‘Muito além do esperado’: Inflação surpreende positivamente e aumenta aposta em novo corte da Selic

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Após meses de sentimento pessimista com relação à inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), junho trouxe alívio. O índice revelou uma alta de 0,16% no mês, mostrando uma desaceleração. No acumulado de 12 meses, o número também recuou para 4,64%, ante os 4,72% anteriores.Não só números mais fracos animaram os economistas: a composição da inflação também foi melhor, revelando um recuou da média dos núcleos de 0,45% para 0,21%, com a média móvel de 3 meses recuando para 0,38%, menor valor desde janeiro deste ano.Para André Valério, economista sênior do Inter, a inflação de junho surpreendeu “muito além do esperado” e reforçou a visão positiva vista no IPCA-15. Para ele, a leitura mostrou que o processo inflacionário da economia brasileira não aparenta estar reacelerando e que as recentes altas foram realmente causadas pelas condições adversas vindas da alta do preço do petróleo. “A pressão altista recente foi amplamente influenciada pelas condições adversas de oferta em combustíveis e em alimentos. Com a normalização do preço do petróleo e o período sazonal de baixa de alimentos, devemos ter leituras mais amenas nos próximos meses”, avalia. Leonardo Costa, economista do ASA, também reforça a análise indicando que esse resultado mais positivo para a inflação era esperado apenas em julho. Na sua avaliação, a inflação subjacente também mostrou sinais de melhora, com a média dos núcleos registrando a menor variação mensal desde setembro de 2025.“O destaque maior ficou por conta do núcleo de serviços, em particular para os serviços de alimentação, que perderam força na margem”, indicou. Pontos de atençãoApesar do bom número, os economistas chamam atenção para o El Niño, efeito climático que pode causar condições severas, que pode vir mais forte do que o esperado. Com isso, será possível ver uma pressão exacerbada sobre os preços de alimentos no quarto trimestre desse ano e no primeiro trimestre do ano que vem. Outro ponto de atenção levantado por Costa, do ASA, é o núcleo de bens, que segue operando em patamar relativamente elevado, com pressão ainda disseminada e possíveis efeitos de segunda ordem associados ao choque anterior de petróleo.E os juros? Para Valério, o processo inflacionário dá sinais de que o aperto monetário realizado nos últimos anos tem surtido efeito, o que, em sua visão, permitiria ao Comitê de Política Monetária (Copom) continuar o atual ciclo de calibração, mesmo com a possível reaceleração da inflação devido ao choque do El Niño.“Esse choque deverá ter seu impacto desfeito até o horizonte relevante da política monetária, que agora é o 1º trimestre de 2028”, explica. O Inter segue com a sua projeção de cortes de 0,25 ponto percentual até o fim do ano, finalizando o ano em 13,25%. Costa já é um pouco mais moderado e avalia que, para o Banco Central, o resultado da inflação de junho é insuficiente para alterar de forma relevante o diagnóstico de política monetária, já que a inflação segue acima da meta e as expectativas permanecem desancoradas. O economista destaca que a chance de o BC voltar a cortar 0,25 p.p na reunião do Copom de agosto cresceu, mas a casa ainda mantém sua projeção de 14,25% ao final de 2026.