Cientistas observaram diretamente, pela primeira vez e em tempo real, o assoalho oceânico se separar e liberar lava numa cordilheira entre placas tectônicas no Oceano Índico. O estudo, publicado na revista Nature nesta semana, descreve um evento geofísico ocorrido em abril de 2024 ao longo da Cordilheira Sudeste-Indiana, onde as placas Antártica e Australiana se divergiram. Isso afastou a crosta oceânica por pelo menos dois metros em poucos dias.O fenômeno expeliu cerca de 160 milhões de metros cúbicos de lava no fundo do mar e fez com que trechos do leito marinho afundassem até 4,2 metros devido ao esvaziamento do reservatório de magma. O mapeamento foi possível graças a um observatório subaquático instalado apenas dois meses antes da atividade sísmica. Por meio dele, os pesquisadores registraram um movimento que aliviou entre três e seis décadas de estresse tectônico acumulado na região.A magnitude do evento foi “uma grande surpresa”, disse o coautor do estudo Jean-Yves Royer, geofísico marinho do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, em Brest, segundo comunicado publicado pela Nature. “Esperávamos apenas alguns centímetros de deslocamento vertical. Mas, em vez disso, medimos 4,2 metros.”Como a pesquisa capturou fenômeno sobre o qual ‘sabemos surpreendentemente pouco’A formação de nova crosta a partir de cordilheiras meso-oceânicas é o mecanismo responsável pela cobertura de quase dois terços da superfície do planeta. Apesar do papel fundamental dessas dorsais na modelagem da superfície da Terra, “ainda sabemos surpreendentemente pouco sobre a frequência, a magnitude e a dinâmica das erupções e dos processos tectônicos que as formam”, disse Isobel Yeo, geocientista do Centro Nacional de Oceanografia em Southampton, no Reino Unido.Para monitorar a região, a equipe de geofísicos montou uma rede de monitoramento chamada OHA-GEODAMS em fevereiro de 2024. O sistema consistiu em estações de medição distribuídas ao longo de um segmento de 100 quilômetros da fenda geológica, localizado nas proximidades da Ilha de São Paulo (Île Saint-Paul), no Oceano Índico.Pesquisadores montaram rede de monitoramento perto da Île Saint-Paul, no Oceano Índico – Imagem: Francis Letourmy/Wikimedia CommonsA estrutura utilizou diferentes tipos de instrumentos para registrar as transformações no ecossistema abissal. Entre os equipamentos estavam cinco hidrofones, que operam como microfones subaquáticos voltados para captar ondas sonoras geradas por tremores, além de sensores de pressão calibrados para medir variações verticais na profundidade do relevo oceânico.Adicionalmente, os pesquisadores posicionaram 15 sinalizadores acústicos instalados sobre suportes no solo marinho. Essas estações, movidas a bateria, trocavam sinais sonoros entre si a cada quatro horas, calculando o tempo de propagação do som para identificar variações na distância horizontal entre as placas tectônicas.Os registros detalharam que o processo se iniciou com o acúmulo de magma sob alta pressão, que forçou passagem entre as camadas rochosas e desencadeou tremores a partir de 26 de abril de 2024, o que provocou o colapso da superfície sobre a câmara magmática esvaziada. Os instrumentos continuam operando no leito do oceano, com previsão de coletar dados geofísicos de maneira contínua na área até 2027.O post Pela primeira vez, pesquisadores flagram fundo do mar se abrindo apareceu primeiro em Olhar Digital.