O que acontece depois da tragédia? «La fuerza es la unión»

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24 de junho de 2026. Caracas tremeu. A magnitude 7,2 foi apenas o aviso. Trinta e nove segundos depois chegou uma magnitude 7,5 que mergulhou o país no caos. Dias depois, o número de mortos continua a aumentar e a esperança de encontrar com vida as mais de quarenta mil pessoas desaparecidas ou sem contacto com as famílias começa a desvanecer-se. La Guaira, o estado costeiro que acolhe o principal porto da capital, foi declarado pelas autoridades uma «zona de desastre total». O que acontece depois da tragédia?Quando se percorrem as ruas de Caracas ouvem-se bulldozers a afastar escombros. Alguns permanecem parados por falta de combustível, um problema relatado por equipas no terreno. Há gritos das equipas de resgate à procura de sinais de vida. Há famílias inteiras que continuam à procura dos corpos de filhos, pais e companheiros. Larry Rojas, de 49 anos, permaneceu diante do edifício onde a família ficou soterrada. «Não temos nada, agora não temos nada, nem sequer força, nem coragem para entrar ali», disse aos jornalistas.As perdas económicas ultrapassam os 6,7 mil milhões de euros em danos físicos diretos, ou seja, apenas casas, edifícios, estradas e maquinaria destruídos. As Nações Unidas estimam que o custo total da reconstrução – incluindo infraestruturas, atividade económica e recuperação a longo prazo – possa ser várias vezes superior.Delcy Rodríguez apelou à unidade nacional poucos dias depois do desastre. «A Venezuela não está sozinha», afirmou. Talvez tenha razão. Talvez esse seja precisamente o segredo que poucos países conseguem explorar: transformar a solidariedade numa oportunidade para reconstruir não apenas cidades, mas também instituições e comunidades que já apresentavam fragilidades antes da tragédia.Japão: o país que aprendeu a reconstruir-seA lição veio de Tohoku. Foi escrita em água. A 11 de março de 2011, um sismo de magnitude 9,0 desencadeou um tsunami com ondas superiores a 15 metros que devastou a costa nordeste de Honshu. Cerca de vinte mil pessoas morreram ou desapareceram. Aproximadamente 470 mil foram obrigadas a abandonar as suas casas. Durante dias, o Japão sentiu que o país inteiro estava à beira do colapso.Nos anos seguintes, o Governo japonês investiu cerca de 200 mil milhões de euros na reconstrução de infraestruturas, habitação, proteção costeira e revitalização económica. Foi um dos maiores programas de reconstrução da história moderna.Minamisoma tornou-se um símbolo desse esforço. Em 2011, praticamente toda a cidade foi evacuada devido ao acidente na central nuclear de Fukushima Daiichi. O presidente da câmara, Katsunobu Sakurai, permaneceu na cidade e tornou-se conhecido pelos apelos desesperados à comunidade internacional. Com o tempo, cerca de 57 mil habitantes regressaram. Construíram-se novos bairros, reforçaram-se as defesas costeiras e os planos urbanísticos foram redesenhados para reduzir o impacto de futuras catástrofes.Quinze anos depois, porém, permanece um problema que nenhuma obra pública conseguiu resolver. A população continua a envelhecer e muitos jovens nunca regressaram. O Japão conseguiu reconstruir estradas, escolas e hospitais. Reconstruir as razões que levavam as pessoas a viver ali revelou-se muito mais difícil.Indonésia: quando o mundo inteiro respondeA 26 de dezembro de 2004, um sismo de magnitude 9,1 ao largo de Sumatra desencadeou um dos tsunamis mais mortíferos da história.Em Aceh morreram cerca de 170 mil pessoas. Em todo o Oceano Índico, o número de vítimas ultrapassou as 227 mil, desde a Indonésia até à Tailândia, Sri Lanka, Índia e à costa oriental de África.A diferença esteve na resposta internacional. O mundo mobilizou-se como nunca antes. Em cerca de dezoito meses foi criado um sistema regional de alerta precoce para tsunamis. A ajuda internacional ultrapassou os sete mil milhões de dólares. Países como a Indonésia reformaram profundamente os seus sistemas nacionais de proteção civil e de gestão de catástrofes.Aceh tornou-se um laboratório da reconstrução. Milhares de voluntários e organizações internacionais participaram na recuperação da região. Novas estradas, escolas, hospitais e bairros inteiros nasceram onde antes existiam apenas escombros. A mesquita Rahmatullah, que resistiu ao tsunami, transformou-se num símbolo mundial de resiliência.A tragédia produziu ainda um efeito inesperado. Depois de décadas de conflito armado, o Governo indonésio e os rebeldes do Movimento Aceh Livre chegaram a um acordo de paz. O tsunami conseguiu acelerar um processo que anos de negociações diplomáticas não tinham conseguido concluir.O padrão invisívelTrês sismos. Três países. Três histórias diferentes. Mas existe um padrão comum. A recuperação nunca depende apenas do dinheiro. Depende da capacidade política de olhar para a destruição e decidir que vale a pena reconstruir melhor do que antes. A Venezuela enfrenta agora esse teste. As autoridades prometeram acelerar a reconstrução. O Japão mostrou que é possível levantar cidades inteiras e a Indonésia demonstrou que uma tragédia pode até transformar uma região marcada pela guerra.Mas ambos também ensinaram outra lição: reconstruir edifícios é muito mais fácil do que reconstruir comunidades. Os terramotos que abalaram a Venezuela também a deixaram perante uma oportunidade de corrigir fragilidades que existiam muito antes da terra tremer. A História mostra que isso é possível. Também mostra que poucos países conseguem aproveitar essa oportunidade até ao fim.O conteúdo O que acontece depois da tragédia? «La fuerza es la unión» aparece primeiro em Revista Líder.