IA expõe crise do ensino superior e questiona valor dos diplomas atuais

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A inteligência artificial (IA) generativa não provocou a crise do ensino superior, mas tornou mais evidente um problema que já existia nas universidades: a valorização do diploma acima da aprendizagem. A avaliação é do vice-presidente assistente de Tecnologia da Informação e diretor de Segurança da Informação da Universidade Fordham, Jason Benedict, em artigo publicado pela revista Fortune, no qual defende que o principal desafio das instituições de ensino não é apenas combater a fraude acadêmica, mas recuperar o valor da educação como experiência de formação intelectual.Segundo Benedict, o aumento das mensalidades, a pressão por empregabilidade e a chamada "inflação de diplomas" fizeram com que muitos estudantes passassem a enxergar a universidade de forma cada vez mais transacional. Nesse cenário, afirma, o diploma deixa de ser consequência do aprendizado e passa a ser o objetivo principal, enquanto o desenvolvimento intelectual perde espaço para a busca por credenciais valorizadas pelo mercado de trabalho.O autor cita pesquisas da Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, para explicar que estudantes motivados pela curiosidade e pelo desejo de aprender tendem a apresentar maior engajamento acadêmico.Já aqueles motivados principalmente por notas, salários ou reconhecimento profissional são mais propensos a recorrer a estratégias superficiais de aprendizagem e até à desonestidade acadêmica. Benedict também menciona um estudo publicado em 2024 que identificou níveis mais elevados de confiança e participação entre alunos movidos por motivação intrínseca.IA evidencia fragilidades das avaliaçõesNa visão do especialista, a popularização da IA generativa apenas acelerou um problema estrutural das universidades. "A IA não criou o problema da desonestidade acadêmica, mas expôs fragilidades antigas no design de avaliações", escreve Benedict. Para ele, muitos modelos de avaliação continuam priorizando apenas o resultado final, em vez do processo de construção do conhecimento, o que incentiva estudantes a utilizarem ferramentas capazes de produzir respostas de maneira rápida.O dirigente afirma que a adoção crescente dessas ferramentas demonstra que diversas avaliações foram concebidas para uma realidade anterior à automação. Em vez de exigir pensamento crítico, criatividade ou capacidade de argumentação, muitas tarefas podem ser facilmente executadas por sistemas de inteligência artificial, revelando limitações de um modelo educacional que, segundo ele, ainda reproduz práticas da era industrial.Benedict também alerta para os impactos que essa lógica pode gerar fora das universidades. Com base em estudos sobre ética profissional, ele afirma existir correlação entre a desonestidade acadêmica e comportamentos antiéticos na vida adulta, especialmente em áreas como medicina, engenharia, direito, finanças e segurança cibernética, nas quais decisões equivocadas podem provocar prejuízos à sociedade.O autor ressalta, porém, que a responsabilidade não deve ser atribuída exclusivamente aos estudantes. Para ele, as próprias universidades reforçaram a transformação da educação em um produto ao adotar modelos de gestão voltados para indicadores como matrículas, taxas de graduação e empregabilidade. Nesse contexto, afirma, as instituições passaram a vender diplomas como caminho para melhores salários, reduzindo o espaço destinado ao desenvolvimento intelectual.Como alternativa, Benedict defende que o ensino superior reformule suas formas de avaliação para privilegiar atividades que sejam difíceis de terceirizar para a IA, como apresentações orais, resolução de problemas reais, trabalhos colaborativos, criatividade e pensamento crítico. Ele também sustena que a alfabetização em IA deve integrar a formação universitária, não apenas como competência tecnológica, mas como instrumento para discutir ética, autenticidade e cognição humana.Ao concluir o artigo, o especialista afirma que o avanço da IA pode fortalecer justamente aquilo que diferencia os seres humanos das máquinas. "O principal desafio educacional da próxima década, portanto, não é simplesmente prevenir a fraude, mas reconstruir culturas nas quais a própria aprendizagem seja novamente percebida como intrinsecamente valiosa, transformadora pessoalmente e socialmente essencial", escreveu.