O 'castelo de cartas' orbital de Musk com 1 milhão de satélites pode desmoronar sobre nós

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Depois de muito barulho e intriga, Elon Musk conseguiu seguir em frente com o ambicioso plano de oferta inicial pública (IPO) das ações da SpaceX, que imediatamente se tornou a sétima companhia mais valiosa do mundo, acima dos US$ 2 trilhões. O próprio CEO da empresa conseguiu nesse movimento se tornar o primeiro trilionário do mundo, por mais que alguns dias depois tenha também ganhado o título de primeiro ex-trilionário do mundo e voltou a ser um “reles” multibilionário.Isso tudo com base nas promessas de um mercado futuro de proporções astronômicas – se me perdoam o trocadilho. A ambição é atingir receitas potenciais na casa dos US$ 28.5 trilhões, isso por meio de serviços integrados de internet e IA baseados no espaço. Só que a análise fria das metas de Musk e companhia para a SpaceX levanta ainda muitas perguntas às quais as respostas dos envolvidos sempre acabam soando como desdém, como quem diz “é óbvio que isso não é um problema”. A realidade não poderia estar mais longe disso, e a discrepância entre a seriedade dos desafios e riscos envolvidos nos negócios almejados pela empresa e a (falta de) explicações de Musk e seus engenheiros já está se refletindo nas ações da SpaceX. A preocupação de quem pensa friamente no assunto é que não somente não há qualquer certeza de que esse mercado sequer chegue perto do valor mencionado, mas ainda que as peças que precisam se encaixar ao quebra-cabeça para formar a visão desenhada por Musk não estão sequer perto do ponto mínimo necessário de desenvolvimento para serem consideradas prontos para teste, quem dirá para aplicação em massa. O plano: um supercomputador distribuído na órbita baixaHoje, a Starlink controla uma constelação de aproximadamente 8 mil satélites para a operação de seus serviços de internet. Como a construção de um grande datacenter para IA no espaço seria inviável tanto economicamente quanto fisicamente, o plano escolhido pela SpaceX foi colocar 1 milhão de satélites interconectados para processamento distribuído das demandas de inteligência artificial. Para reduzir custos para o mínimo possível, os lançamentos seriam feitos usando o foguete Starship reutilizável, que segundo estimativas atuais da própria SpaceX deve conseguir levar entre 40 e 60 satélites por lançamento. Na estimativa mais otimista de capacidade máxima, a empresa espera conseguir lançar 100 satélites por partida do Starship.Até hoje, o recorde máximo de lançamentos de foguetes no mundo inteiro em um dia só é de 6. Agora, imaginando que a empresa de Musk conseguisse sozinha executar de maneira sustentável 6 lançamentos por dia para envio de 100 satélites cada à órbita, sem qualquer falha ou interrupção, atingir a meta só seria possível em um prazo de aproximadamente 4 anos e meio. Isso se os envios começarem o quanto antes, o que não parece sequer estar perto de acontecer: entre o começo dos lançamentos da Starship em abril de 2023 e hoje, um total de 12 tentativas foram feitas, das quais apenas 7 tiveram sucesso.Mesmo que Musk e seu time de engenheiros milagrosamente conseguissem dar esse salto nos lançamentos amanhã, ainda precisariam ter os satélites-servidores prontos para colocar em órbita. Até o momento, a empresa não revelou sequer um protótipo funcional de satélite para processamento de IA.Não existe resfriamento “grátis”Vamos além da logística de lançamentos. O primeiro grande "alerta vermelho" é a física básica. Musk chegou publicamente a dar a entender que o resfriamento no espaço é infinito ou uma questão simples, sugerindo que basta colocar um radiador no lado escuro de um satélite.Qualquer estudante de engenharia sabe que o vácuo do espaço é um dos ambientes mais difíceis para dissipar calor. As leis da termodinâmica indicam que há 3 formas de mover calor: a primeira é a condução, que é quando o calor de uma partícula passa para outra que está encostada diretamente nela, e a segunda é a convecção, que é quando o calor de um objeto faz gases ou líquidos se moverem. Só que esses dois métodos não funcionam no espaço porque ele é um vácuo, então sobra só a terceira opção, que é a irradiação do calor na forma de ondas infravermelhas.Para cada satélite de 120 kW de processamento proposto, especialistas calculam que seriam necessários radiadores medindo cerca de 20 por 70 metros, o que dá uma área de 1.400 metros quadrados – isso é o tamanho de um ginásio poliesportivo inteiro, ou então 14 apartamentos de 100 metros quadrados, que comportariam com sobra uma família de no mínimo 4 pessoas cada, ou seja, é o espaço de casa para pelo menos 76 pessoas. Isso tudo para cada satélite. Multiplique isso por um milhão e você tem uma barreira tecnológica e física que a SpaceX simplesmente tenta ignorar com frases de efeito.De acordo com Andrew Cavalier, especialista em comunicações via satélites e tecnologias espaciais da ABI Research, mesmo na melhor das hipóteses, o tamanho e quantidade de radiadores necessários é só uma das questões. “Problemas adicionais estão escondidos no ambiente da Baixa Órbita Terrestre (LEO, na sigla em inglês) em si. O Espaço expõe radiadores e suas coberturas a uma mistura quimicamente hostil de luz ultravioleta e oxigênio atômico - bem o oposto de um ambiente estéril. Ao longo da vida útil típica de 5 anos de um satélite da LEO, esses elementos degradam as propriedades da superfície do radiador e reduzem sua habilidade de eliminar calor”, explica.Um jogo de sinuca letalA resposta padrão da SpaceX para perguntas sobre congestionamento da órbita é que "o espaço é muito grande" e há muito lugar para se mover. Sem contexto, essa frase é uma verdade óbvia. Só que a realidade é que a Órbita Baixa da Terra, que é justamente onde os satélites da SpaceX operam, já é um lugar extremamente disputado, mesmo sem um milhão de ginásios poliesportivos circulando por lá em altíssimas velocidades.O Outer Space Institute é uma instituição internacional criada por pesquisadores espaciais de diferentes setores para debater e avaliar basicamente tudo que diz respeito ao espaço. Desde 2018, antes das atuais constelações de satélites começarem a serem lançadas de verdade, eles criaram o Crash Clock, que é uma espécie de indicador que aponta quanto tempo levaria para acontecer um impacto catastrófico entre objetos artificiais nessa região da nossa órbita caso todas as manobras de ajuste de trajetória sejam interrompidas. Na época, o relógio estimava que um impacto deveria levar 164 dias para acontecer.Atualmente, com cerca de 14 mil satélites ativos (dos quais a SpaceX já opera a maioria), o relógio aponta uma chance de 60% de um impacto catastrófico em órbita a cada 24 horas caso as manobras evasivas falhem. Em 2 dias e meio a colisão é quase garantida. A SpaceX já realiza uma manobra de desvio a cada dois minutos como as coisas estão hoje. As chances de algo dar muito errado já serão enormes mesmo antes de chegarmos aos primeiros 100 mil satélites, quem dirá ao milhão.A consequência mais provável de inundar a órbita com um milhão de objetos é o que os cientistas chamam de Síndrome de Kessler: uma reação em cadeia de colisões que transformaria o céu em um campo de destroços. Imagina que o espaço é uma grande mesa de bilhar e os satélites são bolas perfeitamente alinhadas. O primeiro impacto atinge uma bola, que atinge outras duas, que atingem outras quatro e por aí vai, só que isso tudo em velocidades difíceis de a gente sequer visualizar nas nossas cabeças e com satélites e destroços que pesam consideravelmente mais do que uma bola de bilhar, e que então acabariam destruindo todos os nossos satélites de comunicação por décadas e essencialmente prenderiam a humanidade na Terra, sem possibilidade de sair por qualquer motivo que seja. Ignorar isso não é questão de otimismo, é negligência.O fim da astronomia e da camada de ozônioPara os astrônomos, mesmo sem pensar em ir ou em mandar objetos para o espaço, o plano da SpaceX é um pesadelo existencial. Esses novos "data centers" orbitais seriam colocados em órbitas de alta inclinação, o que significa que ficariam totalmente iluminados pelo sol mesmo à meia-noite, tornando-se visíveis a olho nu e inviabilizando telescópios de ponta como o Vera Rubin, que fica localizado no Chile, conta com a maior câmera digital do mundo e é uma fonte muito importante para diversos estudos sobre o espaço. Para que os satélites não prejudiquem as capturas, as lentes do telescópio precisam ser fechadas sempre que eles passam pelo caminho. Eventualmente eles passariam mais tempo fechados do que abertos, prejudicando severamente a ciência.Se você ainda não achou ruim o suficiente, calma que piora. Eventualmente, as GPUs dentro desses satélites-servidores se tornariam obsoletas, assim como acontece já com as placas nos data-centers aqui na Terra. Como o processo de retirada custaria uma quantidade obscena de dinheiro, para a SpaceX faz mais sentido econômico simplesmente deixar os satélites ultrapassados caírem da órbita, o que faria eles serem desintegrados na reentrada e aí é só substituir por um novo, mais atualizado.Só que os estudiosos estimam que essa estratégia significa eventualmente incinerar um aparelho a cada três minutos. Esse processo libera óxido de alumínio e lítio na alta atmosfera, e com esse volume de satélites, esses materiais podem destruir a camada de ozônio e alterar a temperatura global. É um experimento de geoengenharia não regulamentado e sem precedentes, que pode sim ter consequências apocalípticas para a humanidade.Nem o dinheiro explicaO mais bizarro é que, economicamente, a conta também não fecha. Análises indicam que esses data centers orbitais seriam uma ordem de magnitude mais caros que os terrestres por pelo menos uma década. Ou seja, se um data-center de determinado tamanho custaria US$ 1 bilhão aqui na Terra, uma rede de satélites com capacidade equivalente custaria US$ 1 trilhão, e isso dependendo de suposições extremamente agressivas sobre reduções de custos de lançamento que ainda não se provaram reais.Estamos diante de uma empresa com uma valorização de trilhões baseada em promessas que desafiam a termodinâmica, a segurança orbital e a preservação ambiental. Se o plano de Musk seguir sem questionamentos sérios e respostas técnicas reais – e não apenas deboches no X –, o preço que vamos pagar pode ser, no mínimo, o nosso próprio acesso ao céu. Talvez algo muito pior.No fim das contas, a postura da SpaceX e de Musk parece ser a de "pedir perdão em vez de permissão". Eles se aproveitam de processos de aprovação acelerados na FCC, o órgão regulatório lá dos Estados Unidos, para evitar análises de impacto ambiental rigorosas. Tudo para satisfazer a ganância sem fim de um homem que parece acreditar que ser – ou ter sido – um trilionário o torna melhor, mais importante e mais correto do que todos o resto de nós.E você, o que achou dos planos de Musk? O futuro da IA está realmente nas estrelas ou a SpaceX está apenas construindo o maior castelo de cartas da história? Deixe sua opinião nos comentários e continue acompanhando o TecMundo para mais notícias e reflexões sobre o mundo da tecnologia.