Arma em casa amplia risco de feminicídio, apontam registros em MG

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Belo Horizonte – Os números de feminicídios têm crescido em Minas e um dos motivos é a maior circulação de armas de fogo e a presença delas em casa, mostram registros policiais analisados em uma pesquisa.De acordo com Ludmila Ribeiro, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das coordenadoras da Rede Feminina de Estudos sobre Violência, Justiça e Prisões, dados mostram que mulheres vítimas de violência doméstica que convivem em residências com armas de fogo têm um risco muito maior de serem assassinadas.“Ter uma arma em casa faz com que uma mulher que já registrou violência doméstica tenha 27 vezes mais chances de morrer em comparação com outra vítima que não convive com uma arma dentro de casa”, afirma Ludmila.A conclusão faz parte da pesquisa “Violência Doméstica e Respostas Institucionais: Evidências Geradas a partir da Análise dos Dados da Polícia Civil de Minas Gerais (2010–2023)”, que está sendo realizada pelas pesquisadoras Ludmila Ribeiro e Maria Elisa Gomes.É um trabalho que tem o objetivo de analisar a violência doméstica contra mulheres e na qual foi utilizado um banco de dados inéditos da Polícia Civil de Minas Gerais, que reúne registros entre 2010 e 2023, classificados no âmbito da Lei Maria da Penha, cedidos À equipe do projeto Vida, em 2024.Ludmila explica que conflitos que antes terminavam em agressões físicas passaram a ter desfechos fatais devido à facilidade de acesso às armas.Feminicídios em Minas Gerais (2019–2026)2019Total de vítimas: 375Distribuição: 149 feminicídios consumados e 226 tentativasO mês de dezembro foi o mais crítico, com 51 vítimas totais (36 tentativas e 15 consumados)2020Total de vítimas: 341Distribuição: 151 feminicídios consumados e 190 tentativasFevereiro registrou o maior volume (38 vítimas), seguido por setembro (34)2021Total de vítimas: 336Distribuição: 155 feminicídios consumados e 181 tentativasDezembro voltou a ser o mês com mais ocorrências (37 vítimas)2022Total de vítimas: 370Distribuição: 176 feminicídios consumados e 194 tentativasO mês de maio apresentou o maior pico, com 40 vítimas registradas2023Total de vítimas: 354Distribuição: 186 feminicídios consumados e 168 tentativasFoi o único ano da série em que os feminicídios consumados superaram as tentativasAgosto foi o mais violento, com 39 vítimas totais2024Total de vítimas: 417Distribuição: 169 feminicídios consumados e 248 tentativas2024 é o ano com o maior número total de vítimas de toda a série históricaOs meses de março (41) e abril (43) concentraram os maiores índices de violência no ano2025Total de vítimas: 384Distribuição: 177 feminicídios consumados e 207 tentativasO mês de dezembro registrou 56 vítimas, o maior volume mensal já registrado em todo o relatório2026 (Janeiro a Maio)Total parcial de vítimas: 148Distribuição: 63 feminicídios consumados e 85 tentativasO mês de fevereiro iniciou o ano com um número elevado, registrando 42 vítimas Números registrados nos primeiros meses de 2026Nos primeiros cinco meses de 2026, Minas Gerais já registrou 148 vítimas e o mês de fevereiro registrou 23 feminicídios consumados, o maior número registrado para este mês específico, desde o início da computação dos dados em 2019.O levantamento, baseado em dados integrados de segurança pública, aponta que a capital mineira concentra o maior volume de registros no estado, com 347 registros totais no período analisado. Na Região Metropolitana (RMBH), a violência é acentuada em cidades como Betim (27 casos consumados) e Contagem (21 casos consumados).Patrulha Maria da Penha é considerada eficaz, mas alcança poucas mulheresEntre as políticas públicas consideradas mais eficientes, a pesquisadora destaca o trabalho realizado pelas Patrulhas de Prevenção à Violência Doméstica. Segundo a pesquisadora, o modelo contribui tanto para proteger as vítimas quanto para conscientizar os agressores.“Vai uma policial conversar com a vítima e um policial conversar com o autor da violência. Muitas vezes é um trabalho de desconstrução de comportamentos que foram naturalizados ao longo da vida”, explica Ludmila.Apesar da eficácia, o programa tem alcance limitado. “A Patrulha consegue visitar, no máximo, cerca de 1% das mulheres que registram violência doméstica e recebem medida protetiva em Belo Horizonte.”Além disso, segundo a pesquisadora, mulheres que vivem em áreas dominadas por organizações criminosas frequentemente evitam solicitar esse acompanhamento por receio de sofrer represálias na própria comunidade.A professora também defende maior utilização do Formulário Nacional de Avaliação de Risco (Fonar), instrumento criado para identificar mulheres com maior probabilidade de sofrer feminicídio. Segundo ela, o formulário ainda é pouco utilizado pelas instituições de segurança pública.“Essa ferramenta deveria orientar quais mulheres precisam ser acompanhadas prioritariamente pelas patrulhas de prevenção, juntamente com outros indicadores, como o histórico de registros anteriores de violência doméstica.”Ação integrada pode reduzir crimesPara Ludmila Ribeiro, reduzir os índices de feminicídio exige atuação integrada entre segurança pública, educação, saúde e assistência social.Ela cita experiências internacionais, como a da Espanha, onde políticas educativas contribuíram para reduzir os casos de violência contra a mulher.“Grande parte dos homens que cometem esse tipo de crime cresceu em ambientes onde a violência contra a mulher era normalizada. É preciso romper esse ciclo desde a escola, discutindo igualdade de direitos e desconstruindo padrões que tratam a mulher como propriedade do homem.”A pesquisadora também ressalta que incentivar apenas a denúncia não é suficiente. “Hoje as mulheres denunciam mais, mas o Estado ainda demonstra dificuldades para fiscalizar efetivamente as medidas protetivas. Precisamos pensar em novas formas de proteção para que essa responsabilidade deixe de recair sobre quem já sofreu a violência.”Para ela, somente uma atuação integrada entre segurança pública, educação, saúde e assistência social poderá reduzir de forma consistente os índices de feminicídio no país.Entre janeiro de 2019 e maio de 2026, o estado de Minas Gerais contabilizou um total de 2.725 vítimas de feminicídio, abrangendo tanto casos consumados quanto tentados. O levantamento, baseado em dados integrados de segurança pública, aponta que a capital mineira concentra o maior volume de registros no estado.Praticamente todos os dias, ou na capital ou em cidades do interior de Minas, há casos de tentativas de feminicídios ou fatos consumados. Os autores quase sempre são homens motivados por ciúmes, ou por sentimentos de rejeição após o término de relacionamento. Leia também Minas GeraisFeminicídios crescem em MG e 2026 pode bater recorde Distrito FederalFamílias detalham as marcas que o feminicídio deixa nos filhos das vítimas Minas GeraisCasal morto em BH: defesa de diarista critica “julgamento antecipado” Minas Gerais“Fico me cobrando”, diz primo que indicou diarista a casal morto em BH  3 imagensFechar modal.1 de 3Matéria sobre mulher desaparecida e jogada em penhascoMetrópoles / Reprodução2 de 3Matéria sobre mulher encontrada decapitadaMetrópoles / Reprodução3 de 3Matéria sobre mulher encontrada decapitadaMetrópoles / Reprodução Ao longo de todos os anos, os dados detalhados indicam que municípios como Belo Horizonte, Contagem, Betim, Uberlândia e Ribeirão das Neves aparecem de forma recorrente em todas as listas anuais de ocorrências, tanto em casos consumados quanto tentados.3 imagensFechar modal.1 de 3Thaís Ramos Gonçalves, de 31 anos, morta pelo companheiro em MGRedes Sociais / Reprodução2 de 3Ana Cláudia, de 41 anos, foi estuprada, torturada e jogada de um penhascoReprodução3 de 3Glenielle Lourenço foi agredida dentro de um carroApreensões de armas de fogo em MinasLevantamento do Observatório de Segurança Pública da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais, no período de janeiro a maio, já foram apreendidas 6.300 armas de fogo no estado. Esse número já supera os registros no mesmo período nos anos de 2024 (5.595) e de 2025 (6.188).