País mira contratos para abrir novos mercados e ampliar o alcance de suas exportaçõesA derrota para a Noruega no domingo 5, que eliminou a seleção brasileira ainda nas oitavas de final da Copa do Mundo pela primeira vez desde 1990, entrou para a lista dos grandes traumas da história do futebol brasileiro. Fora das quatro linhas, porém, a relação entre os dois países segue rumo oposto. Em meio à escalada das tensões comerciais provocada pelos novos tarifaços propostos pelo presidente americano Donald Trump, o Brasil acelera a abertura de mercados para reduzir sua dependência dos Estados Unidos. A Noruega está entre as 32 nações contempladas pela nova rodada de acordos de livre comércio fechados pelo Mercosul desde o ano passado, encerrando mais de uma década em que as negociações internacionais do bloco andaram de lado. Com Suíça, Islândia e Liechtenstein, o país de Erling Haaland integra a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta, na sigla em inglês), grupo que reúne algumas das nações mais prósperas da Europa. Ao estreitar laços com mercados de alto poder aquisitivo, o Brasil finalmente avança em uma acertada estratégia de diversificar parceiros comerciais e ampliar o alcance de suas exportações.MERCADO GIGANTE - Shopping na Índia: negócios com o país dispararam 88% (Anindito Mukherjee/Bloomberg/Getty Images)O decreto que promulga o acordo entre Mercosul e Efta foi publicado pelo governo brasileiro em 30 de junho, abrindo caminho para sua entrada em vigor. Na mesma data, o Brasil ratificou outra parceria importante, dessa vez com Singapura, primeiro país asiático a firmar um tratado de livre comércio com o Mercosul. O mais ambicioso desses entendimentos, porém, é o acordo entre Mercosul e União Europeia, concluído após mais de duas décadas de negociações e em vigor desde 1º de maio. Formado por 27 países e responsável por cerca de 15% do PIB mundial, o bloco europeu representa a principal aposta do Mercosul para ampliar a participação no comércio internacional.Os três tratados têm dois objetivos em comum: reduzir ou eliminar tarifas sobre a maior parte do comércio entre os países envolvidos e ampliar o acesso a novos mercados. Quase todos foram negociados antes de 2019 e ficaram anos parados até serem destravados recentemente. Antes dessa retomada, o último acordo de livre comércio concluído pelo bloco havia sido firmado em 2011. Canadá e Japão também estão na fila dos próximos acordos, com negociações reengatadas ou iniciadas apenas recentemente. Outras frentes, porém, seguem emperradas, como a da Coreia do Sul, cujos termos ainda enfrentam resistência entre os países envolvidos.SigaSeguir no LinkedinSeguir no TelegramNão é por acaso que todas essas alianças comerciais estejam sendo ressuscitadas ao mesmo tempo. Elas fazem parte de uma profunda reconfiguração do tabuleiro geopolítico, iniciada no ano passado pela volta de Donald Trump à Casa Branca e por sua ofensiva tarifária sobre praticamente tudo o que os Estados Unidos importam. A isso se somam os traumas recentes provocados pelas rupturas nas cadeias globais de suprimentos durante a pandemia, em 2020, pela guerra na Ucrânia, em 2022, e pelo conflito entre Irã, EUA e Israel, deflagrado neste ano. “Há uma nova janela de acordos comerciais se abrindo”, diz Lucas Ferraz, que participou das negociações do Mercosul como secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia de 2019 a 2022 e hoje é coordenador do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas. “Até pouco tempo atrás, falava-se apenas de eficiência, mas a geopolítica entrou no jogo. Os países querem segurança e alternativas, especialmente aqueles mais expostos à China e aos Estados Unidos.”O movimento não se restringe à América do Sul. Desde o ano passado, a União Europeia fechou parcerias comerciais com Austrália, Indonésia, Índia e Mercosul. O Reino Unido se tornou, no fim de 2024, o primeiro país de fora da região a ingressar no Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP, na sigla em inglês), o maior bloco de livre comércio da Ásia-Pacífico. Na fila de adesão estão países como Uruguai, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. “Com o enfraquecimento das organizações multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio, os tratados entre países e blocos passaram a ganhar uma importância muito maior”, diz Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes.SEM AVANÇO - Fábrica de semicondutores na Coreia do Sul: negociações emperradas (./Divulgação)No caso brasileiro, buscar novos destinos para as exportações passou a ser uma questão de sobrevivência. No ano passado, os produtos nacionais chegaram a ser fulminados por tarifas extras de até 50%, impostas por Donald Trump, uma das mais elevadas entre todas as anunciadas por seu governo. A maioria dessas medidas foi derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro, mas a ameaça continua. Washington prepara uma nova tarifa de 25%, desta vez como sanção por supostas práticas comerciais irregulares atribuídas ao Brasil. A decisão sobre a aplicação da medida será anunciada na próxima quarta-feira, 15 de julho.Ao longo desse mais de um ano de guerra comercial, ficou claro que o Brasil tinha margem para compensar parte das perdas no mercado americano com a expansão das vendas para outros destinos. As remessas para os Estados Unidos diminuíram 13% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Como consequência, a participação americana nas exportações brasileiras caiu para apenas 9% do total, ante 12% em 2025 e 25% no início dos anos 2000. O recuo, porém, foi compensado pelo avanço em outros mercados. As exportações totais cresceram 11% e alcançaram 180 bilhões de dólares até junho. As vendas para a China avançaram 21%. Para a União Europeia, 12%. E, para a Índia, que ainda responde por apenas 2% das exportações brasileiras, o salto foi de expressivos 88%. “As empresas não querem abandonar o mercado americano, que continua essencial”, diz Laudemir Müller, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). “Mas todas estão em busca de novos mercados.”A reação das empresas brasileiras à guerra comercial foi eficaz. Um levantamento da ApexBrasil revela que, das 2 400 companhias apoiadas pela agência e com negócios nos Estados Unidos, 72% chegaram a junho deste ano vendendo para pelo menos um novo país. No agronegócio, a diversificação também ganhou velocidade. Desde 2023, o Brasil conquistou acesso a 600 novos mercados externos — cada um deles correspondente à autorização para exportar um determinado produto a um determinado país. Foi o caso, por exemplo, da carne bovina no Vietnã e do gergelim na China. Nos quatro anos anteriores, foram 200 aberturas.Os avanços, porém, não eliminam uma vulnerabilidade histórica das exportações brasileiras. Um levantamento feito para VEJA pela economista Daiane Santos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostra que os dez principais destinos das vendas externas continuaram respondendo, em 2026, por 60% de tudo o que o país exporta — exatamente a mesma participação registrada em 2025, antes do tarifaço de Trump. A diferença é que a concentração ficou ainda maior na China. A fatia do país asiático cresceu de 29% para 32%, o maior peso já alcançado por um único parceiro comercial nas exportações brasileiras. “Se a ideia era ampliar o leque de compradores e reduzir riscos, ainda não foi isso que aconteceu”, diz Daiane. “Na prática, qualquer problema na economia chinesa tem potencial para afetar um terço das nossas exportações.” A pressão de Trump obrigou o Brasil a procurar novas frentes de negócios, mas o desafio agora é fazer da diversificação uma política permanente. Em tempos de tarifas e tensões geopolíticas, ter mais parceiros comerciais é a melhor forma de reduzir riscos.O post Em meio à guerra comercial de Trump, Brasil acelera estratégias para reduzir danos apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.