente e qual órgão será responsável por cada parte da supervisão.Ele cita, como exemplo, projetos envolvendo precatórios, reservas ambientais e outros ativos que poderiam ser operacionalmente mais eficientes com blockchain, mas ainda esbarram em dúvidas jurídicas e institucionais.“São projetos que não saem por conta da regulação”, afirmou. “Quando a regulação for caminhando, forem evoluindo, são projetos que vão ser muito bons.”Para Coelho, o caminho da tokenização é inevitável, mas dependerá de diálogo entre empresas, reguladores e legisladores. O papel dos empreendedores, diz ele, é testar os limites possíveis, sem abandonar a responsabilidade regulatória.“A necessidade vai empurrar o andamento dessas pautas dentro dos órgãos competentes”, afirmou. “Como empresário, também tem que sair da cadeira, parar de reclamar que a regulamentação manda, e ir atrás dela para conversar.”Buscando uma carteira com alto ganho, mas sem o sobe e desce do mercado? A Renda Fixa Digital do MB oferece ativos com ganhos de até 18% ao ano, risco controlado e total segurança para seus investimentos. Conheça agora!O post Regulação é o maior entrave para tokenização de ativos reais no Brasil, diz CEO da Tokeniza apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.