Análise: Super El Niño já entrou na conta da economia

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O número que importa agora é 63%. Esta é a probabilidade indicada pelo CPC/NOAA para que o El Niño alcance intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.Se essa projeção se confirmar, o evento ficará entre os maiores já registrados desde 1950. Não se trata de uma curiosidade climática. É um dado de risco econômico.A expressão “Super El Niño” ajuda a comunicar a gravidade do cenário, mas exige cuidado. O termo não é a régua operacional dos centros climáticos.O que o boletim da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) aponta é um El Niño já presente, em fortalecimento, com chance majoritária de atingir o patamar “muito forte” no fim do ano.Para governos, empresas e investidores, essa diferença é menos semântica do que prática: não se espera a fotografia final de um evento climático para começar a proteger balanços, estoques, contratos e orçamentos. Leia Mais Alimentos frescos empurram demanda pelo Amazon Now no Brasil, diz executiva Tarifaço: Setor privado vê possível extensão de isenções após audiência Riscos fiscais da União deveriam ser fidedignos, diz pesquisadora do Insper A grande mudança de 2026 está na forma de medir a força do El Niño. O ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo) passou a utilizar desde 1º de junho um cálculo mais ajustado à realidade atual dos oceanos.Em vez de olhar apenas para o aquecimento de uma área específica do Pacífico, chamada Niño 3.4, o novo método compara essa região com o restante dos oceanos tropicais.Isso é importante porque os mares do planeta inteiro estão mais quentes. Sem essa comparação, uma parte do calor observado no Pacífico poderia ser atribuída ao El Niño, quando na verdade reflete o aquecimento mais amplo dos oceanos.Isso não reduz o alerta. Melhora a qualidade da decisão. A metodologia do ECMWF indica que previsões pelo índice relativo tendem a ficar cerca de 0,5 °C abaixo das medições tradicionais.Mesmo assim, os modelos seguem apontando um evento forte a muito forte. A mensagem para a economia é clara: o risco permanece elevado, mas a régua ficou mais precisa.No Brasil, o El Niño toca quatro frentes sensíveis da economia: alimentos, energia, seguro e gasto público com desastres.A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) elevou para 358,6 milhões de toneladas a estimativa da safra brasileira de grãos 2025/26. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que a agropecuária cresceu 11,7% em 2025, em uma economia que avançou 2,3%.Qualquer perturbação relevante em chuva, calor ou janela de plantio não fica confinada ao campo; ela atravessa inflação, exportações, crédito rural e renda regional.Na energia, o risco aparece por outra porta. Ondas de calor elevam a carga do Sistema Interligado Nacional, pressionam a operação e podem encarecer o atendimento.A bandeira amarela da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) adiciona R$ 18,85 por megawatt-hora consumido; a bandeira vermelha patamar 1 acrescenta R$ 44,63 por megawatt-hora.O El Niño não aciona sozinho essas bandeiras, mas pode compor o cenário que leva a maior despacho térmico, menor conforto hidrológico e custo maior para o consumidor.El Niño pressiona safra e eleva risco inflacionário | CNN AGRO NEWSHá ainda o mercado de proteção. Em ano de risco climático crescente, o seguro rural deveria funcionar como amortecedor macroeconômico.Mas o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural entrou em 2026 sob bloqueio de R$ 461,7 milhões e, semanas depois, sofreu cancelamento adicional de R$ 56,3 milhões.A verba disponível caiu para cerca de R$ 473,8 milhões, menos da metade do inicialmente previsto. É um detalhe fiscal que deixa de ser detalhe quando o país se aproxima de um evento climático potencialmente severo.O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) já sinaliza, para o terceiro trimestre, chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país, além de maior probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre.O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) reforça que os efeitos do El Niño no Brasil variam conforme a região, estação e interação com outros oceanos.No Sul, o risco é de excesso de chuva e eventos severos. No Norte e em parte do Nordeste, a preocupação recai sobre irregularidade hídrica, calor e pressão sobre rios, agricultura e geração.A tentação editorial será tratar o rótulo “Super El Niño” como sentença. Seria um erro. Eventos de 1982, 1997 e 2015 mostram que a intensidade no Pacífico não se traduz automaticamente no mesmo impacto em todos os lugares.O Atlântico Tropical, os bloqueios atmosféricos, a posição dos jatos e a resposta da circulação regional podem ampliar ou amortecer efeitos no Brasil.A leitura correta é mais útil e menos espetacular: o país entrou numa janela de preparação. A ciência já entregou o aviso. Agora o teste saiu dos modelos climáticos e foi para a mesa de operadores de energia, produtores rurais, seguradoras, prefeitos, governadores e Ministério da Fazenda.O Brasil aprendeu, em crises recentes de chuva, seca e energia, que o problema raramente está na falta de alerta; está na lentidão com que o alerta vira decisão. Em 2026, esse alerta já está no painel.Moody’s: mudanças no clima podem cortar 20% do PIB do Brasil até 2050