Desde 2023 que a Praça de D. Pedro IV, no Rossio, não é a mesma. O Teatro Nacional D. Maria II, edifício emblemático de Lisboa e do teatro português, esteve fechado para uma profunda renovação. Volta, finalmente, a abrir portas este fim de semana com três dias de programação gratuita, de 18 a 20 de setembro. Para a rentrée, a peça escolhida foi Macbeth, uma escolha ousada e com o objetivo de «desafiar o destino», como nos conta Rui Catarino, membro do Conselho de Administração do Teatro.A peça de Shakespeare é conhecida como uma «peça maldita»: por superstição, há quem evite dizer o seu nome dentro de um teatro, chamando-lhe apenas «a peça escocesa». E era precisamente Macbeth que estava em cena no Teatro Nacional D. Maria II quando o edifício ardeu, em 1964. Reabrir agora com a mesma peça, numa encenação de Pedro Penim, «é uma piscadela de olho à história». «Não é uma coincidência para quem é supersticioso», garante.É sobre esta inauguração que trata a conversa com Rui Catarino, da experiência de liderar uma equipa sem casa, de regressar ao Rossio «com o país dentro», de chegar a novos públicos e afirmar o papel da cultura numa sociedade cada vez mais digital, individualizada e distante da vida em comunidade.Mas, para este novo capítulo, não desejamos boa sorte, como manda a tradição. Não queremos desafiar (ainda mais) o destino. Como foi liderar um teatro que fecha portas durante três anos?Estamos num momento em que esse período está, felizmente, a chegar ao fim. Ter um teatro fechado dá muito mais trabalho do que ter um teatro aberto, não haja a mais pequena dúvida. É difícil trabalhar sem a casa histórica do Teatro Nacional D. Maria II, que celebra 180 anos este ano.Na realidade, este estado de exceção em que o D. Maria tem vivido é mais longo do que o período de encerramento para obras, já que o último ano ‘normal’ foi 2019. Depois, 2020, 2021 e 2022 foram muito influenciados pela pandemia, que nos obrigou a repensar os modelos de funcionamento. Isso passou pela desmaterialização dos processos administrativos e por uma utilização muito mais intensiva do digital na nossa programação.Quando regressámos um pouco à normalidade, em 2022, aproximava-se já o encerramento do Teatro, no início de 2023, para esta grande obra de remodelação financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência.Foi difícil, trabalhoso, mas extraordinariamente gratificante. Repensámos o modelo de funcionamento de um teatro que passou a assumir uma função nacional muito mais vincada com o encerramento do seu edifício no Rossio, através do programa Odisseia Nacional. Durante estes três anos, trabalhámos com mais de cem municípios, envolvemos mais de 200 mil pessoas de todo o país, continente e ilhas, e desenvolvemos quase 300 projetos.Foi uma verdadeira odisseia, portanto o nome do projeto era muito adequado. A par dessa, houve outra odisseia: fazer esta obra de remodelação num edifício que é monumento nacional, com todas as contingências que isso implica.Do ponto de vista da nossa organização, foi um período de grande aprendizagem e de reconsideração da missão de um teatro nacional. Por isso, a propósito desta reabertura em setembro, costumamos dizer que regressamos ao Rossio «com o país dentro». Trazemos para Lisboa, para o Rossio, a experiência deste trabalho com comunidades muito diversificadas de todo o país.Foi um trabalho que não se limitou à digressão. Também não gostamos da palavra «descentralização», porque cria logo uma clivagem: se estamos a descentralizar, é porque há um centro e uma periferia. Não fazemos descentralização, o que fazemos é procurar tantos centros quanto possível com os quais possamos trabalhar, por razões muito diversas.Às vezes, a nossa presença pôde ajudar aquilo que já estava a acontecer, porque trouxe outra capacidade e outra visibilidade, usando também a marca Teatro Nacional D. Maria II. Por outro lado, trabalhamos com lugares que precisam de uma oferta mais regular de atividades, que não são apenas espetáculos. Tudo aquilo que fizemos neste período traduz-se em aprendizagens, em sedimentos que se foram criando na nossa organização, que alteraram a missão do Teatro e nos obrigaram a adotar modelos de funcionamento mais flexíveis e menos padronizados.Este processo de aprendizagem, que decorre, na realidade, há seis anos traz frutos muito visíveis na forma como trabalhamos.Isso vê-se na nossa capacidade de envolver parceiros de todos os tipos e de procurar outros públicos, para além dos públicos tradicionais do teatro, que os estudos identificam como pertencentes às classes médias e médias-altas. A diversificação já era uma grande preocupação nossa, a três níveis: a diversificação dos públicos; a diversificação da programação — que corpos estão representados nos palcos que ocupamos, que comunidades estão representadas —; e a diversificação da nossa equipa.A liderança é coletiva e, espero eu, cada vez mais democrática. Dada a necessidade de uma organização mais matricial e menos vertical, tentámos também fazer esse movimento de democratização do funcionamento interno do Teatro.É fantástico poder regressar a casa, mas com a ideia de que não vamos voltar a 2019, porque o país mudou e as nossas comunidades mudaram. Do ponto de vista mais micro ou mais macro, muito mudou muito nestes três anos e também desde a pandemia. O Rossio também mudou muito. O ambiente urbano que se vive hoje na Baixa é muito diferente daquele que existia quando encerrámos o Teatro para a obra de reabilitação. Tudo isso nos interessa trabalhar, da micro à macroescala. Falando dessas mudanças, à escala micro e macro, na sociedade e no ambiente do Rossio, como se vão refletir no teatro? O que vai o público encontrar em setembro?Há uma reflexão muito grande que fomos fazendo ao longo do tempo, que já vinha de trás e que se intensificou com este período excecional da vida do Teatro. As mudanças passam por transformar a escala extraordinária destes três anos em relações com os múltiplos territórios com os quais trabalhamos, da micro à macroescala, que sejam mais continuadas, mais profundas e com maior capacidade, acreditamos, de produzir efeitos na relação das pessoas com a cultura.Alguns desses projetos são o Atos, o nosso programa de participação cultural desenvolvido com a Fundação Calouste Gulbenkian; o Boca Aberta, um projeto de criação e mediação para a infância; ou o Panos, um projeto de teatro escolar e amador que desenvolvemos há bastantes anos. Herdámos esse projeto da Culturgest, quando a instituição o descontinuou. Há também o Próxima Cena, um programa de circulação de espetáculos relacionados com o currículo escolar.Todos esses projetos continuam a trabalhar com municípios, teatros e artistas de vários pontos do país, continente e ilhas. E eles próprios têm vindo a mudar. As estruturas vão-se autonomizando, com a nossa mentoria, a nossa coprodução e o nosso apoio. Deixa, assim, de ser um projeto produzido diretamente pelo Teatro Nacional D. Maria II para ser a tal alegoria de dar o peixe ou a cana. Interessa-nos, obviamente, circular com as nossas atividades, mas interessa-nos mais criar raízes e ajudar a desenvolver projetos que se autonomizem.O retorno do investimento na cultura é de longo prazo. Por isso, interessam-nos projetos com maior continuidade, que persistam em abordagens que consideramos consequentes e que, ao longo do tempo, tragam resultados para as comunidades, sejam as do público de Lisboa ou do resto do país.Tudo isto se reflete na programação que nós próprios desenvolvemos. Por exemplo, queremos combater um pouco a hiper-rotatividade dos espetáculos, mantendo-os mais tempo em cena e dando mais tempo ao público para se apropriar da ideia de que um teatro nacional tem uma continuidade de programação.Obviamente, podemos fazer isso na nossa casa. É mais difícil fazer carreiras muito longas noutros pontos do país. Mas essa lógica de funcionamento, assente numa perspetiva de impacto a longo prazo, traduz-se em muitas formas de trabalhar. Queremos trazer para o Rossio aquilo que aprendemos pelo país fora durante estes três anos. Como foi gerir a equipa num período tão diferente e instável?Gostava muito de lhe dizer que fizemos um maturado planeamento estratégico sobre o que seriam estes anos de obra, que estava tudo planeado desde o início e que correu tudo muito bem. Não foi isso que aconteceu.Quando fechámos o teatro, tínhamos uma ideia do que queríamos fazer e da forma como achávamos que poderíamos desenvolver a Odisseia Nacional. Mas foi necessária uma gestão contínua da mudança. Há aquela citação muito famosa de Um Elétrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams, em que Blanche DuBois diz: «I have always depended on the kindness of strangers.» «Sempre dependi da bondade de estranhos.» Quando se trabalha em casas que não são a nossa, por todo o país, com 93 municípios diferentes e ainda mais equipas, não há outra possibilidade senão trabalhar de uma forma extraordinariamente flexível, que acomode as especificidades de cada território e das comunidades com as quais trabalhamos.Foi imperioso horizontalizar a nossa estrutura e criar uma organização mais matricial, baseada em projetos, e menos assente no modelo tradicional de uma entidade pública.O Teatro Nacional D. Maria II é uma entidade pública empresarial, com o seu organigrama, que, na realidade, nem é muito vertical: não temos muitos níveis de gestão. Mas, na prática, teve de se transformar numa organização bastante mais horizontal. A gestão da mudança foi crucial. Vivemos tempos difíceis, de enorme incerteza, que, ao mesmo tempo, foram um privilégio, porque demonstraram a nossa capacidade de trabalhar em contextos extraordinariamente diferenciados.Tenho alguma dificuldade em falar de liderança porque, obviamente, ela faz-se a vários níveis. Isso está nos livros, todos estudamos essas questões em Economia ou em Gestão. Mas aquilo que sinto ser uma das grandes mais-valias do teatro é a qualidade da sua equipa e a sua capacidade de adaptação, que é sempre essencial na cultura.A criação artística é incerta por natureza. Quando avançamos para um projeto, por muito que tudo esteja muitíssimo bem planeado, que o elenco esteja definido e que a equipa de criação artística esteja constituída, o processo de criação é imprevisível por natureza. Um teatro, uma casa de criação artística, tem de estar, à partida, capacitado para lidar com a incerteza.Só foi possível fazê-lo porque a equipa do Teatro Nacional D. Maria II tem uma enorme capacidade de adaptação à mudança. O input de cada uma das antenas que são os trabalhadores do teatro foi muitas vezes crucial para o passo seguinte.O essencial foi este processo de aprendizagem organizacional, que queremos agora trazer para o modelo de funcionamento no Rossio. Queremos alguma estabilização, dentro da instabilidade que é a criação artística, para continuar a trabalhar, com mais capacidade, as linhas de atividade que desenvolvemos nestes três anos. Como se preserva a identidade de um teatro durante três anos sem casa? Tiveram receio de perder parte dessa identidade por vos faltar o edifício?O Teatro Nacional D. Maria II tem 180 anos. A sua identidade, ou as suas identidades, são percecionadas de formas muito diferentes ao longo da história e consoante as pessoas com quem falamos.Mas esta experiência de circulação pelo país fez-nos perceber, de uma forma muito mais aguda, que o valor da marca do Teatro é muito mais poderoso do que aquilo que achávamos. É claro que essas ideias são muito diferentes consoante a pessoa a quem perguntamos. Mas ninguém pergunta: «O que é o Teatro Nacional D. Maria II?» Toda a gente tem uma ideia. O que muitas vezes se associa ao Teatro Nacional D. Maria II — diria que, na maioria das vezes, é a primeira imagem que vem à cabeça — é o edifício: a fachada com o frontão e as colunas neoclássicas.Gostamos de dizer que estes três anos foram uma espécie de ensaio para uma emancipação da instituição em relação ao seu edifício. Sabemos que é extraordinariamente ambicioso. Como se diz, «we are standing on the shoulders of giants», temos uma enorme história atrás de nós, com figuras absolutamente centrais da história do teatro português, que tentamos honrar com o trabalho que fazemos atualmente. Desde Almeida Garrett, o fundador do teatro, até Amélia Rey Colaço, uma figura absolutamente marcante, ou Carlos Avilez, encenador e diretor do teatro durante bastantes anos.Temos a preocupação de honrar a história do Teatro, mas não olhamos para ela de uma forma imobilista. Um teatro nacional tem de refletir a sociedade que o justifica. E a sociedade portuguesa de 2026 é muito diferente da de 1846, quando o teatro abriu, por ocasião do aniversário da rainha D. Maria II.Mudou tudo. O teatro passou por tudo. Vivíamos numa monarquia, passámos para uma república, atravessámos uma ditadura e uma revolução, e vivemos agora numa democracia. O teatro passou por tudo isso e, naturalmente, mudou muito. Não nos preocupa manter uma identidade imóvel. Preocupa-nos honrar a história do teatro, estar à altura dessa história e projetar no futuro aquilo que entendemos ser a atualidade da sociedade portuguesa.Um teatro tem de refletir a sociedade e tem de refletir sobre a sociedade.Essa preocupação com a identidade não é algo que esteja muito presente no nosso dia a dia, mas as escolhas que fazemos têm sempre em conta a necessidade de honrar o passado e projetar o futuro. Se há algo que podemos apontar em relação à identidade é esta ideia, muito ambiciosa, de querer que as pessoas reconheçam que somos uma instituição que transcende o seu edifício.Sabemos que estamos a lidar com forças muito poderosas. O edifício tem muita importância. Adoramo-lo e tentamos cuidar dele com o maior amor possível. É um monumento nacional histórico, central na vida cultural do país, com 180 anos. Tivemos a oportunidade extraordinária de o remodelar com o financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência e de o preparar para mais 50 anos. Digo mais 50 anos porque reabriu em 1978, depois do incêndio de 1964. Esteve fechado durante 14 anos. O encerramento do teatro é também uma espécie de ferida na vida cultural do país. As mudanças do Teatro vão refletir-se mais nas condições para o público ou para os trabalhadores? Quem entrar no teatro a 18 de setembro vai perceber imediatamente as diferenças?As pessoas vão voltar a entrar no D. Maria II e nós vamos ter de explicar por que razão esteve fechado durante três anos e meio, porque isso não vai ser imediatamente óbvio. O principal volume das obras teve a ver com condições de segurança e de trabalho, atualização técnica, segurança contra incêndios, eficiência energética e conforto, incluindo a substituição quase integral dos sistemas de ar condicionado.Naquilo que é visível ao público, as pessoas vão perceber que o teatro está mais limpo, restaurado, com os dourados mais brilhantes. Está tudo mais limpo e bonito, mas não vão perceber imediatamente por que estivemos três anos fechados. Agora, nota-se que há mármore róseo na fachada do teatro, uma certa tonalidade cor-de-rosa daquele mármore lioz. Essa tonalidade já não se via há muito tempo, porque as fachadas não eram limpas de forma tão aprofundada.No geral, notam-se mais brilho e maior limpeza, mas não houve uma grande revolução nas zonas públicas. Nem poderia haver, pois o Teatro é um monumento nacional. O que fizemos foi restaurar e melhorar aquilo que era necessário.Há aspetos que são técnicos, mas também estéticos. Por exemplo, dentro da Sala Garrett, que tem os balcões em forma de ferradura, existiam tubos de suspensão de equipamentos técnicos, nomeadamente projetores de luz de frente na zona da plateia, que eram bastante visíveis. Foram agora mais integrados nos balcões. A sala vai ficar visualmente mais limpa, com menos cablagens técnicas e tubos de suspensão à vista.Todos os tecidos que revestem as paredes foram integralmente substituídos, mas são praticamente iguais aos originais. Houve também um trabalho técnico para não prejudicar a acústica extraordinária da sala. Nada disso, porém, vai ser imediatamente óbvio para o público.A sala foi pintada numa tonalidade mais escura, precisamente para dar mais contraste aos dourados e ao cristal do candelabro e das luminárias. O átrio tem uma iluminação diferente, bem integrada e muito minimalista, porque o que interessa é valorizar aquilo que já existia: os tectos trabalhados e aquele aspeto relativamente austero, neoclássico e sólido. As bilheteiras também vão ser diferentes.Houve ainda alterações numa sala que se chamava sala de cenografia, por cima da Sala Garrett, debaixo do telhado. Era o espaço onde antigamente se pintavam os telões, que depois desciam para o palco. Mais recentemente, já era utilizado para armazenamento de adereços e figurinos e como sala de ensaios.Foi também criado um novo espaço de escritórios, em open space, com uma mezzanine. O teatro não tinha espaço de escritório suficiente. Quando reabriu em 1978, tinha muito poucos espaços administrativos, porque a complexidade da gestão de um teatro ou de uma entidade pública era muito menor. A equipa que trabalhava à secretária era bastante mais pequena do que é atualmente.Continuamos a ter a mesma estrutura fundamental daquele quarteirão no Rossio, que tem algumas limitações de dimensão. O teatro não pode crescer para cima, para baixo ou para os lados, embora isso nos desse muito jeito. Foi um absoluto privilégio poder fazer estas mudanças com a oportunidade de financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência. Foram investidos 15,1 milhões de euros nesta remodelação, a primeira grande intervenção desde a reabertura, em 1978, depois do grande incêndio. Estas alterações vão permitir criar espetáculos que antes não eram possíveis?Sim. Há uma melhoria substantiva das condições técnicas de funcionamento da Sala Garrett e da Sala Estúdio. Valorizamos muito, por exemplo, a remodelação do palco rotativo, porque é um equipamento cénico único no país. Não existe outro igual: é um palco rotativo de uma dimensão enorme, com elevadores integrados, que permitem efeitos cénicos que não são possíveis noutros lugares. Ou melhor, não quer dizer que não sejam possíveis, mas seria necessário construir toda uma parafernália de plataformas e mecanismos muito dispendiosos.A Sala Garrett tem isso de raiz. É um instrumento muito interessante, disponível para os criadores que fazem espetáculos connosco, nomeadamente já para o espetáculo de estreia da sala, o Macbeth, de Shakespeare, encenado por Pedro Penim. Não quero fazer spoilers, mas tem efeitos cénicos interessantes.Estas atualizações técnicas também tornam o funcionamento da sala mais eficiente. Facilitam a vida aos criadores e aos técnicos que têm de fazer as montagens e desmontagens. Do ponto de vista da arte e da criação teatral, as possibilidades já são gigantescas. O teatro sempre esteve na vanguarda da utilização da tecnologia, desde a Grécia Clássica, em que a tecnologia permitia que anfiteatros ao ar livre, com dez mil espectadores, tivessem ótimas condições acústicas sem qualquer amplificação.A tecnologia e o teatro sempre andaram de mãos dadas.Hoje, esse uso da tecnologia é absolutamente extraordinário e passa por equipamentos digitais, projeção ou, por exemplo, pelo video mapping que vamos fazer na fachada do teatro na noite da reabertura, com uma grande festa no Rossio e uma noite de DJs.Vamos apresentar nesta temporada um espetáculo absolutamente extraordinário, que recorre a realidade expandida, com óculos de realidade virtual, mas com uma qualidade que, quando o vi, não achei que já fosse possível. A integração da imagem computadorizada com a imagem real, dos atores virtuais com os atores físicos, é extraordinária. O espetáculo chama-se BLUR e é uma coprodução entre Taiwan e o Canadá.O teatro fica, portanto, mais capacitado do ponto de vista do seu parque técnico e infraestrutural. Mas isso não significa que não fosse já possível fazer grande parte daquilo que gostamos e queremos fazer nessa vanguarda tecnológica com o teatro que tínhamos. Como lhe dizia, os edifícios nunca foram, ou muito poucas vezes são, uma limitação para a criatividade artística. Vivemos num contexto cada vez mais dominado pelo digital, pela imagem e por plataformas de streaming. Como pode o teatro continuar a disputar a atenção das pessoas? O teatro precisa de se reinventar e adaptar ou deve manter-se mais tradicional?Essa é a million-dollar question. Vivemos numa economia da atenção, não haja dúvida. As nossas retinas são colonizadas, de forma mais ou menos voluntária ou involuntária, mais ou menos manipulada, por empresas tecnológicas que detêm um poder de mercado que nunca existiu na história da humanidade.Não gostamos de pensar que estamos em competição, nem entre teatros, nem com outras formas de entretenimento — embora o teatro seja muito mais do que entretenimento —, nem pelo tempo de atenção das pessoas. A cada revolução tecnológica, vaticinou-se sempre o desaparecimento de alguma coisa. E muito poucas vezes essas coisas desapareceram efetivamente.Quando apareceu a MTV, a primeira música que transmitiu foi Video Killed the Radio Star. A rádio continua aí. Quando muito, foi a MTV que morreu enquanto ideia de música na televisão, dando lugar a outras coisas que se lhe sucederam. No início, os discos e os gramofones iam destruir a música ao vivo: as orquestras deixariam de ter público, porque as pessoas já podiam ouvir música em casa. Depois, o CD ia destruir o vinil. Mais tarde, a desmaterialização da música ia destruir o CD. O vinil está aí em força e o CD está novamente a subir em vendas e a conquistar espaço nas lojas.A dimensão física continua a ter importância, com subidas e descidas. A desmaterialização, a digitalização e o nosso fechamento nos ecrãs, com acesso a todo o mundo a partir do que trazemos no bolso, têm a sua importância. Não podemos descartá-las e temos de trabalhar com isso.O que tentamos fazer enquanto teatro é convencer as pessoas, a cada passo, de que a experiência teatral é relevante para as suas vidas.O desafio do teatro, das artes performativas ou das artes em geral é o da relevância. É, sem paternalismos, convencer as pessoas do valor de se sentarem numa assembleia, em comunidade com desconhecidos, para passarem uma hora e meia a descobrir qualquer coisa que, por muito que tenham lido o programa e a sinopse, ou até conheçam o texto, na realidade não sabem o que é. É estar no escuro ombro a ombro com pessoas que não conhecemos, numa relação de confiança com aquilo que nos vai ser mostrado.Esta ideia de estarmos sentados a ver uma coisa que não sabemos o que é, numa relação de confiança com a instituição, com os criadores artísticos e com as pessoas ao nosso lado, para descobrir qualquer coisa, é, na minha opinião, um ato revolucionário nos dias de hoje. É um ato de empatia e generosidade, o antídoto para toda a individualização que vivemos e para as suas consequências: o desaparecimento do lugar coletivo, da comunidade e da partilha com quem nos está próximo ou, por vezes, menos próximo.Vivemos cada vez mais fechados. Nunca estivemos tão conectados e nunca estivemos tão sozinhos. Há uma epidemia de solidão e uma dimensão que não é inocente na algoritmização da nossa economia, nos incentivos criados para passarmos cada vez mais tempo a olhar para um ecrã, sem ligarmos ao mundo que nos rodeia. Como dizia, vemos as nossas retinas colonizadas por milhares de mensagens publicitárias todos os dias.É claro que a tecnologia permite coisas absolutamente incríveis e saltos gigantescos na evolução da humanidade. Isso é extraordinário. Mas não podemos ser ingénuos e achar que a tecnologia é neutra, porque não é. A tecnologia está controlada por oligarcas. Há uma concentração cada vez maior da riqueza nesses oligarcas, que têm cada vez mais peso político e económico e que criam cada vez menos espaço para esta dimensão de comunidade.Nós queremos o contrário. Queremos ser o mais democráticos possível. Queremos que as pessoas se relacionem entre si, sem mecanismos de mediação altamente perniciosos. Queremos que tenham acesso a experiências que não sejam pré-digeridas nem algoritmizadas à exaustão para prender a sua atenção durante o máximo de tempo possível, para que alguém possa lucrar com isso. É para aí que nos leva este modelo de «tecnofeudalismo», como lhe chama Yanis Varoufakis, que é altamente pernicioso.Jogamos noutro campeonato: no de acrescentar à vida das pessoas, sem o objetivo de um capitalismo predatório e extrativista que coloniza todo o nosso tempo de atenção. Os nossos acionistas são o povo, os cidadãos, os habitantes e as comunidades. É para eles que trabalhamos. É a eles que queremos entregar o ROI, o return on investment.O conteúdo Teatro Nacional D. Maria II reabre: «A cultura e o teatro são o antídoto para o estado do mundo em que vivemos», diz Rui Catarino aparece primeiro em Revista Líder.