Um projeto de pesquisa internacional descobriu que o aumento de dióxido de carbono (CO2) nos oceanos pode impactar o funcionamento neurológico de lulas, considerados um dos bichos mais inteligentes do mundo animal. Quando há um aumento de CO2 na atmosfera, ele reage junto às águas e se transforma em ácido carbônico (H2CO3), reduzindo o pH e elevando a acidez aquática.Com as mudanças climáticas, a disponibilidade de CO2 atmosférico tem se elevado, o que aumenta também a acidificação dos oceanos. Ao realizar experimentos com acidez semelhante à que se desenha para o futuro, alguns exemplares de lula chegaram a ter o volume cerebral reduzido em cerca de 50%. Leia também CiênciaExpedição registra duas lulas-gigantes raras no oceano profundo MundoOceanos registram recorde de temperatura para junho CiênciaCientistas identificam “ondas escuras” que deixam os oceanos sem luz CiênciaMeio ambiente: quantidade de calor nos oceanos bate recorde em 2025 Já era de conhecimento da comunidade científica que a acidificação dos oceanos prejudica a sobrevivência de várias espécies. No entanto, o efeito do fenômeno sobre o tamanho do cérebro dos cefalópodes é um fato inédito. Os dados preliminares da descoberta foram divulgados nesta semana durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental em Florença, na Itália.Como foi detectado o efeito da acidificação nas lulasPara obter os resultados, os pesquisadores separaram as lulas em dois tanques distintos: um com a acidez oceânica atual e a outra com a prevista para o ano de 2100. Três meses depois, elas foram removidas e as cabeças foram analisadas por meio de ressonância magnética.Os achados demonstraram que os exemplares do tanque de maior acidez tinham cérebros substancialmente menores em comparação com as outras lulas – uma lula-de-recife-de-barbatana-grande (Sepioteuthis lessoniana) chegou a ter uma redução média de 49% do tamanho do órgão em relação ao grupo de controle.“Percebi imediatamente que seus cérebros tinham metade do tamanho e precisei verificar os resultados do software. Foi uma verdadeira surpresa – eu não esperava isso de forma alguma”, afirma um dos participantes do estudo, Garett Allen, em comunicado.Apesar da redução do volume cerebral, não foram constatadas mudanças no tamanho do corpo. As regiões do cérebro mais impactadas foram os lobos e tratos ópticos, áreas ligadas ao processamento de informações visuais.A descoberta atual corrobora com estudos anteriores que já haviam detectado que altos níveis de CO2 diminuem o comportamento de caça em lulas-de-recife-de-barbatana-grande. O achado tem relação com a necessidade do animal em utilizar informações visuais para rastrear e capturar as presas. Ainda não se sabe o que está por trás da diminuição do volume cerebral, mas Allen sugere que podem estar ligados a restrições genéticas no cérebro ou danos oxidativos. Os fatores continuarão a serem investigados em estudos futuros mais amplos.