A Jangada Elétrica: como a Península Ibérica se tornou a nova fronteira energética da Europa

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A História, contudo, tem o estranho hábito de inverter geografias. Quando José Saramago publicou A Jangada de Pedra, em 1986, imaginou uma Península Ibérica que se desprendia fisicamente da Europa e navegava lentamente pelo mar salgado. Era uma alegoria poderosa sobre identidade, pertença e isolamento. Num tempo em que Portugal e Espanha acabavam de entrar na então Comunidade Económica Europeia, Saramago perguntava, no fundo, se a integração política seria suficiente para apagar séculos de singularidade ibérica.Quatro décadas depois, a metáfora regressa por um caminho que o Nobel português dificilmente teria antecipado. A Península não se separou da Europa e foi a Europa que começou, lentamente, a deslocar-se em direção à Península. E isso acontece por uma matéria muito menos romântica e infinitamente mais determinante: a energia.O que nos dizem os estudos europeusA sucessão de estudos publicados ao longo dos últimos dois anos começa a mostrar evidências de que a Península Ibérica deixou de ser apenas uma periferia energética para se afirmar como uma das regiões mais competitivas da Europa para acolher nova indústria. O ponto de partida é o relatório The New Industrial Age: Tailored Electrification Pathways for Europe’s Industrial Competitiveness da Boston Consulting Group (BCG) para a Eurelectric, associação que representa a indústria elétrica europeia, conclui que a Península Ibérica reúne condições particularmente favoráveis para atrair setores industriais eletrointensivos graças à conjugação entre custos energéticos competitivos, elevada penetração de eletricidade renovável e potencial de eletrificação da indústria. Segundo os autores, atividades como centros de dados, produção de baterias, hidrogénio renovável, química ou metalurgia poderão encontrar em Portugal e Espanha uma vantagem competitiva crescente face a outras regiões europeias.A mesma tendência é identificada na European Electricity Review 2025, da Ember, que mostra que, em 2024, as energias renováveis produziram 47% da eletricidade da União Europeia, um máximo histórico, enquanto a energia solar ultrapassou, pela primeira vez, o carvão na produção elétrica europeia. A transformação, contudo, não se explica apenas pelo crescimento das renováveis. A International Energy Agency (IEA) – Electricity Market Report 2025 conclui que o conflito da Rússia com a Ucrânia alterou estruturalmente o mercado energético europeu, acelerando a eletrificação, a diversificação das fontes de energia e o investimento em capacidade renovável. Em paralelo, o plano da  Comissão Europeia estabeleceu como prioridade reduzir drasticamente a dependência do gás russo e reforçar a segurança energética do continente. Ligações, mercados e produçãoA Península Ibérica, ainda assim, permanece relativamente isolada do restante mercado elétrico europeu devido à reduzida capacidade de interligação com França, uma limitação que continua a impedir que parte da eletricidade produzida em Portugal e Espanha chegue ao centro da Europa. Contudo, os dados operacionais confirmam uma evolução.A REN – Redes Energéticas Nacionais mostra que Portugal continua a aumentar o peso das energias renováveis na produção elétrica e reforçou a sua capacidade de exportação em vários períodos do ano. Em Espanha, a Redeia (Red Eléctrica) identifica uma tendência semelhante, impulsionada sobretudo pela expansão da energia solar fotovoltaica. Já o OMIE, operador do Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL) acompanha diariamente a evolução dos preços grossistas, frequentemente inferiores aos registados em vários mercados da Europa Central quando a produção renovável é elevada.Dados do Eurostat mostram que Portugal foi, em 2024, o segundo país da União Europeia com maior peso de eletricidade renovável na produção nacional (87,5%), apenas atrás da Dinamarca, enquanto Espanha consolidou a sua posição como uma das maiores potências europeias em energia solar. Em conjunto, os dois países produzem já uma fatia muito superior da sua eletricidade a partir do vento e do sol do que a média europeia. A evolução é particularmente expressiva em Espanha, onde a energia fotovoltaica tem registado crescimentos anuais consecutivos, ao passo que Portugal continua a beneficiar de uma das maiores produções eólicas per capita da Europa Com os olhos no futuroA Agência para a Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER) conclui que o funcionamento do mercado europeu está cada vez mais condicionado pela geopolítica, pela volatilidade do gás natural e pela necessidade urgente de reforçar as redes elétricas. Em conjunto, estes estudos convergem numa mesma ideia: a vantagem competitiva da Península Ibérica resulta da crescente capacidade de produzir energia limpa, relativamente barata e cada vez menos dependente das crises internacionais.A vantagem ibérica não nasceu apenas da força do vento ou do número de horas de sol. Nasceu também da instabilidade do mundo. Primeiro foi a invasão russa da Ucrânia, que expôs a dependência europeia do gás de Moscovo. Depois vieram os ataques dos rebeldes houthis no Mar Vermelho, obrigando navios a contornar África e aumentando os custos do transporte energético. Mais recentemente, a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e o Irão voltou a colocar o Estreito de Ormuz no centro das preocupações internacionais. Segundo a U.S. Energy Information Administration, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia – aproximadamente um quinto do consumo mundial – atravessam diariamente aquele corredor marítimo. Também cerca de 20% do comércio global de gás natural liquefeito depende daquela passagem.Perante este contexto, a questão energética tornou-se uma questão de soberania. Quanto mais eletricidade um país consegue produzir dentro das suas fronteiras, recorrendo ao vento, ao sol ou à água, menor é a sua exposição às crises geopolíticas que hoje se sucedem do Mar Negro ao Golfo Pérsico. A Península Ibérica parte, por isso, de uma posição particularmente favorável. Talvez Saramago tenha acertado na metáfora, mas errado na direção. A velha jangada continua ancorada à Europa. Mas é agora a Europa que depende dela para atravessar a tempestade energética.O conteúdo A Jangada Elétrica: como a Península Ibérica se tornou a nova fronteira energética da Europa aparece primeiro em Revista Líder.