O valor de uma petroleira tende a seguir o preço da cotação do petróleo. A lógica é simples: se a cotação da commodity sobe, a receita dessas empresas acompanha.Não obstante, os papéis da maior estatal do país, a Petrobras, recuaram desde o pico de quase R$ 54 atingido no final de abril.No último dia daquele mês, o barril do tipo Brent – referência internacional negociada na ICE (International Commodities Exchange) – havia se aproximado dos US$ 120 com a tensão da guerra entre os Estados Unidos e o Irã no auge.As negociações de cessar-fogo eram instáveis, e o Irã ameaçava uma “resposta longa e dolorosa” caso os EUA retomassem ataques contra o país persa.Dali em diante, os preços passaram a cair com o noticiário apresentando uma evolução – ainda que frágil – das tratativas de paz. Mas a qualquer sinal de risco, o mercado voltava a tensionar e o petróleo registrava novos picos.A cotação chegou a recuar tanto que superou as expectativas de grande parte dos agentes econômicos, que não viam o petróleo retomando ainda este ano preços comparáveis ao período pré-guerra.Apesar de ter recuado junto, a Petrobras continua sólida, segundo analistas ouvidos pelo CNN Money.“Quando comparamos seis meses ou um período um pouco mais amplo – até um período anterior ao conflito – vemos que o preço da empresa continua forte, inclusive com uma correlação mais positiva em relação ao petróleo”, observa Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra.Estatal mantém fundamentosEmbora a cotação seja um componente que mexa com o quanto as petroleiras faturam, a queda do petróleo não deve trazer tanto impacto na receita da Petrobras uma vez que, além de a companhia não praticar os preços do mercado internacional, ela participou dos programas de subvenção de combustíveis do governo, estabilizando seus preços, relembra Thiago Davino, analista Macro da Agrinvest Commodities.E olhando para o longo prazo, os analistas apontam fundamentos positivos que solidificam a tese da estatal.“A Petrobras continua negociando a múltiplos relativamente descontados em relação a grandes petroleiras internacionais, combinando elevada geração de caixa, baixo custo de produção e forte capacidade de pagamento de dividendos, embora os dividendos possam oscilar conforme o preço do petróleo e as decisões da administração”, pontua Fábio Murad, economista, sócio e fundador da Ipê Avaliações. Leia Mais Tarifaço: Governo deve ter nova reunião com EUA sobre tema, diz ministro Análise: Indústria da IA mascara desigualdades na economia americana Mais de 300 empresas e entidades se manifestaram em audiências do USTR O que Davino destaca é, sobretudo, a capacidade de produção da estatal.A companhia tem melhorado sua produção mês a mês e a expectativa é de que possa aumentar, nos próximos 2 anos, sua produtividade em 1 milhão de barris por dia.“O plano de negócios 2026-2030 reforça disciplina de capital, com foco em projetos de alto retorno e breakeven baixo. A empresa caminha para picos de produção de óleo em torno de 2,7 milhões de barris por dia em 2028, além de avanços em biocombustíveis e exploração em novas fronteiras”, pondera Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital.“Esses elementos sustentam fluxo de caixa resiliente mesmo com petróleo em níveis normalizados. Além disso, a política de dividendos permanece atrativa, com yields projetados ainda em patamares elevados para o setor, apoiados por forte geração operacional dolarizada”, acrescenta.Além de novas plataformas, Thiago Davino ressalta o potencial da Margem Equatorial.Por fim, o analista Macro da Agrinvest Commodities sublinha que, diante da guerra e a dificuldade de circular oferta pelos principais produtores de petróleo via Estreito de Ormuz, o Brasil ganhou atenção no mercado internacional.Análise: crise do petróleo põe à prova estratégias de prevenção | MONEY NEWS“Olhando para o futuro, vejo uma Petrobras ainda muito resiliente no mercado de exportação. Mesmo que o valor do petróleo caia, ela permanece num horizonte muito resiliente de preço. Ela conseguiria manter-se competitiva mesmo com o Brent caindo a 60 ou 50, quando muitos mercados começariam a sofrer”, diz Rivaldo Moreira Neto.Ainda assim, o cenário não é isento de riscos, uma vez que “o quadro não foi resolvido”, indica Frederico Nobre, gestor na Warren Investimentos.Mesmo que tenha sido selado um acordo de cessar-fogo, os EUA voltaram a atacar o Irã na terça-feira (6), o que voltou a pressionar os preços do petróleo. Mais tarde, o acordo novamente foi colocado sob teste após relatos de explosões na Ilha de Kharg, região estratégica para exportação de petróleo do Irã.Para além disso, Nobre e Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, destacam as eleições como um ponto de atenção, uma vez que a estatal pode sofrer com incertezas sobre a corrida ao Planalto.Por fim, Reis relembra que a Margem Equatorial, apesar de ser um potencial para o futuro da companhia, é também ainda uma incerteza.“Para mim é o principal gatilho. Conseguir explorar e operar na Margem Equatorial é uma questão quase que existencial para a Petrobras, porque senão daqui a poucos anos ela já não vai ser mais superavitária, a produção começa a cair bastante, e aí já passa a ser uma situação bem mais complicada”, conclui.Disparada do petróleo: Veja medidas que países estão adotando contra preços