Engana-se quem pensa que uma das principais fabricantes de painéis, portas e tintas do Brasil, a Eucatex (EUCA4), foca apenas nas vendas de seus produtos. Na verdade, é justamente longe da comercialização que está o mecanismo que ajuda a explicar os números apresentados pela small cap nos últimos trimestres. Trata-se da base florestal. Um ativo que ganhou ainda mais importância diante dos impactos das condições climáticas sobre a produtividade dos plantios.A companhia, inclusive, traçou o objetivo de reforçar este que é um dos pilares menos visíveis, mas mais estratégicos do seu negócio, segundo contou ao Money Times o vice-presidente, Antonio Goulart. A base florestal da Eucatex Para a Eucatex, as florestas representam muito mais do que um patrimônio financeiro. Elas garantem, de acordo com o executivo, o fornecimento da principal matéria-prima da fabricante, ajudam a reduzir a exposição às oscilações do mercado e funcionam como um investimento de longo prazo, já que um plantio realizado hoje só estará pronto para corte cerca de sete anos depois.E, apesar de ter, atualmente, cerca de 40 mil hectares de base florestal própria de eucalipto — o equivalente a mais de 50 mil campos de futebol —, todos no Estado de São Paulo, a small cap está com uma política de expansão baseada principalmente no arrendamento de terras. O objetivo, segundo Goulart, é ampliar a segurança de abastecimento sem comprometer grandes volumes de capital na compra de propriedades rurais e, ao mesmo tempo, reduzir a exposição à volatilidade da commodity. “Hoje, nós estamos bem tranquilos em termos de área. A gente está correndo um pouco atrás em termos de floresta, de plantio, porque, nos últimos anos, as condições climáticas não foram boas. E aí, a gente experimentou perda de produtividade”, afirmou o vice-presidente à reportagem. “Em razão da falta de chuvas e das baixas temperaturas, a gente teve que voltar ao mercado para comprar [madeira]. Mas pouca coisa. Entre 5% e 8% da demanda”, disse. Embora a parcela seja, de fato, relativamente pequena, o executivo contou que a necessidade de adquirir matéria-prima coincidiu com um período de alta dos preços da commodity, pressionados pelo aumento da procura no setor. “Quando há perda de produtividade, há pouca coisa que se possa fazer. Você pode colocar um pouco mais de fertilizante para ver se a planta reage, porque ela ficou sem chuva, sofreu com o frio, mas a reação é pequena”, ponderou. “Aqui em São Paulo, por exemplo, alguns projetos enormes nos últimos anos puxaram bem a demanda [pela commodity]. Há também grandes projetos em Mato Grosso que influenciaram a alta do valor.” Como resposta a esse cenário, Goulart explicou que a Eucatex decidiu acelerar o seu reflorestamento: depois de plantar cerca de 7,3 mil hectares no ano passado, a meta para 2026 é ampliar esse volume para aproximadamente 8,2 mil. Segundo ele, o investimento previsto para o plantio de janeiro até dezembro é de cerca de R$ 180 milhões, acima dos aproximadamente R$ 150 milhões desembolsados em 2025. O foco, no entanto, está no médio prazo. “Hoje, nós estamos plantando para daqui a seis ou sete anos.” Arrendamento substitui compra de terras Ao mesmo tempo em que amplia o plantio, a Eucatex, que possui cerca de R$ 2,27 bilhões em valor de mercado e por isso é classificada no mercado financeiro como uma small cap, tem evitado comprar propriedades rurais.A estratégia adotada pela companhia tem sido priorizar o arrendamento — modalidade em que a empresa “aluga” terras para realizar o cultivo sem adquirir a área. Como vantagem, o mecanismo oferece flexibilidade e menor capital de entrada. Já como desvantagem, limita o uso da área e exclui o produtor da valorização imobiliária da fazenda. De acordo com Goulart, a decisão tem uma lógica financeira: para a companhia, o arrendamento apresenta uma relação custo-benefício mais atrativa do que a aquisição. “A gente tem tido a opção de arrendar em vez de comprar [as propriedades rurais]. Temos comprado muito pouco. O arrendamento, do ponto de vista econômico, é muito mais compensador”, afirmou. Segundo o executivo, um alqueire (unidade de medida agrária) em São Paulo, onde a small cap concentra sua operação, pode custar entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, enquanto o arrendamento gira em torno de R$ 6 mil a R$ 7 mil anuais. “É uma boa saída.” Intercâmbio de madeira reduz custos logísticos O vice-presidente contou também que a fabricante tem adotado, como outra estratégia para impulsionar os resultados, o intercâmbio de madeira — modalidade que consiste em fazer acordos com os concorrentes para reduzir gastos logísticos. Nessas operações, conhecidas como swap florestal, cada empresa realiza a colheita em áreas mais próximas de suas fábricas, compartilhando os ganhos obtidos com a redução do transporte. “A gente, faz uns quatro anos, pegou uma propriedade grande na região de São Carlos (SP), que está fora do nosso eixo. Mas tem outros fabricantes, outros florestais, que estão muito perto daquela região”, explicou Goulart. “Então, mesmo não sendo nosso eixo, a gente topa plantar, porque a gente sabe que, no momento de colher, alguém vai ter outra fazenda que está próxima da gente e vai topar trocar”, prosseguiu. “É um negócio super justo.” Entre as atuais parceiras, a Eucatex possui swap florestal com a Sylvamo (SLVM) e com a Suzano (SUZB3), essa última uma das maiores fabricantes de papéis da América Latina.Patrimônio florestal além dos 40 mil hectares Apesar da importância para a operação, as florestas da Eucatex também representam uma fonte potencial de geração de valor financeiro para a companhia. Nos últimos meses, inclusive, a empresa reforçou seu caixa com a venda de aproximadamente 800 hectares da “Fazenda Nossa Senhora da Conceição”, localizada entre Itu e Porto Feliz, no interior de São Paulo, num negócio que movimentou cerca de R$ 200 milhões.“Nós vendemos uma área pequena, mas muito valiosa”, disse Goulart, ao afirmar que a localização estratégica do terreno contribuiu para a valorização do ativo e pode abrir espaço para o desenvolvimento de projetos imobiliários pelo comprador. Mesmo com a negociação, o VP relembrou que o valor será pago em partes, sendo R$ 60 milhões à vista e o saldo remanescente em 60 parcelas mensais. Durante o período correspondente ao prazo de pagamento, a Eucatex permanecerá na posse da fazenda, tempo suficiente para colher a floresta lá plantada. Planos de expansão: mais portas, novas tecnologias e redução de custos Além do reforço da base florestal, a Eucatex prepara uma nova rodada de investimentos para ampliar sua capacidade produtiva e capturar oportunidades em diferentes segmentos do mercado de construção. A companhia pretende encerrar 2026 com cerca de R$ 500 milhões em capex, o que representa um salto de quase 30% em relação ao aplicado no ano anterior. De acordo com Goulart, entre os principais projetos, o foco da companhia está no nicho de portas e batentes, com recursos voltados principalmente ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).“Vamos mais que triplicar a produção desses itens visando o segmento de construção civil”, disse ele. Além disso, a small cap pretende investir em novos equipamentos para geração de energia térmica, com o objetivo de reduzir custos por meio do aproveitamento de resíduos da própria operação. “Vamos alocar recursos em dois equipamentos, que vão somar R$ 40 milhões. A ideia é deixar de queimar madeira ou óleo e passar a utilizar um resíduo que é muito mais barato”, afirmou o VP. Desempenho das ações Desde o início de janeiro, as ações da Eucatex (EUCA4) acumulam alta de aproximadamente 33% na bolsa de valores (B3). No recorte de 12 meses, o desempenho é um pouco menos expressivo, com valorização aproximada de 27%: os papéis saíram de R$ 18,80, em julho de 2025, para os atuais R$ 23,77