Eleições 2026: Pobre Brasil rico (por Felipe Sampaio)

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A novidade nessas eleições é o descolamento entre os resultados reais das políticas econômicas e a opinião do eleitor sobre as qualidades do governo federal. Curiosamente, a plebe de Pindorama vive numa economia que vai bem, mas acha que o governo vai mal. É como se a seleção estivesse vencendo de goleadas na Copa, classificada para a final, mas a torcida continuasse falando mal do Mister e dos craques.Na vida real, a canarinha foi chutada pelos vikings. Quem não faz, leva. Porém, o caso do governo brasileiro estranhamente é o oposto. O time econômico do presidente Lula tem marcado gol atrás de gol, mas os índices de aprovação popular da sua gestão crescem para baixo, feito rabo de cavalo. O fenômeno não é exclusividade brasileira. Especialistas mundo afora têm considerado, pelo menos, duas hipóteses para explicar esse paradoxo. E as justificativas não são excludentes.Uma delas é apresentada pelo jornalista ianque Chris Hayes em seu provocativo “Capitalismo da Atenção” (Editora Globo, 2025). O autor analisa como “os grandes conglomerados empresariais, impulsionados por algoritmos persuasivos, orquestram o sequestro do nosso foco de atenção, moldam nossos desejos e redefinem o que significa ser humano”. Dito de outra forma, as plataformas digitais e outras ferramentas de IA induzem uma degradação da nossa capacidade de interpretar a realidade, em favor da satisfação de ansiedades de atenção e consumo insaciáveis. O importante é ganhar mais um like.Na mesma direção, a economista Laura Carvalho (BBC News, julho/26) reforça que “Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo das classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil”. Sendo diretora da Open Society Foundation, Laura complementa que “… as aspirações vão se homogeneizando de uma forma única na história, com uma sensação de insatisfação brotando [desse testemunho]”.A segunda explicação para a desconexão demonstrada pelos brasileiros em relação às entregas realizadas pelo governo Lula é acrescentada pela própria Laura Carvalho. Segundo suas pesquisas na FEA-USP, a desigualdade social no Brasil (entre os mais ricos e os mais pobres) continua crescendo, apesar da melhora nos indicadores de Desenvolvimento Humano e das conquistas macroeconômicas. “Enquanto 44% afirmam que a economia do país piorou, apenas 20% percebem que melhorou”. Acontece que duas décadas atrás, nos governos Lula 1 e 2, o ponto de partida era um Brasil com uma base da pirâmide mais sofrida do que hoje. Esse estrato vivenciou, na época, uma mobilidade social ascendente visível, teve acesso a bens, serviços e crédito que não alcançava anteriormente. Surgiu uma nova classe média ali no início dos anos 2000, que agora se recente da desaceleração de sua ascensão. Por sua vez, os cerca de 20 milhões de brasileiros que saíram da pobreza nos últimos anos têm maior consciência (facilitada pelas redes digitais) do grau de concentração de renda e riqueza por parte do andar superior do PIB.Ou seja, quem melhorou de vida passou a almejar um novo nível de bem-estar ainda melhor e quem não melhorou tanto assim agora consegue ver diariamente no seu celular os ricos ficando ainda mais ricos. Lula provavelmente vencerá no segundo tempo, mas não custa lembrar que disputa de pênaltis é terra de ninguém.Felipe Sampaio: cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria e Inovação; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; foi secretário-executivo substituto no Ministério do Empreendedorismo.