Famílias da Venezuela buscam recomeço em abrigos após terremotos mortais

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Aos poucos, Caracas, capital da Venezuela, começa a recuperar certa normalidade após os fortes terremotos que atingiram o país em 24 de junho.Há mais carros nas ruas, alguns estabelecimentos reabriram as portas e shoppings, academias e salões de beleza retomaram as atividades, embora muitos ainda operem com horários reduzidos.O trânsito, geralmente uma das maiores dores de cabeça nas grandes capitais, parece mais fluido do que o habitual, especialmente nos horários de pico, já que as aulas continuam suspensas na cidade. Número de mortos após terremotos na Venezuela sobe para 3.811 Venezuela enterra vítimas não identificadas de terremotos em La Guaira Presidente da Venezuela discute operações de resgate com os EUA O retorno aos escritórios também é parcial. Alguns edifícios foram danificados pelos terremotos, e várias empresas tiveram que transferir temporariamente suas operações para outros locais enquanto avaliam se suas instalações são seguras.Em prédios residenciais, o retorno para casa se tornou um processo lento. Há áreas de acesso restrito enquanto equipes técnicas inspecionam as estruturas afetadas.As autoridades utilizam um sistema de semáforo para determinar quais imóveis podem ser ocupados.Em alguns edifícios foram autorizados apenas reparos menores, como o conserto de rachaduras, a reparação de reboco ou o reparo de danos superficiais. Aqueles que exigem obras de maior porte aguardam uma avaliação detalhada.Os elevadores também mostram que o medo persiste. Embora as inspeções para colocá-los novamente em funcionamento já tenham começado em alguns prédios, muitos moradores ainda preferem usar as escadas por receio de que ocorra outro tremor.Vista aérea dos prédios destruídos após terremotos em Caraballeda, no Estado de La Guaira, na Venezuela • MIGUEL MEDINA/Pool via REUTERSRealidade muito diferente a apenas alguns quilômetros de CaracasA cerca de 30 quilômetros de Caracas, em La Guaira, a realidade é diferente.O estado costeiro foi declarado zona de desastre após ter sido uma das áreas mais atingidas pelos terremotos de 24 de junho. Lá, muitas famílias permanecem incertas sobre onde morarão depois de perderem suas casas.Números oficiais apresentam uma dimensão do desastre. Segundo dados divulgados por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, até a semana passada havia o registro de 189 edifícios que desabaram completamente em todo o país, sendo 158 deles em La Guaira.Estima-se que 59 mil edificações tenham sido danificadas ou destruídas em todo o país, segundo uma análise de imagens de satélite realizada pela Universidade Estadual do Oregon.Entre as regiões mais atingidas do estado estão as áreas ao redor do aeroporto internacional e a cidade de Caraballeda.Em Caraballeda, um lugar que, durante anos, foi um dos destinos turísticos mais populares de La Guaira, Mercedes Osuna tenta reconstruir sua vida após perder a irmã e ficar responsável por quatro crianças.Nas últimas duas semanas, ela tem vivido em um abrigo com suas duas filhas e seus sobrinhos, Damián e María, que perderam a mãe quando o prédio onde moravam desabou durante os fortes terremotos.Voluntários e equipes de resgate ajudam a localizar sobreviventes em um prédio desabado em Caraballeda, no Estado de La Guaira, na Venezuela 30 de junho de 2026 MIGUEL MEDINA/Pool via REUTERS • MIGUEL MEDINA/Pool via REUTERS“Eu realmente preciso de uma casa. É difícil aqui com os quatro filhos”, diz à CNN a mulher de 40 anos; ela já era mãe solo antes do terremoto e trabalhava na Hidrocapital, uma empresa estatal que controla o abastecimento de água.Sua irmã Olga, de 39 anos, mãe de seus sobrinhos, estava grávida de gêmeas. Osuna recorda os dias de angústia passados ​​à procura dela entre os escombros.Ela percorreu a área devastada até finalmente conseguir localizá-la e despedir-se. “Sinto certa satisfação por tê-la encontrado, conseguido providenciar sua cremação e saber que ela está lá”, relatou.“Minha mãe se foi”Damián, de 13 anos, jogava futebol quando sentiu o primeiro tremor. Depois veio o segundo.“O primeiro abalo aconteceu e eu caí. Aí veio o outro — bum, bum, bum — muito forte. O prédio estava desabando sobre mim. Eu ia correr em direção à Rua 22, mas não tive tempo, porque o outro prédio também estava desabando em cima de mim. Então, corri para a rua”, relatou.Por horas, ele não sabia onde sua família estava. Passou-se um dia até que ele conseguisse reencontrar sua tia. Agora, ele está tentando se acostumar a uma vida sem a mãe.“Acho que não vou voltar para casa… Minha mãe se foi”, disse ele.Em meio ao luto, Damián também teve de recomeçar. Os amigos com quem cresceu já não estão mais por perto.“Fiz novos amigos porque os outros foram todos embora”, disse ele durante a entrevista. Conseguiu notícias de apenas um deles, seu melhor amigo de infância. Quanto aos demais, respondeu simplesmente: “Eles foram embora”.Damián quase não fala sobre o terremoto. No abrigo, ele prefere jogar futebol com outras crianças. Os especialistas que o atenderam explicaram a Osuna, que agora está com a guarda da criança, que essa pode ser a maneira dele de lidar com o que aconteceu.Pessoas se abraçam enquanto as operações de resgate continuam após os terremotos que atingiram o país em La Guaira, na Venezuela, em 27 de junho de 2026. • REUTERS/Maxwell BricenoA irmã dele, María, de 10 anos, vivenciou o terremoto de dentro do apartamento. Ela estava com a mãe quando o prédio desabou.Mercedes acredita que ela sobreviveu porque estava no fundo de um cômodo e uma porta amorteceu o peso dos blocos que caíram sobre ela.Desde então, a menina pergunta constantemente pela mãe, vivencia momentos de ansiedade e se assusta com qualquer barulho alto. “Até o menor ruído… ela ficou traumatizada”, disse Osuna.No abrigo, eles recebem alimentação e acompanhamento psicológico. Mercedes é grata pelo apoio que tem recebido. “Tem sido excelente. Eles lhes dão comida, brincam com eles e os ajudam”, disse ela.A presidente em exercício Delcy Rodríguez afirmou, na semana passada, que o governo entregaria soluções habitacionais antes do final do ano.No entanto, analistas consultados pela CNN acreditam que essa promessa será difícil de cumprir, devido à complexa situação econômica do país e às limitações para desenvolver projetos habitacionais a curto prazo.Para Osuna, o maior desafio continua sendo o mesmo: encontrar um lugar para morar. “Preciso de uma casa, de verdade… o que eu preciso é da casa, a casa serve para eu ficar com meus quatro filhos agora”.Entenda o que é um “terremoto duplo”, que atingiu a Venezuela