O governo do presidente Donald Trump insiste na política de impor tarifas a produtos estrangeiros negociados no mercado interno dos Estados Unidos. Ele foi desautorizado pelo judiciário de seu país a encarecer produtos do exterior para forçar a substituição de importações. É política antiga e fora do tempo, condenada até por antigos e tradicionais republicanos, como Ronald Reagan que não economizava críticas à elevação de tarifas. Há vídeos dele com tom ácido em relação a este tipo de ação.Trump, contudo, não hesita em bucar seus objetivos. Proibido de fixar pelo judiciário as tarifas, recorreu ao USTR – United States Trade Representative – para baseado em afirmações falsas taxar produtos de vários países em até 25% sobre seu valor. Anos atrás, quando o Brasil criou a reserva de mercado para a informática, o chefe do USTR apareceu reclamando da excessiva proteção do mercado nacional. Os americanos defendiam, na época, as empresas de informática dos Estados Unidos. Militares brasileiros, unidos a extrema esquerda do parlamento, criaram a reserva de mercado que, no Brasil, resultou em aumento do contrabando de computadores e similares.A atual negociação seria técnica e diplomática. Conversas em vários níveis baseadas nos números e na realidade de que os Estados Unidos conseguem superavit nas relações comerciais com o Brasil. A taxação, se houver, decorrerá apenas da vontade de Trump de manter a pressão sobre os países que interessam a seu objetivo de manter o poder. Ele ameaça e recua. Já terminou a guerra contra o Irã várias vezes e em outros momentos recomeçou os ataques ao regime de Teerã. Ele não conseguiu, também, acabar a guerra na Europa. Tentou negociar por intermédio de seu amigo Vladimir Putin. Não deu certo porque os russos querem refazer o território da antiga União Soviética, sem recriar o comunismo. Mas esta operação envolve a extinção da Ucrânia. Zelensky não gosta da ideia.Engana-se quem entende ser a negociação sobre as tarifas exclusivamente técnica. O objetivo não declarado é interferir na eleição de outubro e levar o eleitor a sufragar um candidato de direita, possivelmente Flávio Bolsonaro que não mostra preocupação em buscar o eleitor. Ele comete erros sobre erros e, com sua destemperada ação, prejudica a economia nacional. Trump quer apenas constranger o governo Lula e colocá-lo contra a parede. Nas reuniões da semana passada, em Washington, 34 brasileiros falaram nas reuniões técnicas para discutir o assunto. Só um deles não se posicionou contra as tarifas, Flavio. Todos os outros pediram que não fossem aplicadas aos produtos nacionais.Grandes empresas dos Estados Unidos trabalham contra a imposição de tarifas cujo resultado, se forem aprovadas, será pago pelo consumidor local. Eles não querem receber a conta. Nas recentes reuniões ocorridas em Washington, 78 entidades e pessoas se manifestaram sobre o tarifaço, brasileiros e norte-americanos. Deste total, 63 se manifestaram contra a medida e apenas 14 a favor delas. A decisão final deve ser anunciada na próxima semana. Mas em tempos de governo Trump nada é definitivo. Ele avança e recua sem nenhuma inibição. E mente à vontade. Ou, de outra maneira, ele cria sua própria realidade.A popularidade do presidente norte-americano em seu país anda muito baixa. O eleitor médio nos Estados Unidos não se interessa por política internacional ou nacional. Ele se movimenta, apenas, quando seu bolso é atingido. E o petróleo voltou a subir como consequência da retomada do conflito com o Irã. Os americanos entraram numa guerra por sugestão dos israelenses. Agora não sabem como deixar o conflito. Os iranianos demonstraram capacidade de resistir e serem capazes de atingir o inimigo em pontos vitais. Bombardear as bases dos Estados Unidos na região foi resposta inesperada. E o bloqueio do estreito de Ormuz espalhou consequências do conflito por todo o mundo. A guerra deixou de ser assunto local.A realidade teima em escapar das estreitas abstrações dos grandes líderes mundiais. São pessoas que podem mais do que sabem, conduzidas por egos monumentais. Perderam o contato com a realidade. Deixaram de enxergar necessidades e possibilidades. O caso dos Estados Unidos é preocupante. Os homens que se reuniram na Filadelfia, há 250 anos, durante o verão, com janelas fechadas sob calor escaldante, pretenderam criar um país onde os homens nascem iguais, as oportunidades se oferecem a todos e a concorrência é benvinda. Trump e seus correligionários, extremistas baseados no suposto destino manifesto dos Estados Unidos de liderar o mundo, esqueceram os conceitos fundamentais que resultaram na criação do país formado por imigrantes.