O investidor que aplicou em renda fixa em 2026 esperando aproveitar o juro no maior patamar em anos pode ter levado um susto ao abrir o extrato ao fim do semestre. Boa parte dos fundos da categoria rende abaixo do CDI no acumulado do ano, um resultado que soa contraditório num ambiente de Selic a 14,25%. A explicação está no tipo de títulos que eles alocam e na forma como são precificados no dia a dia.No acumulado até o início de julho, o índice Anbima que acompanha os títulos públicos pós-fixados sobe 7,18%, à frente do CDI, que roda perto de 6,9% no período. No crédito privado, o mesmo vale para as debêntures atreladas ao CDI, que rendem 7,28%. Ou seja, se o fundo de renda fixa aplica apenas em títulos indexados ao CDI, como é o caso dos fundos DI, o retorno aparece. O problema surge quando entram outros tipos de papel.O IMA-B, que reúne os títulos atrelados ao IPCA de todos os vencimentos, sobe apenas 4,56% no ano, e a ponta longa é o pior caso, entregando apenas 2,83%. O prefixado mais longo também fica para trás, com 4,32%. O pior caso é o das debêntures de infraestrutura, com o índice do segmento acumulando só 1,43%.Como boa parte dos fundos de renda fixa de varejo carrega justamente esses papéis, o retorno médio da categoria acaba puxado para baixo.Efeito da precificação diáriaO motivo desse descompasso é a precificação diária dos papéis, a chamada marcação a mercado. Diferentemente do pós-fixado, cujo valor acompanha a Selic quase em linha reta, os títulos prefixados e os atrelados à inflação têm o preço reavaliado todos os dias conforme a curva de juros futuros. Quando essa curva sobe, o preço dos papéis já emitidos cai, e o cotista sente a perda no curto prazo, mesmo que o título vá pagar a taxa contratada se levado até o vencimento.Leia tambémMercado aguarda possível intervenção do Tesouro nesta terça; entendaEmissões de NTN-B caíram para apenas 4% do total colocado pelo Tesouro em junho, menor participação do ano; mercado já viu o órgão cancelar leilões duas vezes em 2026 diante de estresse na curvaFoi o que aconteceu ao longo do semestre. A combinação de pressões inflacionárias com a redução da aposta em cortes da Selic abriu as curvas de juros e derrubou os preços dos títulos mais longos. Sem gatilho para uma migração de recursos, diz a Sparta, “os investidores seguem fortemente alocados na classe, sem um gatilho claro para uma mudança relevante de alocação”.Ressaca no crédito privadoNos fundos de crédito privado, somou-se a esse quadro uma ressaca do começo do ano. Em março e abril, os spreads das debêntures se abriram, ou seja, o mercado passou a exigir prêmios maiores, após uma onda de preocupação com os casos Raízen e Braskem. O movimento, assim como o efeito da curva de juros, também resultou na queda do valor das carteiras e derrubou o desempenho no período. Para se ter uma ideia, as debêntures da Braskem negociavam perto de 45% do valor de face antes mesmo da proposta de reestruturação e permaneceram nesse patamar depois da apresentação e da posterior rejeição pelos credores.Esse movimento veio ainda acompanhado de saques. Segundo o Bradesco BBI, os fundos de infraestrutura tiveram resgates de R$ 10 bilhões em junho, ainda que em desaceleração ante os R$ 15,2 bilhões de maio. Quando um fundo enfrenta resgates em um mercado com spreads mais altos, é obrigado a vender papéis a preços piores, o que realiza perdas e pressiona a rentabilidade de quem fica.Leia também: Compras de Tesouro IPCA+ acompanham juro recorde e disparam mais de 70%Sinais de estabilizaçãoO quadro começou a melhorar na virada do semestre. Os spreads das debêntures incentivadas fecharam cerca de 20 pontos-base em junho, e os fundos de crédito convencional voltaram a captar depois de quatro meses seguidos de resgates. O Bradesco BBI avalia que o mercado retoma um ambiente mais construtivo, com os investidores tratando os eventos recentes como casos isolados, e não como piora generalizada da qualidade de crédito.Ainda assim, há divergência sobre a força dessa recuperação. Em pesquisa com gestores de crédito para o segundo semestre, o BBI encontrou expectativa majoritária de spreads estáveis nos papéis convencionais e de novo fechamento nos incentivados (isentos de imposto), além de reversão dos resgates, tendo a alavancagem das empresas no juro alto como principal risco. A Sparta é mais cautelosa e enxerga um alívio técnico, ao afirmar que o mercado “parece estabilizado, mas cuja estabilidade decorre muito mais da baixa oferta e da baixa demanda do que de uma melhora estrutural da atratividade dos ativos”. A casa segue uma tendência do mercado e vem mantendo nível de caixa elevado para atenuar os impactos na carteira.Para o investidor, a leitura das gestoras é que o retorno fraco de parte da renda fixa em 2026 está ligado a precificação dos ativos no curto prazo. A Sparta segue construtiva nas estratégias de inflação e prefixadas, ao ponderar que os níveis historicamente elevados das taxas dos títulos públicos mantêm “uma assimetria bastante favorável para investidores com horizonte de médio e longo prazo”. A recompensa por carregar esses papéis, portanto, tende a aparecer no médio prazo, e não no extrato do mês.Leia também: Tesouro IPCA+ deixa aberta janela rara, mas “nunca foi tão fácil tomar susto”The post Por que seu fundo de renda fixa rende abaixo do CDI mesmo com juro alto appeared first on InfoMoney.