iPhone Duo: duas coisas ao mesmo tempo, porque uma já não chega

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Antigamente o telefone servia para telefonar, o que hoje parece uma utilização tão estranha e especializada como usar um frigorífico para conservar alimentos ou um automóvel para ir de um sítio para outro. Era um aparelho bastante modesto nas suas ambições: alguém ligava, nós atendíamos; se tivéssemos alguma coisa importante para dizer, dizíamos; se não tivéssemos, desligávamos. Não havia fotografias, mapas, aplicações, notificações, algoritmos, reuniões que podiam ter sido um e-mail, nem a possibilidade extraordinariamente moderna de consultar o estado do tempo em Tóquio enquanto se está parado numa fila em Lisboa.Depois vieram os primeiros telemóveis, objectos desajeitados, espessos, com antenas que prolongavam para fora da carcaça aquilo que ainda não sabíamos que viria a caber inteiro dentro dela; vieram os Nokia, que resistiam a quedas que provavelmente teriam destruído mobiliário; vieram os BlackBerry, que convenceram uma geração de executivos de que escrever e-mails com os polegares era uma forma aceitável de passar o almoço; veio o primeiro iPhone, em 2007, e com ele a ideia de que um telefone podia deixar de ser uma coisa que tínhamos no bolso para passar a ser uma espécie de território portátil onde poderíamos fazer quase tudo.E, como acontece frequentemente quando o ser humano recebe uma ferramenta nova, começámos por perguntar para que servia e acabámos por encontrar demasiadas coisas para lhe pedir.Hoje, um telefone pode ser relógio, máquina fotográfica, televisão, carteira, mapa, bilhete de avião, consola, jornal, agenda, banco, álbum de fotografias, escritório, tradutor, treinador pessoal, despertador e, se acreditarmos suficientemente na Inteligência Artificial, uma espécie de secretário que vive dentro de um rectângulo e não cobra horas extraordinárias.O iPhone Duo vem agora acrescentar outra possibilidade: duas coisas ao mesmo tempo. É o culminar racional de uma patologia tecnológica que começou há muito: a incapacidade de deixar uma coisa em paz enquanto fazemos outra.Finalmente, espaço para não prestar atenção a duas coisasO Duo é o primeiro iPhone dobrável da Apple. Fechado, apresenta um ecrã exterior de 5,4 polegadas; aberto, transforma-se numa superfície interior de 7,6 polegadas. A Apple aproveita esse espaço para introduzir no iPhone uma função que os computadores conhecem há décadas: colocar duas aplicações lado a lado. É possível, por exemplo, manter uma conversa enquanto se consulta outra coisa, abrir duas janelas do Safari para comparar páginas ou guardar pares de aplicações para voltar a eles mais tarde. É uma ideia extraordinariamente contemporânea.Há uns anos, quando alguém dizia que conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo, talvez estivéssemos perante uma pessoa muito organizada. Hoje, provavelmente estamos perante alguém que tem o WhatsApp aberto enquanto vê Netflix, responde a um e-mail enquanto participa numa reunião e consulta o preço de um hotel durante uma conversa sobre o preço de outro hotel. O Duo apenas reconhece oficialmente aquilo em que nos transformámos.Já que não conseguimos concentrar-nos numa coisa, a Apple decidiu dar-nos espaço para duas. O telefone começa finalmente a abrirHá, porém, uma coisa curiosa no Duo que merece mais atenção do que o tamanho do ecrã. Ele abre. Parece uma característica mecânica, mas é quase uma mudança de carácter.Durante décadas, a tecnologia fez precisamente o contrário. Tornou os aparelhos cada vez mais pequenos, finos, discretos, lisos, fechados sobre si mesmos. O telefone moderno tornou-se uma placa: não há tampa, não há teclado, quase não há botões, não há nada para abrir. Existe apenas uma superfície sobre a qual tocamos. O Duo recupera uma coisa antiga: a transformação física do objecto. Fechado, é um telefone. Aberto, vai além disso.E é aqui que entram as aplicações, que são talvez a parte mais interessante desta história, porque o hardware pode dobrar-se, mas quem tem de aprender a viver com a nova arquitectura é o software.O iOS 27 foi redesenhado para acompanhar a abertura do aparelho: menus e controlos passam para as laterais, o ecrã interior pode mostrar duas páginas de aplicações, a Dynamic Island adapta-se à nova disposição e o conteúdo muda de orientação à medida que o telefone se transforma. O escritório entrou no bolso e agora quer duas salasA Apple tem uma palavra para isto: produtividade. É compreensível. No Duo, significa poder ter duas aplicações abertas lado a lado. Zoom de um lado, notas do outro. Slack de um lado, outra coisa do outro. Safari com duas janelas. Siri a conversar connosco enquanto continuamos a olhar para aquilo que está no ecrã. Aplicações como Netflix, Zoom e Slack já estão preparadas para aproveitar o novo formato. É difícil não admirar a engenhosidade da tecnologia.O curioso é que o iPhone Duo não chega para nos ensinar a fazer mais, mas porque já fazemos demasiadas coisas. Os primeiros computadores pessoais prometiam dar-nos acesso àquilo que antes exigia uma máquina enorme. Os smartphones prometeram levar o computador connosco. Os dobráveis parecem agora aceitar uma conclusão inevitável: levámos o computador connosco, mas o computador começou a pedir mais espaço.O Duo concretiza essa proeza. Há, portanto, uma certa ironia histórica nesta evolução. Começámos com telefones enormes que só serviam para telefonar. Passámos para telefones pequenos que servem para quase tudo. E chegámos finalmente a um telefone que se abre para termos mais espaço para fazer todas essas coisas ao mesmo tempo. Talvez seja progresso ou apenas a tecnologia a acompanhar-nos na nossa incapacidade de estar quietos.O conteúdo iPhone Duo: duas coisas ao mesmo tempo, porque uma já não chega aparece primeiro em Revista Líder.