Ex-presidente da Loterj é investigado por usar entidade em promoção pessoal

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A Corregedoria do Estado do Rio de Janeiro tem uma sindicância aberta para investigar denúncias contra o ex-presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) Hazenclever Cançado, que ficou no cargo até março e agora concorre a uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Partido Liberal (PL).Ex-assessor do senador Magno Malta (PL), ele é acusado de cometer assédio moral, de utilizar a autarquia estadual em benefício próprio, incluindo mais gastos acima de R$ 580 mil em passagens e diárias para si em menos de quatro anos no cargo e de nomear cabos eleitorais e funcionários particulares.Um dos processos abertos no âmbito da sindicância apura “supostas práticas de assédio institucional, promoção pessoal e uso indevido da máquina pública” por Hazenclever. Uma comissão já produziu um relatório de sindicância, enviado à Corregedoria Geral, que ainda não respondeu sobre a instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD).A coluna apurou que, entre julho de 2022 e março de 2026, período em que presidiu a Loterj, Hazenclever viajava com frequência para “missões oficiais” e “compromissos em Brasília”, onde tinha “reuniões institucionais”, ainda que não descrevesse com quem iria se encontrar para tratar do que. Hazenclever morava em Brasília e boa parte das viagens coincidiam com finais de semanas e feriados. Leia também Tácio LorranDono de empresa licenciada pela Loterj está preso por ligação com PCC BrasilCláudio Castro nega interferência em contato com Mendonça sobre Cabral Tácio LorranCláudio Castro sobre sobrinho do bicheiro Adilsinho: “Meu amigo” Documentos obtidos pelo Metrópoles mostram que, enquanto Hazenclever era presidente da Loterj, a autarquia pagou R$ 386 mil em passagens aéreas para ele, além de R$ 172 mil em diárias. Considerando também hospedagens, os custos chegam a R$ 585 mil.A sindicância também apura um conjunto de denúncias de assédio moral. A coluna ouviu que o ex-presidente é acusado de constranger e ameaçar funcionários da autarquia para que seus interesses pessoais fossem atendidos.Entre as situações investigadas está a decisão de Hazenclever de determinar que a Rio Pag deixasse de repassar à Loterj a parte que cabia à autarquia no incomum contrato que deu à empresa o monopólio na intermediação de pagamentos entre apostadores e as casas de apostas credenciadas no Rio de Janeiro.Naquele momento, as bets movimentavam bilhões no Rio, que oferecia uma licença mais “barata” do que a nacional, em uma concorrência explícita com a União. O monopólio da Rio Pag, que ficava com até 2,5% de cada transferência, porém, tornava a licença do Rio na verdade bem mais cara do que a federal, com a empresa ficando com montantes superiores aos destinados aos cofres públicos – no mercado, a taxa padrão é de 0,20%.A licitação daria vitória a quem oferecesse à Loterj uma porcentagem maior de sua arrecadação, mas a primeira colocada, que oferecia taxa melhor, foi eliminada porque só dois dígitos depois da vírgula, enquanto o edital previa três.Só em janeiro de 2024, a RioPag recebeu mais de R$ 30 milhões de uma única bet pela intermediação dos pagamentos, enquanto o Estado teve direito a R$ 13 milhões em impostos sobre a receita líquida dessa casa de apostas.Quando havia expectativa de esses números ficarem ainda maiores, com o início da operação das máquinas de videoloterias, que são idênticas aos caça-níqueis e seriam operadas por familiares da antiga cúpula do Jogo do Bicho, Hazenclever pediu que a RioPag parasse de transferir a parte que cabia à Loterj. Em uma breve troca de ofícios, determinou que a empresa fizesse a “custódia” do dinheiro, sem dar outros detalhes.Ele foi exonerado em março, depois que o desembargador Ricardo Couto assumiu como governador. Só então a Loterj cobrou que a RioPag transferisse o dinheiro represado. Aí, como contou a coluna, a empresa primeiro não respondeu, depois tentou negociar o pagamento parcelado. Enfim, disse ao Metrópoles que o dinheiro estava investido em um fundo no Santander que só permitia o resgate em outubro.Citando a reportagem da coluna, a Loterj conseguiu uma decisão judicial para bloquear os bens da Rio Pag e descobriu que a verba não estava no sistema bancário. A empresa, em seguida, fez a transferência de R$ 16.526.712,16 para a Loterj, lembrou já ter depositado outros R$ 2 milhões, e considerou a dívida paga, sem necessidade de considerar juros e multa. A autarquia diz que a empresa ainda tem outros R$ 4,6 milhões a pagar.Um processo administrativo sancionatório discute se a suposta infração deve causar o rompimento do contrato entre a Loterj e a Rio Pag. A empresa é defendida por Willer Tomaz, advogado alvo de operação da Polícia Federal em agosto, acusado de ser um “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” à disposição do senador Weverton Rocha (PDT-MA).Willer, que  reconheceu à coluna que é um dos beneficiários da RioPag: é acionista do fundo que investe na Capital Pretium SA, que por sua vez é a dona da Rio Pag. A Capital Pretium é administrada por Lidia Mazelli, que atua como administradora profissional para Willer Tomaz. Quando questionado pela coluna, o advogado não informou o nome do fundo, nem detalhou quem são seus parceiros no negócio. Ele e Hazenclever atuaram juntos como advogados em processos em diversas esferas antes de este assumir cargo na Loterj.Hazenclever recebeu R$ 300 mil da direção nacional do PL para concorrer a deputado federal, mas teve o registro de candidatura indeferido pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) na semana passada, porque não apresentou uma certidão criminal obrigatória. Nesta quinta-feira (17/9), a decisão foi revista.Ele, antes, teve dois pedidos de mudança de nome de urna rejeitados pelo TRE. Primeiro, queria concorrer como “Chama o Clever”. Depois, como “Clever”. Mas ele vai para eleição como “Hazenclever Lopes” mesmo.Procurado pela coluna, Hazenclever visualizou mas não respondeu as mensagens enviadas pelo Whatsapp. Willer Tomaz, que tem negado qualquer tipo de irregularidade no contrato da RioPag com a Loterj, também não enviou comentários.Já Loterj enviou a nota abaixo:“A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (LOTERJ) informa que uma sindicância administrativa foi instaurada na Corregedoria do Estado para apurar supostas irregularidades atribuídas à gestão do ex-presidente da Autarquia, Hazenclever Lopes Cançado. O procedimento teve origem em denúncias recebidas diretamente pelos órgãos de controle do Estado, que encaminharam os relatos à Corregedoria para a devida apuração. O processo é sigiloso, a LOTERJ acompanha o andamento da sindicância e permanece à disposição dos órgãos competentes para prestar esclarecimentos e fornecer as informações bem como documentos necessários, respeitando os trâmites legais.”