A riqueza vem do Sertão – Por Inácio Feitosa

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Uma picape fora de linha, um moedor de cana na caçamba, um megafone anunciando de rua em rua e um menino que mói, serve e entrega na porta enquanto o pai recebe. Os dois voltaram quebrados de São Paulo e gastaram o que restou das economias no carro velho, na máquina e na cana.Quem passa vê um caldo de cana ambulante. Eu vejo um negócio completo: marketing, produção, logística, venda e cobrança no mesmo ato, sem intermediário e sem aplicativo. Numa capital, seriam quatro departamentos e uma agência contratada. Ali são duas pessoas e uma caçamba.Não sei se vai dar certo. O negócio tem poucos meses, pode crescer, pode fechar, pode fechar e recomeçar. Mas a semente germinou, e a semente é a parte difícil.O que está em jogoQuando um negócio quebra numa capital, o dono volta a ser empregado. Dói, mas dói nele. No semiárido não há esse colchão. Muitos jovens sequer conseguem a primeira carteira assinada, não têm estágio e não têm quem lhes diga que a universidade pública é possível. Ali, quando o negócio quebra, quebra a casa, o sustento dos pais e o estudo dos filhos. A persistência que o Sudeste lê como heroísmo é, na origem, aritmética: não desistir é a única conta que fecha.Seis que já deram frutoO veterinário casou-se cedo, sem condições de pagar o aluguel de uma casinha, e saiu de sítio em sítio oferecendo o serviço sem cobrar. Desconfiaram dele, porque o que é de graça não presta. Veio o primeiro cliente, que chamou o segundo. Foi guardando e comprando casinhas na avenida principal. Duas décadas depois, tem mais de trinta imóveis, um shopping center e continua atendendo animal.O casal da farmácia se conheceu como empregado, aprendeu o negócio por dentro e abriu o próprio. Descobriu que o maior comprador da região não era o freguês, era a prefeitura. Hoje atua em cinco municípios, abastece vinte farmácias, tem os filhos nas melhores universidades e segue atrás do balcão.O menino do picolé aprendeu as fórmulas na adolescência e quebrou mais de uma vez. Na pandemia percebeu que quem passou anos colocando massa em fôrma e desenformando em escala sabe fazer pré-moldado. Trocou a matéria-prima e manteve o método. Hoje é multimilionário, entrou na caprinocultura e prepara a segunda operação em Petrolina.O vaqueiro mal terminou o ensino médio e passou a vida cuidando de boi dos outros. Viu na vaquejada uma economia, e não um passatempo. Ergueu o primeiro parque da região, depois um dos melhores, passou a ter os próprios animais de corrida e convenceu municípios vizinhos a montar um circuito, criando calendário onde só havia evento avulso. Hoje tem fazendas, gado e sociedades.Outro abriu um restaurante que fracassou e um segundo que apenas empatou as contas. Enquanto isso, construía casas para alugar e aprendia a vender ao poder público. Vive de três fontes independentes. Quem quebra uma vez nunca mais apoia o peso do corpo numa perna só.E há a mulher que começou repassando a terceiros um trator que ela própria havia alugado. Não tinha ativo: tinha a percepção de que havia demanda não atendida. Veio o primeiro caminhão, o segundo, o terceiro, depois máquinas próprias. Hoje comanda uma das maiores locadoras de equipamentos do sertão pernambucano, construída muito antes do mandato de prefeita que hoje exerce.O que eles têm em comumNinguém começou do zero. Todos dominavam o ofício antes de serem donos. O veterinário sabia curar, o menino sabia a fôrma, o vaqueiro sabia o boi, ela sabia o que custava alugar uma máquina porque pagava por isso todo mês. Capital não tinham. Competência tinham, e ninguém chamava aquilo de capital, nem eles.O crédito não vem do banco, vem do fiado. Sem birô e sem garantia real, o que garante é o nome na praça. Reputação ali não é marketing: é acesso a dinheiro. Por isso o veterinário trabalhou de graça no início. Não estava perdendo receita, estava fazendo depósito.E todos enxergaram a lacuna porque estavam dentro dela. Um viu que faltava confiança, não preço. Outro viu quem comprava em volume. Outro viu que fôrma é fôrma. Outro viu que faltava calendário. É a pesquisa de mercado mais barata que existe e não exige diploma: exige prestar atenção enquanto se paga a conta.Ninguém foi emboraTodos reinvestiram onde nasceram. Compraram terra e tijolo na rua em que cresceram, contrataram vizinhos e ergueram estrutura que a cidade não tinha. Isso inverte a história que o Brasil conta sobre o Nordeste há um século, aquela em que o final feliz do sertanejo é a passagem só de ida. O êxito não serviu de passaporte de saída, serviu de decisão de ficar. É disso que falo quando falo em riqueza que vem do sertão: a que nasce ali e permanece.O que não se pode esconderSeis histórias de êxito não provam que o sertão dá certo. Provam que é possível. Milhares rodaram os mesmos povoados, compraram no mesmo fiado, tentaram três vezes e não levantaram, e a diferença nem sempre foi mérito. Reconhecer isso muda a pergunta. Ela deixa de ser por que eles conseguiram e passa a ser por que é preciso tanto talento, tanta queda e tanta dor para conseguir no semiárido o que, em outros lugares deste país, se consegue com um empurrão inicial, crédito acessível e uma escola que funcione.São histórias como essas que reúno em meu livro A riqueza que vem do sertão, hoje em preparação.Enquanto ninguém responde, seguem eles resolvendo sozinhos. Numa caçamba de picape, num balcão de farmácia, num parque de vaquejada. Fazendo, na aridez, o que muita gente não faz com tudo à disposição.Inácio Feitosa é empresário, consultor e educador. CEO da TED – Negócios e Empreendimentos, presidente do Instituto IDR e fundador do Instituto IGEDUC. Foi diretor do SENAI Pernambuco e secretário de Educação Profissional e Juventude do Recife. Advogado e mestre em Educação pela UFPE, é autor de “O Poder das Mulheres Empreendedoras” e prepara o livro “A riqueza que vem do sertão”.O post A riqueza vem do Sertão – Por Inácio Feitosa apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.