Inês Oom de Sousa: «Cuidar de outra pessoa não dá aplausos». A vida depois do topo

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Foi a partir desta inquietação que David Brooks escreveu The Second Mountain, livro que esteve ontem à tarde no centro de mais um encontro do clube de leitura The Author’s Table, promovido pela Líder e pela Tale House. Inês Oom de Sousa, Rita Sambado e Catarina Barosa partiram da obra do jornalista e escritor norte-americano para discutir uma questão que atravessa tanto a vida pessoal como profissional: depois da conquista, do reconhecimento e da carreira, o que fica?O encontro realizou-se esta quinta-feira, 17 de setembro, entre as 17h30 e as 19h00, na Tale House, em Alfragide, com Inês Oom de Sousa como convidada. Atualmente administradora não executiva do ABANCA, Inês Oom de Sousa integrou anteriormente o Conselho Executivo do Santander, foi Head of ESG Europe e liderou a Fundação Santander Portugal desde a sua criação, em 2022, até 2025, percorrendo uma carreira em que temas como liderança, sustentabilidade, responsabilidade e impacto se cruzam naturalmente com algumas das perguntas colocadas por Brooks.Publicado originalmente em 2019, The Second Mountain: The Quest for a Moral Life começa onde muitas narrativas contemporâneas de sucesso costumam terminar. Há uma primeira montanha, aquela que aprendemos desde cedo a subir: estudar, escolher uma profissão, construir uma carreira, alcançar determinados lugares, ganhar reconhecimento, conquistar autonomia. Só que, para Brooks, há pessoas que chegam ao topo e descobrem que a paisagem já não corresponde inteiramente ao sonho. Pode não haver desaire ou fracasso algum e esbarrar, simplesmente, num momento em que aquilo que se perseguiu durante anos deixa de bastar.A ideia, porém, não encontrou uma adesão absoluta entre as intervenientes. Inês Oom de Sousa começou precisamente por se afastar da arquitetura proposta pelo autor. «Não me revi totalmente nas duas montanhas de que o autor fala.»Para a convidada, a segunda montanha não surgiu depois de uma ruptura ou de um momento de desencanto. Surgiu muito antes. «A maioria pode ter essas duas montanhas. O autor vai para a segunda montanha depois de um desgosto amoroso. Eu nasci na segunda. Tive essa sorte. De nascer numa família onde a empatia era um modo de vida.»A frase desloca a discussão. Se Brooks descreve uma passagem, quase uma travessia entre duas formas de existência, Inês Oom de Sousa introduz a possibilidade de que algumas pessoas sejam educadas desde cedo num território onde a relação com os outros não aparece como uma descoberta tardia, mas como uma espécie de princípio fundador. É também nesse ponto que surge uma das perguntas centrais do livro: onde podemos fazer a diferença? A resposta de Inês Oom de Sousa não ficou no plano abstracto. Evocou um episódio relacionado com a guerra na Ucrânia e o resgate de refugiados, quando uma operação inicialmente pensada para transportar metade das pessoas acabou por trazer cerca de 200 de avião.A ideia é simples e, ao mesmo tempo, exigente: se existem recursos, capacidade ou possibilidade de intervir, a responsabilidade não termina na constatação de que se poderia ter feito alguma coisa. «Se temos condições, devemos fazer pelos outros», resumiu Inês, numa intervenção que ajudou a deslocar a segunda montanha do território da realização individual para o território da responsabilidade.A dificuldade está em transformar essa predisposição individual numa lógica colectiva. «As pessoas têm grandes egos», observou, identificando nessa dimensão individual uma das barreiras à construção de qualquer coisa comum. Fazer em conjunto implica aceitar que as decisões demoram mais, que o reconhecimento se distribui e que nem sempre é possível saber quem ficará com o mérito. «Fazer coisas em termos colectivos custa e demora tempo.» Talvez por isso o universo das fundações lhe pareça particularmente próximo da ideia de Brooks. É um espaço onde diferentes vontades podem convergir em torno de um bem comum, mesmo quando o resultado não é imediatamente traduzível em benefício pessoal.A dificuldade começa, porém, ainda mais perto de casa. A própria ideia de comunidade, tão importante em The Second Mountain, pode parecer evidente até ao momento em que tentamos praticá-la.Brooks coloca a comunidade entre os quatro grandes compromissos que estruturam a segunda montanha, ao lado da vocação, da família e da filosofia ou fé. O princípio comum é uma mudança de centro de gravidade: deixar de perguntar apenas o que uma escolha nos pode oferecer e começar a pensar também naquilo a que ela nos liga, pelas pessoas por quem nos responsabiliza e pelo que estamos dispostos a oferecer aos outros.Rita Sambado introduziu na conversa uma outra dimensão dessa procura, relacionando a questão da autorrealização com a confiança e com uma dimensão espiritual que nem sempre aparece nas discussões contemporâneas sobre sucesso.A questão da confiança é particularmente relevante porque The Second Mountain é, antes de ser um livro sobre carreiras, uma reflexão que perscruta o compromisso. Brooks distingue uma carreira de uma vocação: a primeira pode ser construída através de escolhas, competências, oportunidades e reconhecimento; a segunda implica descobrir aquilo a que estamos dispostos a entregar uma parte significativa da vida.É aqui que a conversa se aproxima do mundo profissional. Num mercado de trabalho em transformação permanente, onde se fala de mobilidade, reinvenção, competências e capacidade para mudar de função, a vocação parece quase uma palavra de outro tempo. Mas Brooks inverte o jogo: será possível construir uma carreira com sentido sem descobrir, em algum momento, aquilo a que estamos dispostos a permanecer ligados?Os quatro compromissos de Brooks — vocação, família, filosofia ou fé e comunidade — introduzem, por isso, uma ideia pouco confortável numa cultura profissional que valoriza a flexibilidade acima de quase tudo: a ideia de que algumas escolhas só ganham significado porque cristalizamos nelas. Mas também aqui houve distância crítica em relação ao livro.Catarina Barosa levou a discussão para um lugar mais radical: o da morte e do desapego do próprio eu. A sua leitura da segunda montanha começa quando o indivíduo deixa de ser o centro da narrativa.«Se enfrentaste a morte houve um desapego total do eu.» A morte, neste sentido, dissolve a ilusão de centralidade individual que pode acompanhar a primeira montanha. E é justamente a partir daí que Catarina Barosa questiona a perda de comunidade descrita por Brooks.No livro, a construção das grandes cidades e das grandes ruas acompanha também o desaparecimento de uma certa ideia de vizinhança. Quanto maiores se tornam os espaços, mais difícil pode ser reconhecer quem vive ao nosso lado.A pergunta torna-se ainda mais inquietante quando se percebe que, para algumas pessoas, a segunda montanha pode chegar demasiado tarde. «Muitas pessoas só chegam à segunda montanha perto da morte.»É uma observação que altera a própria leitura do livro. Se a primeira montanha é o território para o qual a sociedade nos prepara — ambição, carreira, reconhecimento, crescimento —, talvez a segunda exija uma aprendizagem para a qual não fomos educados.Catarina Barosa deslindou essa tensão: «O mundo está organizado para ser a primeira montanha.» Há, contudo, experiências que procuram contrariar essa lógica, preparando pessoas para uma ambição diferente. Foi dado como exemplo o caso de uma escola em Londres que trabalha a ideia de uma «ambição moral», procurando formar líderes capazes de mobilizar pessoas e produzir mudanças para além da própria trajectória.É neste cruzamento entre ambição e responsabilidade que o livro se torna relevante para a liderança. Uma empresa pode crescer, conquistar mercado, aumentar resultados e promover pessoas; pode, portanto, subir a primeira montanha com extraordinária eficácia. Mas o que acontece quando já não basta perguntar quanto cresceu e é necessário perguntar para quê?A experiência de Inês Oom de Sousa na banca, no ESG e na liderança de uma fundação coloca-a na intersecção entre resultados económicos, sustentabilidade, impacto social e responsabilidade institucional. Na Fundação Santander Portugal, que liderou desde a sua criação, em 2022, até 2025, esteve à frente de um projecto que, nesse período, beneficiou mais de 304 mil pessoas e mobilizou 21,4 milhões de euros, mais de metade destinados à Educação.Também aqui a lógica das métricas encontra o seu limite. Há objectivos que podem ser medidos, resultados que podem ser apresentados e indicadores que permitem saber se uma organização chegou a determinado lugar. Mas há compromissos cuja importância não aparece necessariamente numa folha de resultados.Inês deu um exemplo profundamente pessoal. Entre os seus objectivos actuais está aquele que talvez menos tenha a ver com carreira, estatuto ou reconhecimento: garantir que a mãe, aos 91 anos, esteja tranquila e tenha momentos de felicidade. «Que a minha mãe esteja tranquila, 91 anos, tenha momentos de felicidade, que não tenha saudades da mãe dela. Esse não consigo.»É uma frase pequena diante da engenharia do livro, mas também é uma das que melhor explicam a segunda montanha. Não há promoção, prémio ou métrica capaz de medir inteiramente esse compromisso. Não há aplauso associado a cuidar de outra pessoa. Há apenas a responsabilidade de estar. De ser. «Cuidar de outra pessoa não faz receber aplausos. Não há métricas.»A conversa aí encontrou uma das suas maiores distâncias em relação ao linguajar habitual do sucesso. A primeira montanha oferece resultados visíveis: há lugares a alcançar, objectivos a cumprir, títulos, remunerações, reconhecimento. A segunda é mais silenciosa. Muitas vezes, nem sequer sabemos se chegámos.Rita Sambado introduziu a confiança; Catarina Barosa, a morte, o desapego e a comunidade; Inês Oom de Sousa trouxe uma experiência profissional atravessada pela responsabilidade e uma experiência pessoal que começa muito antes daquilo que Brooks identifica como a segunda montanha.Nem todas concordaram inteiramente com a metáfora. Catarina Barosa considerou-a, em parte, «um bocado absurdo», aproximando-a da estranheza de Camus. Inês, por seu lado, recusou a ideia de uma separação absoluta entre as duas etapas: as montanhas podem ser complementares.É uma leitura interessante porque devolve a primeira montanha ao interior da segunda. A carreira não precisa de desaparecer para que apareça o propósito; a ambição não precisa de ser abandonada para que possa existir responsabilidade; o sucesso individual pode continuar a existir, mas deixa de ser a única medida através da qual uma vida é avaliada.The Second Mountain traz-nos uma lição: o que acontece quando percebemos que aquilo que nos trouxe até ao topo não é necessariamente aquilo que nos ensina o que fazer depois de lá chegarmos?Numa época em que empresas e profissionais são constantemente convidados a optimizar, acelerar, reinventar e voltar a começar, a segunda montanha introduz uma palavra menos popular: permanecer. Permanecer numa relação. Numa comunidade. Numa responsabilidade. Numa vocação. Numa pessoa que precisa de nós. O que merece, afinal, uma parte da nossa vida?Foi essa conversa, entre ambição e propósito, carreira e vocação, autonomia e pertença, sucesso individual e responsabilidade colectiva, que o The Author’s Table levou à Tale House, numa tarde em que a segunda montanha de Brooks acabou por servir menos como resposta do que como lugar de partida para uma pergunta que cada uma das intervenientes respondeu a partir de uma paisagem diferente.O conteúdo Inês Oom de Sousa: «Cuidar de outra pessoa não dá aplausos». A vida depois do topo aparece primeiro em Revista Líder.