StartupiIA já resolve problemas que desafiaram matemáticos por um século. Mas a próxima conta deverá ser resolvida pelos humanos, sob pena de sua própria sobrevivênciaVisualize um grupo de 10 mil agentes de inteligência artificial dedicando 88 horas ininterruptas, cada um aprimorando o trabalho do outro e baseando-se em séculos de conhecimento humano até conseguirem resolver um problema que desafiou inúmeras gerações de matemáticos. Isso não se trata do enredo de um filme de ficção científica, pois é a realidade que se desenrolou quando a OpenAI divulgou a solução para um dos intricados Problemas do Prêmio do Milênio. A solução do desafio é fruto de uma reportagem do jornal Wall Street Journal (WSJ). Para os executivos que ainda veem a IA como uma ferramenta para aumentar a produtividade de forma gradual, o episódio serve como um aviso estratégico: a rapidez com que a tecnologia avança não está seguindo as expectativas, ela está superando-as. E pelo visto, nem o mais sofisticado dos intelectos será páreo quando o pensamento das máquinas cruzar as fronteiras mais desafiadoras do raciocínio humano, e nenhum setor econômico escapa à transformação que se avizinha.O marco que os céticos prometeram que demoraria anosOs céticos sempre encontraram abrigo na matemática. Modelos de IA já cometeram erros em cálculos simples, depois em matemática de nível de pesquisa, e em seguida em olimpíadas da disciplina. Mas, como era de se esperar, cada obstáculo foi superado. E de acordo com pesquisas, há apenas um ano, especialistas em previsões estimavam que havia cerca de 20% de chance de que a IA solucionasse o tal Problema do Prêmio do Milênio até 2030. O que era improvável, meses atrás, tornou-se tão inevitável que a OpenAI mobilizou um modelo interno para trabalhar em soluções ao flagrar rumores de que a concorrente Anthropic já teria contornado um desses problemas.O resultado parece impressionante, especialmente por sua magnitude, afinal o problema, chamado de Navier-Stokes, havia desafiado os matemáticos por quase um século. O preço cobrado pela inteligência artificial foram milhões de dólares em capacidade de processamento e vários dias de análise. O alvo eram sete problemas, cada um com a recompensa de US$ 1 milhão por sua solução, e que, de acordo com declaração do matemático Alain Connes, “são totalmente inacessíveis aos computadores”. Atualmente, Connes mudou de ideia e se declara “extremamente otimista” em relação aos avanços da IA na matemática.A carta de Amodei: o alerta vindo de dentro da indústriaAntes de seguirmos com o tal “desafio do milênio”, vale o registro do contexto em que o sucesso da IA no campo matemático ocorreu. Quase ao mesmo tempo, a Anthropic, a mesma empresa que supostamente teria vencido primeiro um dos problemas do milênio, divulgou o alerta mais eloquente sobre a velocidade dessa corrida. Em uma carta pública, o CEO, Dario Amodei, argumenta que os sistemas de IA estão avançando em direção a capacidades que podem superar o controle humano mais cedo do que governos e sociedades imaginam. Amodei, que construiu sua reputação justamente como um dos executivos mais cautelosos do setor, defende que o desenvolvimento de modelos cada vez mais poderosos exige salvaguardas proporcionais ao risco, incluindo avaliações rigorosas de segurança, transparência sobre as capacidades reais dos sistemas e coordenação internacional para evitar que a competição comercial atropele a prudência técnica.Mas a carta não é um manifesto contra a IA e Amodei segue otimista quanto ao potencial da tecnologia para resolver problemas de saúde, ciência e economia. Em sua carta, ele deixa explícito o paradoxo que define o momento: o mesmo executivo cuja empresa disputa palmo a palmo a liderança tecnológica com a OpenAI admite que a humanidade pode estar construindo algo que não sabe controlar por completo.A divisão no topo: CEOs e o debate sobre a desaceleraçãoA repercussão da carta de Amodei expôs uma fratura no coração do Vale do Silício. Executivos de outras grandes empresas de IA passaram a discutir abertamente a possibilidade de desacelerar, ou ao menos condicionar, o lançamento de modelos mais potentes. De um lado, há quem argumente que uma pausa coordenada daria tempo para que pesquisas de segurança acompanhassem o ritmo dos avanços de capacidade. De outro, os céticos da desaceleração sustentam que qualquer freio unilateral seria inútil: se as empresas americanas diminuírem o passo, a dianteira tecnológica migraria para laboratórios menos transparentes — e menos preocupados com segurança — em outras jurisdições.O próprio Sam Altman, CEO da OpenAI, já oscilou publicamente entre os dois pólos: por vezes defendeu supervisão regulatória e reconheceu riscos significativos; em outros momentos, acelerou lançamentos em plena disputa comercial. O resultado é um setor em que praticamente todos os líderes concordam, em teoria, que o risco existe, mas nenhum se dispõe a puxar o freio primeiro.Trump e a corrida contra a ChinaEsse dilema ganhou contornos geopolíticos com a declaração de Donald Trump de que os Estados Unidos precisam vencer a corrida da inteligência artificial contra a China. Ao tratar a superinteligência como questão de segurança nacional e prioridade estratégica, o presidente americano sinalizou que a competição com Pequim não tolera desaceleração e, pelo contrário, exige investimento maciço em infraestrutura de computação, energia e desregulamentação para que as empresas americanas avancem mais rápido que as rivais chinesas.A declaração de Trump tensiona diretamente o apelo da carta de Amodei. Se a segurança pede cautela, a geopolítica pede velocidade. E o próprio CEO da Anthropic já reconheceu esse eixo do problema ao defender controles de exportação de chips avançados para a China, admitindo que a contenção do risco, no cenário atual, passa menos por desacelerar a IA do que por impedir que modelos poderosos se desenvolvam sem qualquer salvaguarda do outro lado do mundo. Para executivos e formuladores de políticas, o recado é incômodo: a discussão sobre “frear ou não frear” talvez já tenha sido decidida pela disputa entre Washington e Pequim.Teorema com embalagem de marketing bilionárioVoltando ao caso da solução do problema matemático, há uma interpretação empresarial crucial aqui. Pelo que se percebe, a matemática se transformou em uma ferramenta de marketing, uma maneira de exibir publicamente as habilidades crescentes dos novos modelos. É uma competição de narrativas e de credibilidade técnica entre empresas que atraem bilhões e que competem pela liderança na próxima plataforma tecnológica global.E no que diz respeito ao mercado global, incluindo para empresas brasileiras, vale o registro da importância de estar na ponta dessa equação, pois a IA já toma decisões algorítmicas em larga escala e baseadas precisamente no tipo de raciocínio complexo que esses modelos estão começando a dominar. A habilidade de solucionar questões de pesquisa em dias, em vez de décadas, provavelmente irá acelerar os ciclos de inovação em precificação de risco, descoberta de medicamentos e otimização logística, áreas em que o Brasil possui posições competitivas importantes.A conta que ninguém estava disposto a realizarMas, no mesmo dia em que ocorreu a façanha matemática, um cálculo bem mais macabro fez as manchetes. Jacob Coxon, um pesquisador que já atuou na OpenAI e na Anthropic, pediu demissão por motivos de segurança e afirmou que as pessoas que desenvolvem IA “acreditam sinceramente que ela poderia matar a todos nós”. Evan Hubinger, um pesquisador da Anthropic que se declara que se dedica a assegurar que a IA não aniquile a raça humana, confirmou a declaração. Em uma postagem na rede social X, Hubinger calculou que a chance de extinção da humanidade na próxima década é maior do que 10%, tornando o apocalipse, segundo seus números, mais provável do que um jogador de ponta no basquete errar… um lance livre.E aqui está um dilema curioso, pois as mesmas companhias que fazem os maiores avanços da tecnologia moderna também abrigam cientistas que calculam o risco existencial dessas mesmas inovações. E a matemática, que sempre foi uma ferramenta para os seres humanos entenderem o mundo, agora nos dá uma visão de um mundo que pode transcender nossa compreensão.O que os mais renomados matemáticos do mundo têm a dizerA resposta da comunidade matemática indica quão profunda é a ruptura. Em 2023, Terence Tao, que muitos consideram como o maior matemático vivo, já havia avisado que a IA seria “radicalmente transformadora”, a ponto de tornar insustentável a manutenção das práticas tradicionais da matemática sem adaptação. Tao foi um dos aproximadamente 24 ganhadores da maior honraria na matemática, a Medalha Fields, que, nesta semana, advertiu que a obsessão da indústria em resolver problemas matemáticos pode comprometer o próprio propósito da disciplina, caminhando para um “pior cenário possível”.Já Timothy Gowers, também laureado com a medalha Fields, resumiu a complexidade do momento em sua fala ao veículo: “O sonho ainda vivo de que existe um papel para o ser humano na matemática não foi totalmente destruído por isso. Imagino que, se há um modelo que consegue fazer isso, ele também será capaz de realizar muitas outras coisas”. Sua conclusão: “Não quero dizer que tudo acabou, mas certamente não quero dizer que não acabou”.A questão que os seres humanos devem solucionarAo que se tem notícia, a OpenAI já organizou encontros com matemáticos em sua sede em São Francisco, partindo de uma premissa desconfortável: a IA atingirá um desempenho sobre-humano em matemática. Mas, as questões que surgiram, relacionadas à educação, colaboração, publicação científica e ao preparo da próxima geração, permaneceram sem resposta. E é nesse ponto que a discussão se torna importante para os líderes brasileiros: o país está discutindo no Congresso o marco regulatório da inteligência artificial exatamente quando a evolução tecnológica ocorre mais rapidamente do que qualquer processo legislativo e quando a disputa entre Estados Unidos e China reduz o espaço para uma coordenação global de segurança.O aprendizado que se pode extrair dos Problemas do Prêmio do Milênio é que tentar prever a rapidez do avanço da IA é uma tarefa que exige bastante humildade. Para executivos, fundadores e conselhos, a questão estratégica já não é mais “se” a tecnologia transformará seu setor, mas “quando” e “a que custo”. Desta vez, ao que tudo indica, não serão as máquinas que resolverão os problemas mais complicados. Serão os humanos que terão que resolvê-los. E o preço final de um eventual insucesso pode ser algo muito maior do que se imaginou um dia: a própria sobrevivência da raça humana.O post IA já resolve problemas que desafiaram matemáticos por um século. Mas a próxima conta deverá ser resolvida pelos humanos, sob pena de sua própria sobrevivência aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Ricardo AzevedoO post IA já resolve problemas que desafiaram matemáticos por um século. Mas a próxima conta deverá ser resolvida pelos humanos, sob pena de sua própria sobrevivência apareceu primeiro em Startupi.