O futuro da Peugeot e da Citroën no mercado brasileiro dependerá do uso de arquiteturas e tecnologias da fabricante chinesa Dongfeng. Após dar continuidade aos projetos que já estavam em andamento antes da criação da Stellantis em 2021, o grupo automotivo agora realinha a posição das suas marcas de origem francesa e plataformas chinesas poderão baratear custos e acelerar renovações.A Stellantis comanda marcas como Fiat, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën, Abarth e Leapmotor no Brasil, mas o sucesso de Fiat e Jeep é antagônico ao desempenho de Peugeot e Citroën nas vendas. Enquanto a Fiat somou 270.946 emplacamentos e a Jeep 56.426 emplacamentos no primeiro semestre, a Citroën acumulou 17.501 unidades (menos que Ford e Geely, que só vendem importados) e a Peugeot, apenas 8.754 unidades (menos que Omoda e Mitsubishi).Peugeot 2008 está vendendo mais que o 208 em 2026Pedro Bicudo/PeugeotA função de cada uma das marcas tende a mudar. Embora tenha carros com preços acessíveis, como o 208 e o 2008, a Peugeot deixará de ser uma marca que busca volume de vendas. “A Peugeot será uma marca de nicho posicionada acima da Fiat”, afirmou o presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, em encontro com jornalistas.O objetivo é comercializar veículos com maior margem de lucro, mirando consumidores que buscam design e acabamento superior, sem a pretensão de liderar os segmentos onde estiver atuando.Peugeot E-3008Divulgação/Quatro Rodas Continua após a publicidadeA Peugeot saiu debilitada do seu último plano de investimentos, que concentrou a produção dos seus carros na Argentina devido ao protecionismo no país vizinho. Em 2015, o mercado argentino consumia 60% de carros nacionais e 40% de modelos importados. Hoje, esse cenário se inverteu, com 70% dos emplacamentos dominados por veículos trazidos de fora e apenas 30% de fabricação local. A marca ainda é grande na Argentina e no Chile, mas encolheu no Brasil.A situação econômica do país vizinho também dificulta as importações para o Brasil. Em 2026, o Peugeot 2008 acumula mais emplacamentos que o 208: 4.211 unidades contra 2.960 do hatch, um desempenho fraquíssimo. O Peugeot e-3008, prometido para o Brasil há dois anos, seria capaz de reforçar a imagem de marca de nicho, mas ainda não foi lançado.Citroën C3 e AircrossGabriel Barrera/CitroënPor outro lado, a Citroën segue a diretriz adotada em outros mercados e concentra suas operações nos segmentos de entrada. A marca focará em entregar carros com apelo racional, espaço interno e baixo custo de manutenção, brigando pelo consumidor que precisa de mobilidade acessível em hatches e utilitários compactos. Continua após a publicidadeCitroën BasaltPedro Bicudo/CitroënNão é diferente da estratégia assumida ao concentrar sua operação nos Aircross, Basalt e C3, sendo que o Basalt é seu maior sucesso de vendas, com 7.621 emplacamentos de janeiro a junho. Os três modelos são fabricados no Brasil, na fábrica de Porto Real (RJ).O peso da China na operação localQuando a fusão que originou a Stellantis ocorreu, em 2021, diversos projetos da Peugeot e Citroën já estavam em andamento e seguiram o cronograma original. Contudo, muitos desses veículos revelaram não serem adequados às demandas específicas da América do Sul, sendo pequenos ou simples demais. A continuidade desses projetos evidenciou a necessidade de uma independência maior na engenharia e na escolha de portfólio.Para resolver essas incoerências, a Stellantis vem adotando a filosofia interna batizada de “fast lane”, impulsionada por executivos como Antonio Filosa, CEO global da Stellantis. O conceito garante liberdade quase total para que cada operação regional busque as parcerias e os produtos que façam mais sentido para o seu público. Isso elimina a obrigação de adotar plataformas globais que não se sustentem financeiramente no mercado sul-americano. Continua após a publicidadeÉ por isso que futuro de Peugeot e Citroën pode estar vinculado à parceria entre as empresas francesas e a Dongfeng, que antecede a própria Stellantis, acumulando quase três décadas de atuação conjunta na China por meio da joint-venture DPCA. As três empresas têm, inclusive, uma marca na China: a Hedmos, criada em 2025.Hedmos S6 tem 4,67 m de comprimento e motor elétrico de 215 cvHedmos/DivulgaçãoAo contrário do acordo com a Leapmotor, da qual a Stellantis adquiriu 51% de participação, a relação com a Dongfeng ocorre mediante parcerias técnicas pontuais e independentes.A engenharia brasileira já trabalha na adaptação de veículos oriundos desses projetos chineses para o mercado sul-americano. Esses desenvolvimentos contemplam carros compactos, picapes e SUVs, permitindo que a empresa atualize sua gama de produtos sem a necessidade de importar plataformas europeias, que costumam inviabilizar o preço final dos produtos no país.A parceria com a Dongfeng pode ser estendida de outra forma, com a produção no Brasil de modelos dessa marca chinesa. Publicidade