A Rússia comemorou a controversa cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizada na Turquia entre os dias 7 e 8 de julho, e enxergou que o encontro de líderes não serviu para suavizar as tensões dentro da aliança militar.Ao comentar sobre a reunião, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, não conseguiu “apaziguar” o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.“O ‘Teflon Mark’, como é chamado o secretário-geral, não conseguiu usar suas habilidades de vendedor para suavizar os cantos agudos nas relações entre os aliados da Otan. Em particular, para apaziguar o presidente dos EUA, Donald Trump, para que ele não perdesse o interesse em participar da garantia de segurança da Europa, e não acelerasse a retirada das forças e meios americanos do continente”, disse Zakharova.Entenda a tensão entre Otan e EUAA tensão entre EUA e Otan surgiu antes mesmo de Trump assumir a Casa Branca pela segunda vez, em janeiro de 2025.Durante a corrida presidencial, o atual líder norte-americano ameaçou retirar os EUA da aliança caso aliados não atingissem metas mínimas com gastos em defesa.Após a pressão, os membros da Otan concordaram em expandir seus investimentos na área militar para 5% do Produto Interno Bruto (PIB).Os sinais positivos de Trump à Rússia no conflito da Ucrânia também provocaram descontentamento entre países membros do bloco militar.Em janeiro deste ano, contudo, o futuro da aliança voltou a ser questionado após Trump ameaçar anexar a Groenlândia, ilha autônoma localizada na Dinamarca.Diante das ameaças do presidente dos EUA, alguns países da Europa se mostraram prontos para defender a região de uma possível intervenção militar norte-americana, indo de encontro a um artigo da Otan que prevê a ajuda de aliados caso um membro da aliança seja atacado.Meses depois, o conflito entre EUA, Israel e Irã voltou a colocar a Otan e a administração Trump em rota de colisão.Na época, o presidente dos Estados Unidos solicitou o uso das bases militares de aliados para operações contra o país persa. Ele também buscou ajuda da Europa na tentativa de reabrir o Estreito de Ormuz, importante ponto onde cerca de 20% do petróleo mundial é escoado, que foi fechado pelos iranianos logo após o início da guerra.Nenhum dos pedidos do mandatário norte-americano foram acolhidos pelos parceiros da Otan.Realizada na capital turca Ancara, a reunião de chefes de Estado da Otan deste ano ficou marcada por posições firmes do líder norte-americano em relação aos aliados.Nos dois dias de evento não faltaram declarações de Trump que colocam em dúvida o futuro da organização, criada durante a Guerra Fria para defender os interesses de países ocidentais. Leia também MundoApós ameaçar Irã, Trump diz na Otan que “o mundo não ri mais dos EUA” MundoTrump critica Otan por anexação da Groenlândia e falta de apoio contra Irã MundoTrump elogia “química” com presidente da Turquia em cúpula da Otan MundoTrump diz estar decepcionado com a Otan: “Não fomos tratados bem” Logo ao chegar no evento, o líder norte-americano disse que ficou “muito decepcionado” com a Otan após aliados negarem ajudar os EUA no conflito contra o Irã. Por isso, Trump ameaçou retirar tropas norte-americanas de países da Europa.Na cúpula, o mandatário dos Estados Unidos também voltou a fazer ameaças contra a Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca, um dos 32 membros da Otan. Em janeiro deste ano, Trump deu sinais de que poderia interferir no território, por julgar que a área é essencial para a segurança nacional norte-americana.O projeto norte-americano é construir uma espécie de escudo contra mísseis, inspirados no Domo de Ferro de Israel, para proteger os EUA de possíveis ataques vindos da China ou Rússia.Na tentativa de contornar o ímpeto do líder norte-americano, o chefe da Otan, Mark Rutte, afirmou que pretende garantir a implementação do um acordo entre EUA e a aliança militar sobre a Groenlândia para que Trump possa “implantar, se quiser, o Domo de Ouro” na ilha.15 imagensFechar modal.1 de 15Divulgação/Otan2 de 15Otan é a sigla para Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar intergovernamental criada em 4 de abril de 1949, após o fim da Segunda Guerra MundialGetty Images3 de 15Os países signatários do tratado, na época, eram a Bélgica, França, Noruega, Canadá, Islândia, Países Baixos, Dinamarca, Portugal, Itália, Estados Unidos, Luxemburgo e Reino UnidoOtan 4 de 15Quando criada, reunia países ocidentais e capitalistas, liderados no contexto da bipolaridade formada entre os Estados Unidos (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), no período da Guerra FriaDirck Halstead/Getty Images5 de 15A Otan tinha por objetivos impedir o avanço do bloco socialista no continente europeu, fazendo frente à URSS e a seus aliados da Europa Oriental, além de fornecer ajuda mútua a todos os países-membrosKeystone/Getty Images6 de 15A aliança era baseada em três pilares: a defesa coletiva dos Estados-membros, impedir o revigoramento do militarismo nacionalista na Europa, e encorajar a integração política europeiaGetty Images7 de 15O período de bipolaridade entre EUA e URSS dividiu o mundo. Os dois países e seus respectivos aliados mantinham-se em alerta para eventuais ataques bélicosGetty Images8 de 15A Otan investiu em tecnologia de defesa, na produção de armas estratégicas e também espalhou pelas fronteiras soviéticas sistemas de defesa antimísseisDavidLees/Getty Images9 de 15Na fase final da Guerra Fria, a organização passou a assumir novos papéis. Em 1990, sob ordem do Conselho de Segurança da ONU, a Otan interveio no conflito da ex-Iugoslávia. Foi a primeira vez que agiu em território de um Estado não membroGetty Images10 de 15Em 2001, a Otan anunciou a aplicação do princípio da segurança coletiva: um ataque feito a um país membro seria um ataque contra todos os demaisGetty Images11 de 15Como os ataques terroristas ocorridos em setembro de 2001 foram considerados atos de guerra pelo governo norte-americano, a cláusula foi acionada. Por esse motivo, a organização participou da invasão ao Afeganistão Scott Nelson/Getty Images12 de 15Além de ver o terrorismo como nova ameaça, a Otan colaborou com operações de paz e realizou ajuda humanitária, como aos sobreviventes do furacão Katrina, em 2005Getty Images13 de 15Soldados da Otan também realizaram operações militares em zonas conflituosas do mundo, como o Bálcãs, o Oriente Médio e o norte da ÁfricaGetty Images14 de 15Atualmente, a aliança é composta por 32 países, localizados principalmente na EuropaGetty Images15 de 15Bósnia e Herzegovina, Geórgia e Ucrânia são os três países classificados como “membros aspirantes” à organização. Porém, para a Rússia, a perspectiva da antiga república soviética Ucrânia se juntar à Otan é impensável Getty ImagesEspecialistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que, apesar das polêmicas da cúpula, a tensão política em torno da Otan não significa, necessariamente, um enfraquecimento imediato da aliança — que é baseada em compromissos jurídicos e estratégicos a longo prazo.Após o fim das reuniões entre chefes de Estados dos membros da aliança, a Otan divulgou um comunicado conjunto onde fez um balanço sobre o aumento em investimentos em Defesa e prometeu gastar mais de US$ 50 bilhões (cerca de R$ 258 bilhões) em armamentos.O bloco também se comprometeu a manter o apoio “inabalável” à Ucrânia na guerra contra a Rússia. No evento, Trump também deu sinal verde para os ucranianos fabricarem mísseis Patriots, um desejo antigo do presidente Volodymyr Zelensky para aumentar a defesa aérea do país.“As ameaças do Trump estão sendo contornadas, de certa maneira”, explica Sandro Teixeira, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (ECEME). “É interessante perceber que tudo o que estamos vendo [crise Trump x Otan] são ações que poderiam dar um espaço relativo à Rússia, mas o fato de que o próprio presidente dos EUA ter admitido o apoio de ataques na retaguarda russa, e a divulgação recente de notícias sobre o envolvimento da comunidade de inteligência norte-americana nas ações, mostram como a Ucrânia conseguiu manter uma grande pressão sobre a Rússia”.Ainda assim, o desgaste diplomático pode afetar a confiança entre os países-membros do bloco — o que pode exigir maiores esforços para a preservação da coesão da Otan.“Sob a ótica geopolítica, qualquer sinal de divisão entre os membros da Otan tende a ser estrategicamente favorável à Rússia, ainda que isso não represente uma vantagem militar imediata”, afirma o advogado especialista em direito militar Diego Rodrigo. “Quando surgem dúvidas sobre o grau de comprometimento dos Estados Unidos ou sobre a unidade política da aliança, Moscou pode interpretar esse cenário como uma oportunidade para ampliar sua influência diplomática, explorar divergências entre os aliados e aumentar a pressão sobre o flanco oriental europeu.”